sábado, 11 de abril de 2026

A verdadeira dor (A real pain) - Jesse Eisenberg

    Civilizações que passaram por guerras e imigrações tendem a se fechar e ter seus integrantes se apoiando, costuma haver um movimento bonito de solidariedade. É o caso do povo judeu, ameaçado e perseguido por séculos e por muito tempo um povo sem pátria.
    Entretanto a partir dos conflitos e opressões, muitas vezes também vêm sentimentos revanchistas entre estes povos. É o que vemos atualmente entre grande parte dos judeus, que apóiam o estado criado para eles e um expansionismo bélico e fascista.
    Em paralelo há um movimento de enaltação à sua cultura e como em Hollywood a comunidade judaica é muito grande e importante, não à toa andaram surgindo obras com esse perfil.
    É o caso de A verdadeira dor de Jesse Einsenberg. Conhecido por seu trabalho de ator, em filmes como Lula e a Baleia, A rede social e Truque de mestre, Aqui Jesse se arrisca na direção, o filme tem um tema interessante de reencontro com as origens da família a partir da morte da vó e uma direção competente, porém a história é rasa e arrogante.
    Dois primos se encontram para fazer essa viagem de homenagem e há um conflito entre eles: o primo mais reprimido e certinho, vivido por Jesse e o primo mais criativo e impulsivo vivido por Kieran Culkin, muito elogiado por essa atuação por sinal.

    Mas na impulsividade desse primo há um comportamento muito desrespeitoso, de quem se acha o centro do universo e não se importa com os sentimentos ao redor, até aproximando Culkin de seu trabalho de destaque anterior, vivendo um dos irmãos da série Succession.
    As verdadeiras dores ficam então ofuscadas por imaturidades e um certo umbiguismo e acabam por não interessar e comover tanto.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sinédoque, Nova Iorque (Synecdoche, New York) - Charlie Kauffman

     Conhecido por parcerias exitosas como em Brilho eterno de uma mente sem lembranças dirigido por Michel Gondry - já comentado no blog - ou Quero ser John Malcovich dirigido por Spike Jonze, aqui o roteirista Charlie Kauffman se arrisca também na direção em Sinédoque, Nova Iorque.

    E faz um bom trabalho, com um elenco interessante e uma montagem vertiginosa acompanhando o processo de criação de um diretor de teatro, vivido pelo saudoso Philippe Seymour Hoffman.

    A questão com o filme são os excessos, a ideia dentro da peça, dentro do filme em que tudo é metáfora para processos de apaixonamento, separação e luto do artista. As diferentes camadas ficam confusas, como uma construção barroca em que por um lado dá forma e materialidade a sensações abstratas, mas por outro vai diluindo e ofuscando sua mensagem.

    Um pouco como Quero ser John Malcovich, que traz uma premissa genial, mas numa história que parece não saber o que fazer com ela, fosse um curta seria maravilhoso, mas num longa fica desgastante.

    Sinédoque, nome que remete à figura de linguagem semelhante a metonímia, demanda seu tamanho, mas poderia ter mais lapidação, assim os estranhamentos lynchianos (nos remetendo um pouco a Estrada perdida ou Cidade dos sonhos), como casas em incêndio por anos ou personagens vividas por diferentes atores,  teriam mais potência.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

A filha perdida (La Figlia Oscura / The Lost Daughter) - Elena Ferrante / Maggie Gyllenhaal

Poucas são as criações artísticas com características mais explicitamente femininas. A escrita de Clarice Lispector é um exemplo, com seus fluxos de pensamento em associação livre que apresentam menos considerações e racionalizações diretas e fálicas e mais uma sinestesia da vivência corpórea e intimista. No cinema sua obra pode ser conhecida na adaptação de Suzana Amaral para A hora da Estrela.

Também Marguerite Duras com sua sensualidade intensa e ao mesmo delicada, errante e muito característica. Além de escritora, Marguerite era roteirista, assinando dezenas de obras, e parceira de diretores como Alain Resnais na obra-prima Hiroshima mon amour ou na adaptação de Jean-Jacques Annaud para um de seus livros mais importantes: O amante.

Um exemplo mais recente de literatura feminina seria Elena Ferrante com histórias marcadas por sentimentos ambivalentes intensos, presentes tanto em relações femininas de amizades, mas principalmente da maternidade.

 Os livros de Ferrante têm muitas cenas bem audiovisuais, apesar do mistério sob sua identidade, fala-se de histórias autobiográficas e portanto com muitos dados realistas, circunstâncias históricas e cenas em continuidade, como de novelas. 

Não à toa suas obras também têm sido muito adaptadas, foi o caso da série Amiga Genial, adaptada por Saverio Constanzo e do filme A filha perdida de Maggie Gyllenhaal.

   
Maggie vem de uma família de artistas e começou sua carreira se destacando como atriz, um dos filmes em que atuou foi O sorriso de Monalisa, que também apresenta contradições e disputas de um mundo feminino, embora de uma maneira mais rasa.

Aqui Maggie se debruça sobre uma obra de Ferrante com uma protagonista às voltas com a maternidade: maternidade desejada, cheia de amor, mas também de muita exasperação.

Maternidade que transborda carinho e admiração, mas que também sufoca e demanda privações, especialmente em um mundo machista. 

Em seu casamento foi ela a demandada a deixar de lado sua carreira para se dedicar às crianças, é ela que recebe pedidos e cobranças sem fim de suas filhas, é ela que ouve infinitos chamados de seu nome... até que ela se rebela.

Essa guinada em geral é acolhida pelas mulheres, mas provoca repulsa entre os espectadores homens. Parece duro uma mãe que abandona os filhos e mais fácil se chocar com elas, apesar das milhares de versões masculinas de abandono já são tão usuais que não sensibilizam mais.

E no filme o abandono também é cheio de ambivalências, há amor e ódio, culpa e gozo, independência e desamparo.

Quem é a filha perdida do título? 
A própria protagonista, também em crise com sua mãe (situação melhor desenvolvida no livro do que no filme aliás)? Suas filhas e o momento da infância delas em que a mãe não esteve presente? A mãe que ela conhece na praia e que a faz rememorar toda essa história? A filha dessa moça? A boneca dessa filha que se perde na praia gerando grande comoção?    

São muitas figuras femininas na obra e todas intensas, com sentimentos latentes transbordantes e enigmáticos e que são muito bem incorporados no filme, com uma direção enxuta e precisa e um elenco afiadíssimo, com destaque para Olivia Colman, mas presenças importantes de Jessie Buckley, Dakota Johnson, Ed Harris e Paul Mescal.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Os anos novos (Los años nuevos) - Sara Cano, Paula Fabra e Rodrigo Sorogoyen

A série Os anos novos investe em personagens carismáticos vivendo conflitos realistas e cotidianos para envolver o espectador.


    Começa em cenas de apresentação e sedução de uma relação, depois os primeiros conflitos, passando ao desejo de se reconectar, até desencontros de momentos de vida e a expectativa do final feliz.

    Assim como na série Um dia - recém comentada aqui, lançada dois anos antes, Os anos novos também traz cada episódio correspondendo a um ano, um reveillon, e, assim, a temporada discorrendo sobre dez anos na vida das personagens.

Porém aqui a busca é mais de um mergulho na vida de Ana e Oscar e nas possibilidades de enlaçamento deles, lembrando mais a série - filmográfica - de Richard Linklater: que começa num Antes do amanhecer, passa ao Por do sol, para chegar na virada da Meia-noite

Ali há uma radicalidade do investimento nos diálogos, num tempo muito realista e um encadeamento quase de associação livre, que a faz mais instigante e original. Não há uma seletividade das falas em prol de uma dramaturgia mais afiada, o encanto está em se deixar envolver pela conexão e aleatoriedade de temas que coexistem nas personagens vividas por Ethan Hawke e Julie Delpy - saiba mais aqui.

    Aqui também há uma ênfase nos diálogos, mas eles são um pouco mais "funcionais", relatam mais o passar dos anos e deixam menos espaço para lacunas. Mas as temáticas intercalam com detalhes cotidianos e singelos.

    Os anos novos traz Ana, uma garota extrovertida, que ainda não encontrou um foco na vida e está temerosa em tomar passos e se arriscar. E Oscar, um rapaz mais sério e responsável, mas bastante solidário e parceiro.

    (Casal que lembra também outra obra de sucesso recente: A pior pessoa do mundo - também comentada aqui).

    Porém aqui a série se perde um pouco ao trazer um amadurecimento de Ana e que não é acompanhada por Oscar. Ela se arrisca em desejos, vai atrás deles e aprofunda sua caminhada. Já Oscar não muda muito e acaba pautado por certo ressentimento.

   
A empatia então pelo casal e a torcida pelo "final feliz" se desgastam um pouco, mas as cenas bem filmadas e a boa atuação e direção de atores nos mantém conectados e curiosos do desfecho, como em séries adolescentes e comédias românticas, mas aqui com um pouco mais de profundidade. 
Há potencial para uma grande trama, mas o resultado está mais para uma série agradável.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Um dia (One day) - Nicole Taylor

    Baseada no best seller de David Nicholls, a série Um dia traz o encontro de dois jovens através dos anos. Cada episódio apresenta um dos anos na vida de Emma e Dexter. Daquelas comédias românticas em que o encontro improvável revela a cada um a possibilidade de um outro jeito de ser: ela mais estudiosa, dedicada e introvertida e ele popular, confiante, entusiasmado, sedutor.

    Eles começam a interagir no fim da faculdade e depois vão se acompanhando na busca por trabalhos, relacionamentos e perspectivas da vida adulta. Apesar das diferenças mantem o encantamento um pelo outro, oscilando e flertando entre a amizade e a paixão.

A série é bem construída, conta com elenco carismático e ritmo envolvente, pode atrair corações adolescentes de todas as idades pois, apesar de em alguns momentos ficar mais pueril e previsível, há momentos de profundidade e surpresa.

sexta-feira, 27 de março de 2026

O filho de mil homens - Daniel Rezende

     Daniel Rezende ficou conhecido pela montagem de Cidade de Deus de Fernando Meirelles, em seguida assinou outras grandes produções como Tropa de elite de José Padilha, já comentado aqui. Só depois se aventurou pela direção, em curtas, séries e depois longas, como Bingo e agora o ambicioso Filho de mil homens.

  
Daniel parte da obra-prima de Valter Hugo Mãe, um livro que capítulo a capítulo adentra a vida de personagens solitárias, isoladas, problemáticas, que vemos sofrerem uma rejeição da sociedade e a descoberta de um jeito diferente de viver. 

Aos poucos o que parece ser um livro de contos se torna um romance profundo, poético, inebriante. As emoções contidas em cada um começam a se espalhar e se potencializar em conjunto, levando a um cruzamento arrebatador. 

    Mas como traduzir audiovisualmente uma beleza que é tão etérea? Que vem de reflexões e sensações? 

    Talvez numa adaptação mais sóbria, mais afeita aos fatos em que o espectador que tem a missão de preencher lacunas e poesias, como em A hora da estrela, adaptação de Suzana Amaral para a obra de Clarice Lispector? Ou se apoiar na sinestesia de sons e imagens mas apenas para buscar a tradução de sensações, como fez o parceiro/mentor de Daniel, o cineasta Fernando Meirelles, com a obra de José Saramago na adaptação de Ensaio sobre a cegueira?


    Porém Daniel quis ir além, ele parece ter sublinhado tudo que achou de mágico e encantador no livro e assim se tornou didático e pueril. Os brilhos e colorações que traz para as imagens ficam infantis e mesmo a interpretação de personagens autênticas demais, chega em um exotismo teatral que não favorece a construção delas. Faz lembrar a adaptação de Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marques feita por Laura Mora e Alex García López para uma série televisiva e que também se distanciam da profundidade da obra de origem. Fiquemos com as imagens criadas em nosso imaginário para obras tão potentes e inesquecíveis.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Tremembé - Vera Egito / Ullisses Campbell

    Tremembé foi uma das séries brasileiras recentes de maior sucesso. Inspirada na pesquisa e livro de Ullisses Campbell, chama a atenção pela qualidade técnica: bem produzida, dirigida e com ritmo - mérito de roteiro e montagem. 
    O casting é um capítulo à parte: atores carismáticos, impactantes e de acordo com suas personagens. Seja em interpretações de maior densidade dramática ou aquelas em que incorporam mais um tipo, a maioria do elenco parece muito adequada em seu papel e contribuindo na potência da trama.
    Tudo confluindo então para um grande envolvimento do espectador e uma maratonagem dos seis episódios.

    Entretanto, justamente aquilo que mais atraiu o público é o que parece o mais problemático: por que contar essa história, por que o interesse por essas personagens? Por que adentrar um presídio com pessoas que cometeram crimes conhecidos e de ampla cobertura midiática? Por que seguir fazendo isso e buscar mais histórias para outras temporadas?
    A resposta leva ao subtítulo da série: A prisão dos famosos, e parece destacar dois problemas: primeiro que, ao escolher essas pessoas há um recorte político. Narrar com densidade e tridimensionalidade a história de criminosos é muito importante, já que ninguém é 100% vilão e fugir de maniqueísmos parece sempre saudável. Mas aqui há realmente exemplos complexos de psicopatias graves. Além disso, a escolha de humanizar e glamourizar essas pessoas num universo de um Brasil com tantos exemplos, em especial no sistema prisional, de figuras injustiçadas, mártires demonizados com tantas chacinas comemoradas país afora e sem que a série aprofunde questões de gênero, raça e classe, vira uma escolha estética e ética frágil.
    O segundo é a provocação da curiosidade das pessoas pela tragédia alheia, com elas se comovendo sem estarem diretamente implicadas, num interesse que beira a morbidade, como o desejo de olhar um acidente de trânsito, de se fixar em capas de Notícias Populares, de consumir tragédias em Aqui agora, Programa do Ratinho e similares sensacionalistas... Há até um entretenimento histórico, de ir lembrando sobre os crimes tão divulgados na época de seus acontecimentos e conhecer os desdobramentos, nem sempre tão difundidos. 
    Não que as obras audiovisuais precisem trazer um discurso ideológico denso, claro que é possível produtos apenas de entretenimento, mas explorar essa curiosidade despertada em um tempo em que se relaciona com o outro para se comparar, para viver com eles o que não vivemos nós mesmos, consumindo revistas de fofocas, reality shows, redes sociais de influenciadores e Tremembé... Há que se questionar...

segunda-feira, 23 de março de 2026

Cara de um, focinho de outro (Hoppers) - Daniel Chong

    A Pixar sempre traz animações de excelência técnica, boas personagens e ótimas sacadas de humor. Cara de um, focinho de outro não foge a essa regra.

    Aqui a protagonista é Mabel, uma menina que cresce defendendo os animais, para que eles possam viver em seus habitats naturais, até o ponto de se opor às buscas de "modernização" da cidade feitas pelo prefeito. O charme do filme é ela fazer essa defesa ao lado dos bichos, participando de um experimento científico que a faz adentrar um corpo de um castor e interagindo como se fosse um deles.

    Diferente de filmes que apresentam o mundo dos animais de maneira mais endêmica, como Vida de inseto, Formiguinhaz ou Flow; diferente também de filmes que tentam "humanizar" o mundo dos animais, reproduzindo os mesmos afetos e o mesmo sistema em que vivemos, como os recentes Um cabra bom de bola - comentado aqui, Zootopia ou o já clássico Procurando Nemo, Cara de um, focinho de outro começa mostrando as relações próprias do mundo animal, mas é aí que há um problema.

    Como em tentativas como Madagascar ou Os sem floresta há um conflito em mostrar "as leis da selva" e a cadeia alimentar sem acusá-la de "selvagem", e, ao acusá-la de selvagem que alternativas são dadas?

    Em Madagascar ou os animais vivem ou num zoológico numa vida artificial e limitada ou os bichos correm o risco de deixar de ser amigos, já que vão ter que se enfrentar para sobreviver. Em Os sem floresta eles desistem da floresta e se adaptam à vida de ultraprocessados para se alimentar, por exemplo. Mas são essas reais soluções?

    Aqui os animais começam revelando a Mabel que os bichos podem se comer para sobreviver, mas depois é defendida uma harmonia que nem sempre está de acordo com os instintos animais.

    Além disso a vilania muda de lugar, primeiro no prefeito vaidoso e ganancioso, mas que Mapel consegue conscientizar, aí a harmonia passa a ser ameaçada então por um inseto que quer se vingar por todas as vezes em que semelhantes foram esmagados.

    Os esmagamentos não são postos como a "lei das selvas". E a real selvageria de se destruir meios-ambientes para espaços otimizados para carros é colocada como uma questão pontual que o filme resolve em um final feliz. 

    A discussão sistêmica que urge, sobre por que se tenta subjugar outras espécies e a que ponto estamos colapsando o planeta numa busca infinita de fartura e comodidade (isso sem dizer para quem está indo essa riqueza e conforto) fica de fora.

Neste sentido é mais bonita a passagem da Era do gelo quando homens, mamutes e tigres se enfrentam cada um com seu interesse, mas que ao precisarem se deparar com a perda do outro chegam a um desenlace de desculpas e reconhecimentos. Apesar da convivência utópica entre todas as espécies, a mensagem afetiva de onde o medo de um que faz atacar o outro e gerar vinganças num ciclo de dores e perdas que levam a uma reconciliação fica genuína e bonita no filme de Carlos Saldanha.

    Filmes infantis não precisam nem devem ser aulas políticas, mas a reflexão poderia ir além, claro que em tempos bélicos e de intolerância, é esperar demais de um filme mainstream norte-americano, fiquemos então com o encanto e diversão que ele proporciona!

domingo, 22 de março de 2026

Bugonia - Yorgos Lanthimos

    O grego Yorgos Lanthimos é um nome forte da cinematografia atual, sempre muito criativo e impactante tem conquistado terreno mundo afora.

    Ele começou a ganhar destaque com o potente e intimista Dente Canino, já comentado aqui e há uns dez anos vem filmando com estrelas americanas e ampliando seu público.

    Com Pobres criaturas veio o maior impacto, trazendo aos filmes uma abordagem mais fantástica, fazendo lembrar inclusive o Ladrão de Sonhos de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. O filme fez sucesso entre público e crítica e mesmo sendo controverso conquistou prêmios de Veneza à Hollywood.

Em Bugonia Lanthimos repete a escalação de um elenco talentoso com Emma Stone e Jesse Plemons que trazem força e estranheza à narrativa.

    Um jovem traumatizado que já não confia no mundo, mas em teorias da conspiração, sequestrando uma importante empresária, que ele desconfia ser uma alienígena. 

    O conflito é simples, mas os diálogos beirando o nonsense são ricos e instigantes, nos fazendo pensar no absurdo de ganâncias e negacionismos a que chegamos - nesse ponto lembra inclusive o filme Não olhe para cima, de Adam McKay.

    Também são divertidas as referências a outros filmes, como ET de Steven Spielberg, nas cenas de bicicleta, que são mais realistas e se cruzam com uma estética entre o tosco fantasioso e a ficção científica.

O que mais assombra no filme é justamente o tanto de realidade que tem na fantasia, o irreal se aproxima muito do horror que vivemos, da desumanidade como se tratam os seres humanos.

 A fragilidade e violência que nos cerca em Bugonia, diferente da indigestão de Sirat, recentemente comentado aqui, nos chega com acidez e ironia.

terça-feira, 17 de março de 2026

Sirat - Oliver Laxe

     Raros os filmes que se pautem mais em ideias e sinestesias do que em narrativas, é possível pensar em filmes líricos como a adaptação para Estorvo de Ruy Guerra, ou pensar em experiências filosóficas e metafísicas como os filmes de Júlio Bressane, Tarkovski ou Béla Tarr - já comentados aqui. E, agora, em um tempo tão árido e apocalíptico, Sirat de Oliver Laxe chega perturbando, explodindo, arrebatando.

    O ponto de partida do pai espanhol buscando uma filha perdida em alguma rave no Marrocos é um fio condutor que nos insere no universo de raves alternativas, em que vemos figuras gauche, deslocadas de uma sociedade convencional criando um mundo paralelo.

    O pai e o filho caçula aparecem destoando de jovens drogados, mas vão tendo entrada para aqueles que recebem os folhetos com fotos da filha perdida, e assim começam algumas conexões.

    Depois, algumas cenas de uma guerra que se inicia vai aproximando pessoas que vão se tornando de fato uma comunidade, grupo de páreas, radicais, mutilados, animais, sem laços que não aqueles... Não se fala de nenhuma outra família, de nenhum outro trabalho... A missão deles é se conectar com a música, com a paisagem, com a mistura de nacionalidades, culturas e línguas que aquelas pessoas representam.

    E a conexão do espectador também fica com eles, com o estranhamento da música eletrônica e quase inumana, tomadas da paisagem que parecem arte abstrata em movimento e os afetos que surgem como oásis nesse deserto, flores nos cactos, mas às quais não se pode apegar, porque o mundo apresentado é bruto e por isso mesmo extremamente frágil. Não a fragilidade de pétalas, mas de espinhos, de estilhaços.

    O mundo está a ponto de explodir, tal qual o fora das telas e quem seremos nós nessa história?

    Não há redenção, não há final feliz, é o tempo de mal estar, físico, sinestésico, filosófico e metafísico. O que fazemos com o filme? Saímos no meio? Sustentamos até o final? Sorrimos? Choramos? Dançamos junto? Gritamos? Urramos?

    O que faremos de nós? O que faremos do mundo? Como será nossa Sirat? (que significa uma travessia e no islamismo vem com as imagens de ser "uma ponte que atravessa o abismo do inferno em direção ao paraíso e é mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada").

sábado, 14 de março de 2026

Pssica - Stephanie Degreas, Fernando Garrido, Bráulio Mantovani

    


Inspirada no livro de Edyr Augusto, Pssica traz uma temática muito urgente e atual: a violência e predação contra mulher. 


Além da trama principal que retrata o tráfico sexual de meninas no norte do país, há também o bulliying de meninos contra meninas, a divulgação de vídeos não consentidos, o conflito entre sexualidade e religião, o assédio de homens contra meninas, o uso de drogas, a prostituição...

A série traz a crueza do tema em um ritmo envolvente, não há a densidade de Manas, já comentado aqui, mas há potencial para conquistar o público e amplificar a denúncia.

    Com um ótimo elenco, encabeçado pela protagonista Janalice, vivida por Domithila Cattete, que traz o misto de etnias em suas feições, e um rosto e corpo de adolescente em que ora vemos a menina que precisa de proteção e ora vemos a mulher decidida e forte que poderá se tornar.

    Ela começa tendo que lidar com o namorado que a trai divulgando imagens íntimas, depois tendo que lidar com a família que a condena, com outra parte da família que se resigna em aceitá-la, mas sem muito afeto e dedicação e ainda por cima com o risco de abuso. A partir daí ela se vê à própria sorte e busca suas próprias relações.

      Janalice consegue fazer amizades, mas com outras pessoas também vulneráveis, que a vulnerabilizam mais e assim acaba capturada por traficantes sexuais que a leva para outro país para ser prostituída.

    Essa trama envolve criminosos e políticos, de maneira bem realista, em especial em tempos de revelações de arquivos Epstein e denúncias de milhares de feminicídios e Janalice vai se tornando uma real heroína.

    Temas sérios mas que são trabalhados como trama de ação policial, talvez com excesso de movimentações, cores e sons e passagens muito rápidas e que nos dificultam assimilarmos.

Como uma paixão muito repentina de Preá por Janalice por exemplo.  

Ou em conflitos densos como o arrependimento do pai de Janalice pela maneira como age com ela, uma mudança bonita e profunda, mas que poderia ser mais explorada.

 Ainda assim o resultado é ótimo e vale ser visitado!

quinta-feira, 12 de março de 2026

Dias perfeitos - Joana Jabace / Raphael Montes

Raphael Montes tem feito muito sucesso com seus romances policiais: tramas envolventes e personagens sedutores que nos levam a adentrar o ritmo da narrativa. E histórias que, em geral, funcionam muito em adaptações, pois já são bastante audiovisuais.

    Por isso a ideia da adaptação feita por Joana Jabace para uma minisserie funcionou muito bem com Dias perfeitos.

    A série nos convida a conhecer as personagens, o casting carismático, principalmente na protagonista Clarice, vivida por Julia Dalavia, mas também na sinistra e ambivalente Patrícia, mãe do vilão, vivida por Débora Bloch.


Talvez na tentativa de seduzir demais a trama pese em cenas mais apelativas (ou de romance ou de violência), se apoie em um vilão caricatural, o jovem Téo, vivido por Jaffar Bambirra, e não aprofunde tanto aspectos psicológicos, mas para um produto menos denso e mais ligeiro agrada.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Eu e meu avô Nihonjin - Célia Catunda

     Célia Catunda tem participado de importantes animações brasileiras como as séries Show da Luna, Peixonauta, Tarsilinha... Sua produtora tem quase 40 anos e com isso um histórico de muita garra, talento e persistência para seguir trabalhando com audiovisual e num segmento que quando não há uma indústria por trás é de um artesanato muito laborioso!

    Seu trabalho mais recente, o longa Eu e meu avô Nihonjin dos roteiristas Oscar Nakasato e Rita Catunda mostra essas qualidades. A partir de uma história singela: um menino que quer conhecer suas origens, ele precisa ouvir as histórias de seu avô e remontar seu passado familiar.

    A estrutura narrativa é extremamente simples: uma lição de casa como ponto de partida e encontros com o avô que vão contando pouco a pouco sobre a vinda dos antepassados do Japão para o Brasil, as dificuldades do início da instalação da família, a adaptação...

    Há um didatismo na narração: tanto nos aspectos históricos quanto nos aspectos emocionais: há personagens muito bem delineadas que mostram os conflitos, a chegada sem dinheiro e vida em servidão, o compartilhar com outros imigrantes sem entender a língua, o respeito aos valores de origem e a abertura a outras culturas, o posicionamento durante a 2a Guerra, os preconceitos sofridos, o desafio entre se instalar num país e fazer valer seu conhecimento de nação... Contrastes culturais, medos e conquistas típicos de imigrantes e que tipicamente provocam conflitos dentro da própria família, entre aqueles que reforçam ainda mais as origens e aqueles que tentam esquecer para se adaptar melhor. 

 

Afetos básicos e complexos ao mesmo tempo, que construídos em ritmo lento e suave contribui no didatismo da narrativa, e que, somados aos belos traços da animação podem cativar o público infantil.


sexta-feira, 6 de março de 2026

Oppenheimer - Christopher Nolan

     Christopher Nolan muda do universo de fantasia e ficção científica onde tem mais experiência (de filmes como Batman Begins e Interestelar - já comentado aqui) e traz uma história verídica, do desenvolvimento da bomba atômica americana pelo físico Robert Oppenheimer. Entretanto aproveita sua habilidade com narrativas épicas e super-personagens para construir a trama.

    A história de Oppenheimer realmente tem múltiplos vieses, relações e implicações, envolve relações pessoais, egos do mundo acadêmico e muitas questões políticas. Um mundo masculino, competitivo e bélico, que Oppenheimer oscila a quanto adentrar.

    E para desenvolver essa história complexa Nolan faz uma narrativa à altura: muitas personagens, vozes e tempos, tudo se somando e se cruzando. O resultado é confuso e árido, nos aproxima menos das questões filosóficas e existenciais do cientista e mais da arquitetura política, de interesse e disputa de poder.

    É um filme bastante atual, mas que deixa de lado o que poderia ser um antídoto para os nossos tempos, fosse o foco mais sobre os questionamentos da aplicação e extensão do uso da energia nuclear poderia nos envolver e sensibilizar mais e nos aproximar menos desses anos 20 com tantas guerras.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Uma batalha após a outra (One batle after another) - Paul Thomas Anderson

     O jovem promissor de diversos vídeos musicais e filmes como Boogie Nights, Magnólia e Punch-Drunk love, vem ganhando experiência e maturidade, seja em filmes como O Mestre - já comentado aqui - ou no mais recente e de grande repercussão Uma batalha após a outra.

    Antes interessado em personagens "gauche" para desenvolver o que poderia haver por trás delas, construir relações complexas, contraditórias e questionáveis, fazendo o público questionar junto, se emocionar, participar e se envolver, agora Paul Thomas Anderson traz sua maturidade e primor em diálogo com a descrença e o cinismo.

    Uma batalha após a outra começa com guerrilheiros se colocando contra as políticas anti-imigratórias dos EUA, personagens radicais, mas cheios de juventude e propósitos lutando contra conservadores preconceituosos.

    Entretanto essas personagens com quem poderíamos nos identificar vão diminuindo sua força e ética. O casal vivido por Teyana Taylor e Leonardo Di Caprio se perde ao ter uma filha, há um impasse interessante entre a vida familiar que se impõe diante de uma criança e o desejo de seguir sua luta. Porém  os caminhos escolhidos reforçam caricaturas daqueles que se alienam nos cuidados do lar versus os que ignoram a parentalidade para viver seus impulsos. 

    Sim, a luta vira sobre isso: impulsos raivosos e nem se sabe mais contra quem. A mulher negra de corpo voluptuoso é caracterizada como uma mulher selvagem e sexual, que desperta desejo e faz jogos de sedução e tortura inclusive com os fascistas contra quem luta, encarnado principalmente na personagem de Sean Penn.

    E seu ex segue na alienação à qual se entrega se tornando um drogado que precisa até ser cuidado pela filha.

    Entre os conservadores se aponta uma possibilidade de humanismo, mas ao final todos se mostram infantis, mesquinhos e sem empatia por ninguém, fascistas matando fascistas - buscando anos de perdão?

    Quem talvez mantenha seus princípios, siga lutando e contribua por mover a trama seja a personagem de Benício Del Toro, que a partir de sua academia de artes marciais organiza uma sociedade alternativa, com ética e lealdade.

    Paul Thomas Anderson escala um elenco incrível e muito bem dirigido, traz ritmo e estética alucinadamente envolventes, há cenas de ação brilhantemente executadas como raramente se vê e cenas de humor muito bem construídas. Por todas essas qualidades o filme se torna ainda mais lamentável, já que a mensagem parece ser de deboche a qualquer causa e luta.

    Em tempos em que as pessoas se dividem entre os que estão cada vez mais radicais e polarizados e os que tentam entender os movimentos políticos do mundo mas num desgaste e saturação de informações, ao trazer temas políticos, mas fazer piada com eles, o filme parece ser um desserviço de despolitização. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Hal & Harper - Cooper Raiff

Hal & Harper é mais um projeto autoral do jovem Cooper Raiff que, além de roteirizar e dirigir, é um dos protagonistas da série: vive o jovem Hal, que com a irmã Harper enfrenta o trauma de ter perdido a mãe na infância.

    Como em todo trauma e luto, os acontecimentos não acontecem de forma linear, os afetos não têm uma organização e temporalidade localizada, não há uma geografia específica e por isso tudo se mistura.

    Esse é o grande mérito da série: conseguir nos capturar para um emaranhado de lembranças, acontecimentos e personagens do passado, presente e futuro dos protagonistas. 

    A cada episódio somos preenchidos por acontecimentos ora da infância, ora da juventude e caminhamos um pouco mais para o que está por vir, temos momentos para sorrir puerilmente com as personagens ou chorar copiosamente.

    Entre os fatos dessa trajetória está a família tentando se reerguer logo após a perda da mãe, tanto as duas crianças quanto o pai que ficou como único cuidador delas. Eles oscilam entre a cumplicidade em que um fato deste traz e o estilhaçamento e ressentimento particular de cada um. 

    Esse passado transborda em tudo que tiveram que engolir para seguir vivendo e no que se fixaram e de onde nunca conseguiram sair.

Os jovens irmãos de 20 e poucos anos são ainda as crianças desamparadas da infância, mas também adultos que perderam a inocência e leveza muito cedo. 

Por isso a opção estética de que os mesmos atores interpretem os momentos de infância num primeiro momento podem causar estranhamento e incômodo, mas ao final faz muito sentido.

   
O pai, vivido por Mark Ruffalo, também, ele aparece no presente em uma nova relação, mas se divide entre a construção e a elaboração de seu luto: o que é preciso destruir para que ele se abra ao que está por vir.

    Nos 20 e poucos anos dos jovens cabem as crises clássicas de descoberta e fim de primeiros amores, de sonhos de trabalho versus sonhos de casamento e desejos de se estabelecer, mas também de mudar e alçar voos.

Esses conflitos são muito bem apresentados com diálogos cativantes, profundos e realistas e com interpretações comoventes, com destaque para Lili Reinhart.

    A narrativa densa e dramática é muito boa, mas a linguagem que nos remete à memória, essa matéria metafísica que nos compõe e que faz com que nossas trajetórias e dramas sejam tão singulares é que faz com que Hal & Harper seja tão especial também.   

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Valor sentimental (Affeksjonsverdi) - Joachin Trier

     Joachin Trier vem apresentando questões em seus filmes de acordo com suas fases (pós adolescência e começo da vida adulta na estreia em Reprise; juventude de sexo, drogas e depressão em Oslo, 31 de agosto; casamentos e reflexões sobre filhos em A pior pessoa do mundo e questões familiares e afetivas perpassando toda a filmografia).

    Suas personagens revelam olhares cada vez mais maduros e profundos. Assim, em Valor sentimental há uma densidade que ainda não havia sido apresentada em sua obra. As questões complexas e abrangentes sempre estiveram presentes, mas aqui há uma evolução da sensibilidade.

    Não é apenas sobre os conflitos familiares de duas irmãs que perdem a mãe e reencontram o pai que desde o divórcio havia estado ausente, é sobre uma matéria menos sólida e mais indizível. Diz respeito a origens, medos, amores, cumplicidades, ódios... "Valores sentimentais"...

    Essa expressão que usamos para objetos e pode dizer respeito a heranças, é carregada de subjetividade, de narrativas, de memórias... Essa substância tão concreta e tão abstrata que acompanha a todos nós e por isso é tão tocante no filme.

Nora (numa linda interpretação de Renate Reinsve) é uma atriz que tem pânico de estreias.

Se angustia a cada vez que se depara com o novo, com aquilo que não sabe onde pode dar. Por outro lado, Nora não se permite relações estáveis, ou seja, também tem medo daquilo que possa conhecer totalmente e mais: que possa conhecê-la a fundo. Há um medo de se entregar, de confiar. 

    É insegura quanto ao que tem para dar, ao mesmo tempo em que tem bastante autonomia para entregar seu corpo e alma para as personagens que interpreta, para questionar e desafiar os medos da irmã ou o pai que tanto a magoou.

    O pai é vivido pelo experiente Stella Skarsgard, que conhecemos desde filmes de Lars von Trier (veja mais aqui) até produções hollywoodianas como a franquia Piratas do Caribe. Ele traz a ambiguidade de um homem que viveu uma tragédia e de quem podemos ter pena e de um homem que impôs um grande drama (e quase tragédia) à sua família com seu egoísmo e negligência e de quem por isso podemos ter raiva. 

    Esse pai septuagenário é também diretor de cinema e traz um projeto depois de um tempo de ostracismo, com expectativa de que a obra seja o símbolo de sua vida e assim nos instigue e comova.

Comove, por exemplo, outros artistas: produtor, fotógrafo... E a atriz hollywoodiana, vivida pela verdadeiramente hollywoodiana Elle Fanning, que, assim como sua personagem faz uma atuação corajosa de exposição de suas aberturas e fraquezas.

    E instiga sua filha Nora, com quem quer realizar o projeto.

    A trama mais do que desenvolver se a filha vai ou não fazer o filme com ele, vai ou não perdoá-lo, vai ou não fazer o pai entender o que provocou, se ele vai ou não se arrepender, ela é sobre as lacunas e preenchimentos que coexistem nas relações, o que ficam delas para nós e o que há de valor sentimental em nossas memórias.   

Há uma pretensão de desvendar a real "persona" das personagens, explicitada em uma cena que referencia e reverencia a obra-prima de Ingmar Bergman, talvez nesse sentido e nesse momento se exceda, parece mais um jogo de linguagem de Joachin Trier (como nos demais filmes também comentados aqui) e que não se faz necessário. 

    Seu talento e sensibilidade está em construir cenas de cotidiano, cenas realistas e tão carregadas de drama, especialmente pela direção de atores que faz. Os atores mostram as personagens por dentro e nos viram do avesso em emoções.

    Não é só o patriarca, o universo burguês, os atos fálicos e o que está dito, é o que está por trás, as resistências, as pequenas revoluções, a maneira feminina de lidar com as dores... Por isso uma das cenas mais emocionantes é justamente uma em que o pai não está, em que as irmãs falam sobre a força e amor delas. O filme parece ser muito mais sobre isso, ou essa é a herança que parece deixar para mim, fiquemos com este "valor sentimental".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Homem com H - Esmir Filho

    Esmir Filho estreou numa carreira promissora com curtas diversos e muito interessantes: desde o registro despretensioso e hit de internet com Maria Alice VergueiroTapa na Pantera, passando pelo belo e sinestésico Saliva, ou no envolvente Alguma coisa assim.

    Em seguida Esmir passou aos longas, mas sua estreia um tanto ambiciosa, parece menos bem acabada que os curtas, Os famosos e os duendes da morte, já comentado aqui, tem muito potencial, mas resultado irregular.

Agora em seu filme mais recente, Homem com H, vemos a maturidade de seu cinema, alguém já vivendo no mundo artístico há muitos anos, pela carreira de seus filmes, vídeos e séries e também por influências familiares. Esmir soube escolher um ídolo e mergulhar em sua história, captar seus pontos de interesse e entrelaça-los em um excelente enredo, uma homenagem digna para o octagenário Ney Matogrosso.

    Difícil as cinebiografias não se perderem e saberem dosar a quantidade de informações, é comum sairmos sentindo carências ou excessos, desequilíbrios e confusões, mas aqui a cadência funciona. Há lirismo, há drama, há contexto histórico... Há família, infância, amadurecimento, descoberta de sexualidade, romances, casamento, sexo, drogas, rock'n'roll, chiclete, banana, fantasia, carnaval... Há inclusive cenas documentais com Ney atual!

    O menino que desde cedo teve sua delicadeza, sensibilidade e sexualidade questionadas e que precisou lutar por espaço, mas que escolheu uma luta colorida, com muita arte e ironia, intensidade e sofisticação.   

    Ney foi cobrado tanto para que fosse mais "homem", como para que assumisse sua homossexualidade perante o público, mas como ele mesmo já disse, ele não precisa falar sobre suas opções íntimas, o que ele defende está em sua expressão, no palco, nos figurinos, nos discos.


E no filme isso está representado pelo elenco, fotografia, direção de arte, som... Tudo confluindo para um bom resultado.

    Saímos querendo mais, mas num querer satisfeito, de quem teve uma excelente amostra, de quem pode ver e conhecer diversas facetas de Ney e ficar admirado e cativado. O filme entrega e deixa espaço para que possamos seguir acompanhando sua trajetória, com nosso interesse ainda mais aguçado, uma ótima experiência audiomusicovisual!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A pior pessoa do mundo (Verdens verste menneske) - Joachin Trier

    Joachin Trier vem consolidando seu cinema com personagens humanas, conflitos cotidianos, aparentemente triviais, mas sempre com delicadeza, profundidade e graciosidade.

    Foi assim em sua estreia com Reprise, depois em Oslo, 31 de agosto e mesmo ao misturar fantasia como em Thelma, todos comentados aqui.

    Aliás, fantasia que sempre o acompanha em jogos de linguagem... Aqui, por exemplo, temos o filme dividido em capítulos e uma narração que chega a remeter a Amelie Poulain de Jean-Pierre Jenet. Mas ele deixa a fábula do destino de sua protagonista de lado e passa a construi-la através de seu cotidiano, e aí nos conquista. A protagonista Julie, vivida pela carismática e talentosa Renate Reinsve, vive suas dúvidas sobre carreira: começa medicina, tenta psicologia, depois se volta à fotografia sem nunca estar certa de nada.


    Também no campo amoroso: começa um relacionamento com Aksel, vivido pelo "ator alterego" de Trier: Anders Danielsen Lie, mas sempre há dúvidas pairando essa relação. Uma das principais: ter ou não filho. A diferença de cerca de 10 anos entre eles os coloca com desejos diferentes de vida: Aksel quer construir, se estabelecer e Julie ainda quer explorar, errar... E erraticamente se perde, descobre outras coisas, outras paixões, outras pessoas...

Assim é acusada de não fazer o que há de "melhor" para si e para os outros, mas nem por isso se mostra a "pior"... Talvez um pouco pueril... Aliás, a personagem parece mais jovem do que a atriz, tem um comportamento de início de vida adulta, mas a atriz imprime mais segurança e maturidade que isso (difícil pensar outra atriz no papel, mas uma mais jovem teria sido mais convincente em algumas passagens).    

    A dificuldade de não saber para onde ir de Julie parece acometer Trier também, que no ápice do filme faz uma cena epifânica, com tudo em suspenso ao redor das dúvidas de Julie (um congelamento estético da cena). 

No ponto de envolvimento em que estamos na trama, passada a sequência espetacular em que ela conhece outro rapaz, numa sedução sem nenhuma explicitude e por isso mesmo tão sexy, já estamos aderidos aos seus pensamentos e emoções, não precisava nenhuma metáfora visual tão acintosa.

    Mas também não compromete, ainda mais que na sequência veremos questões de vida e morte sendo exploradas com uma densidade suave muito envolventes.

    Um filme com ritmo, cenas e personagens agradáveis e muitas questões com as quais nos identificamos e que nos fazem pensar, merecido o reconhecimento de público e crítica que teve.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Os pecadores (Sinners) - Ryan Coogler

    Depois de dirigir os filmes da Marvel de Pantera negra, Ryan Coogler roteiriza, produz e dirige Os pecadores.


    O projeto parte de fatos reais muito duros do racismo vivido nos EUA e os metaforiza numa história de heróis e vilões. O dom, a magia, a cobiça e a disputa giram em torno da música, da qual os negros podem realmente apontar que foram vampirizados pelos brancos, mas para ultrapassar uma narrativa de ação juvenil falta mais.

    O conteúdo é bem posto e a metáfora muito interessante, mas esse potencial é desperdiçado sem que se aprofunde as personagens.

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Temos o jovem Sammie (Miles Caton) bem apresentado em seu conflito de amar a música, ter o dom para executá-la, mas com sua prática ferir os valores morais de seu pai, pastor de uma pequena igreja local. 

O confronto entre a retidão da vida religiosa e a libertinagem da vida artística estão muito bem postos.

Entretanto as personagens que chegam para mover a trama, os gêmeos Smoke e Stack, vividos por Michael B. Jordan, filho do astro do basquete, trazem ação, mas não consistência à narrativa. 

    Eles saíram da região, passaram um tempo em Chicago, fizeram fortuna de maneira ilícita e obscura e voltam para tentar mudar a região, abrir seu próprio bar, espaço de refúgio para a comunidade negra. Esse parece um bom propósito, mas a violência, as histórias de afetos entrecortadas e não aprofundadas, nos deixam um pouco no ar.

    A seguir aparecem os "vilões", os brancos, representantes da Ku Klux Klan e também de vampiros da música, não apenas os blues tocados naquele bar, mas toda a música pop negra americana (há cena em que se alude de Robert Johnson a Nina Simone, de Michael Jackson a Beyonce, por exemplo).

Mas quem são esses vilões? Qual o incômodo deles? De onde vem sua força? O que a música os provoca?

Nada é muito explorado no filme, o foco fica mais na batalha de ação.

    Com exemplos distintos, de Deixa ela entrar de Thomas Alfredson, já comentado aqui, a Labirinto do Fauno de Guillerme del Toro, poderia haver inspiração para aproveitar o universo fantástico como referência ao real.

    Os negros duramente injustiçados nos EUA, os aspectos da vida dos ex-escravizados no início do século, a vida em condições precárias de servidão, o preconceito, os abusos, as violências sofridas e a maneira como a música foi um espaço de resistência para eles é uma linda premissa. A vilanização dos brancos que os perseguiram, tolheram, mataram, roubaram e saquearam também. Mas a narrativa sem um olhar cuidadoso para as personagens, o excesso de fatos, de motivações, de ações e pirotecnias desviam o olhar do espectador, atrapalham, poluem. Pode gerar surpresa e admiração em diversos aspectos, vide às indicações ao Oscar, mas talvez menos histórico (em todos os sentidos) do que poderia.