Joachin Trier vem apresentando questões em seus filmes de acordo com suas fases (pós adolescência e começo da vida adulta na estreia em Reprise; juventude de sexo, drogas e depressão em Oslo, 31 de agosto; casamentos e reflexões sobre filhos em A pior pessoa do mundo e questões familiares e afetivas perpassando toda a filmografia).
Suas personagens revelam olhares cada vez mais maduros e profundos. Assim, em Valor sentimental há uma densidade que ainda não havia sido apresentada em sua obra. As questões complexas e abrangentes sempre estiveram presentes, mas aqui há uma evolução da sensibilidade.
Não é apenas sobre os conflitos familiares de duas irmãs que perdem a mãe e reencontram o pai que desde o divórcio havia estado ausente, é sobre uma matéria menos sólida e mais indizível. Diz respeito a origens, medos, amores, cumplicidades, ódios... "Valores sentimentais"...
Essa expressão que usamos para objetos e pode dizer respeito a heranças, é carregada de subjetividade, de narrativas, de memórias... Essa substância tão concreta e tão abstrata que acompanha a todos nós e por isso é tão tocante no filme.
Nora (numa linda interpretação de Renate Reinsve) é uma atriz que tem pânico de estreias.
Se angustia a cada vez que se depara com o novo, com aquilo que não sabe onde pode dar. Por outro lado, Nora não se permite relações estáveis, ou seja, também tem medo daquilo que possa conhecer totalmente e mais: que possa conhecê-la a fundo. Há um medo de se entregar, de confiar.
É insegura quanto ao que tem para dar, ao mesmo tempo em que tem bastante autonomia para entregar seu corpo e alma para as personagens que interpreta, para questionar e desafiar os medos da irmã ou o pai que tanto a magoou.
O pai é vivido pelo experiente Stella Skarsgard, que conhecemos desde filmes de Lars von Trier (veja mais aqui) até produções hollywoodianas como a franquia Piratas do Caribe. Ele traz a ambiguidade de um homem que viveu uma tragédia e de quem podemos ter pena e de um homem que impôs um grande drama (e quase tragédia) à sua família com seu egoísmo e negligência e de quem por isso podemos ter raiva.
Esse pai septuagenário é também diretor de cinema e traz um projeto depois de um tempo de ostracismo, com expectativa de que a obra seja o símbolo de sua vida e assim nos instigue e comova.
Comove, por exemplo, outros artistas: produtor, fotógrafo... E a atriz hollywoodiana, vivida pela verdadeiramente hollywoodiana Elle Fanning, que, assim como sua personagem faz uma atuação corajosa de exposição de suas aberturas e fraquezas.
E instiga sua filha Nora, com quem quer realizar o projeto.
A trama mais do que desenvolver se a filha vai ou não fazer o filme com ele, vai ou não perdoá-lo, vai ou não fazer o pai entender o que provocou, se ele vai ou não se arrepender, ela é sobre as lacunas e preenchimentos que coexistem nas relações, o que ficam delas para nós e o que há de valor sentimental em nossas memórias.
Há uma pretensão de desvendar a real "persona" das personagens, explicitada em uma cena que referencia e reverencia a obra-prima de
Ingmar Bergman, talvez nesse sentido e nesse momento se exceda, parece mais um jogo de linguagem de Joachin Trier (como nos demais filmes também comentados
aqui) e que não se faz necessário.
Seu talento e sensibilidade está em construir cenas de cotidiano, cenas realistas e tão carregadas de drama, especialmente pela direção de atores que faz. Os atores mostram as personagens por dentro e nos viram do avesso em emoções.
Não é só o patriarca, o universo burguês, os atos fálicos e o que está dito, é o que está por trás, as resistências, as pequenas revoluções, a maneira feminina de lidar com as dores... Por isso uma das cenas mais emocionantes é justamente uma em que o pai não está, em que as irmãs falam sobre a força e amor delas. O filme parece ser muito mais sobre isso, ou essa é a herança que parece deixar para mim, fiquemos com este "valor sentimental".