segunda-feira, 15 de junho de 2026
Cangaço novo - Mariana Bardan e Eduardo Melo
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Morro dos ventos uivantes (Wuthering Heights) - Emerald Fennell
Com personagens densas e repletas de ambivalências, tanto para os padrões da época, entre o que se esperava de "bons" e "boas" moças no século XIX e seus verdadeiros desejos, quanto sentimentos universais que o sujeito tem que se haver em distintos tempos e espaços: ódio aos pais que coexistem com o amor; amores fraternos que resvalam em amores românticos; admirações que flertam com invejas; cuidados que se tornam castrações; castrações que são necessárias para o amadurecimento e castrações que são inibidoras para a vida; planejamentos racionais para o futuro que se opõem aos sentimentos...
Todas essas questões são a base da trama do Morro dos ventos uivantes, que fala do acolhimento da família Earnshaw ao jovem acunhado por Heathcliff. O garoto da mesma idade da filha do senhor da casa, Cathy, cresce com ela como uma irmã. Para ela ele também é uma importante companhia, já que Cathy é órfã de mãe e seu pai é viciado em álcool e jogos e tem comportamento abusivo e violento.
A irmandade entre Cathy e Heathcliff surge como um oasis para ambos, mas o sentimento entre eles muitas vezes ameaça transbordar.
É aí que o lado controlador de Cathy aparece: ela subjuga o rapaz e tenta subjugar as próprias emoções, ambicionando um futuro para si mais promissor. Ela planeja se casar com um homem rico para garantir uma vida de segurança e conforto.
O conflito entre esse plano racional e suas verdadeiras emoções é tema visto em muitas obras e já tem certo desgaste, mas é uma realidade tão comum e impositiva que segue com apelo, seguimos vendo adaptações de obras como Madame Bovary e Primo Basílio ou exemplos mais recentes como Longe deste insensato mundo, filmado por Thomas Vinterberg - e comentado aqui e Adoráveis mulheres, que após adaptação dos 90, ganhou versão recente de Greta Gerwig com certo frescor na direção.
Parecemos estar diante de uma novela e com uma protagonista cujo lado egoísta se sobrepõe, assim fica difícil nos aproximarmos e envolvermos com ela, assistimos à trama com certa distância e ao invés de arrebatamentos fica mais fácil virem incômodos.
Filme bem feito, bonito, mas raso, uma pena, pois ainda há muito espaço para atualizações de clássicos, vide Hamnet, exemplo recente comentado aqui.
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Treta (Beef) - Lee Sung Jin
As cenas se apresentam de maneira excêntrica, pendendo para o cômico, numa linguagem própria do universo coreano. Entretanto para quem enfrenta essa apresentação mais caricatural, vai se desvendando o lado profundo e humano das personagens e esse encontro termina de maneira tocante.
Partimos de um universo excêntrico de uma elite muito rica que frequenta um clube de golfe - bastante semelhante ao ambiente da série White Lotus. Os protagonistas apresentados são um casal de gerentes de meia idade que interage com muita naturalidade com os sócios do clube, e um jovem casal de funcionários, intimidados e subservientes tanto em relação aos sócios quanto em relação aos gerentes.
Assim vão sendo apresentados seus sonhos, desejos e desafios, de maneira íntima e cativante.
Só que o desenrolar da série traz uma trama policialesca, com um confuso e grandioso golpe e cenas mirabolantes. Tudo vai ficando muito excêntrico, as personagens agem em função das pirotecnias golpísticas, se distanciando da humanidade e verossimilhança.
O jovem casal, por exemplo, que vivia um início de casamentos cheio de sonhos de estabilidade e filhos tem a garota virando uma ambiciosa escaladora social e seu companheiro se distanciando dela, mas num posicionamento ingênuo e pouco interativo.
Há humor, há drama, há suspense, mas tudo de maneira um tanto pastichizada.
Se relaciona com as narrativas coreanas recentes e populares como Parasita, de Bong Joon-ho ou mesmo Tudo em todo lugar, tudo ao mesmo tempo, de Daniel Kwan e Daniel Scheinert, mas não faz um desfecho tão envolvente e bem amarrado.
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Michael - Antoine Fuqua
Portanto ler biografias, assistir cinebiografias, tudo alimenta os fãs...
Mas o que parece mais interessante nesse movimento é conhecer o lado menos conhecido dos artistas... Por exemplo saber dos dramas familiares de Ray Charles, os relacionamentos conturbados e ativismos de Nina Simone, os excessos de Elvis Presley ou Amy Winehouse, a singularidade de Fred Mercury ou Elton John, as dores de Elis Regina, o contexto social e político em que viveu Gal Costa, a pluralidade e potência de Cazuza, Raul Seixas ou Ney Matogrosso etc etc etc - muitos destes exemplos comentados e linkáveis aqui no blog...
Retratar, portanto, um dos maiores ícones pop de todos os tempos é muito promissor.
Como não há tramas sem conflitos ou heróis sem superações, então o filme faz uma opção covarde de eleger o pai de Michael como um grande vilão e Michael sendo desafiado apenas por ele. Os outros obstáculos colocados não abalam Michael e ele sempre sabe se colocar e superá-los - como a inserção que faz da música negra na MTV, por exemplo.
Já aa personalidade complexa e com as várias questões psíquicas importantes são apresentadas como reações à vilania do pai e expresssa em curiosidades excêntricas, por exemplo suas "amizades" com animais de estimação nada convencionais.
Resulta em um filme chapa branca e morno, que pode empolgar os fãs pela reconstituição artística, com as cenas de criações, canto e dança muito bem realizadas, mas sem nada mais a acrescentar.
Entretanto justamente por esse ambiente familiar talvez não tenham optado abordar questões mais íntimas ou expor demais as controversias.
Uma pena, pois trazer as ambiguidades e contradições enriqueceria muito: apresentar os contras seria reforçar e humanizar os prós, seria tridimensionalizar o ídolo e deixá-lo ainda maior. O filme faz com que ele permanece do tamanho que já conhecemos por seus discos e clipes...
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Rede tóxica (American Sweatshop) - Uta Briesewitz
Conhecida por sua direção em séries como Westworld, Stranger things, Severance - já comentada aqui, Uta Briesewitz apresenta também o seu trabalho em longas-metragens com Rede tóxica.
A premissa muito atual, importante e interessante do compartilhamento de conteúdos nas redes é apresentada a partir de uma agência reguladora de conteúdos e seus funcionários. Quem conduz a trama é a protagonista Daisy, vivida pela talentosa e carismática Lili Heinhart, de Hal & Harper - também comentado aqui.
A equipe da agência vai entrando em contato com cenas de violência e sexo e se afetando com aquilo: de vômitos a desmaios, surtos a depressões, todos vão adoecendo psiquicamente.
Ali é um recorte extremo, mas não deixa de ser um espelho da sociedade, uma metonímia do que se pode ter navegando pela internet, em especial adolescentes e jovens.
Uta Briesewitz poderia desenvolver e transbordar mais, mas só de trazer a questão já é um grande feito.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Papagaios - Douglas Soares
O filme se desenvolve a partir da personagem Tunico, vivida por Gero Camilo, que faz a vida em busca de cinco segundos de fama. Ele está sempre atrás de reportagens, literalmente, tentando aparecer no fundo das cenas, em especial funerais, daí o título, referência a "papagaios de pirata".
Tunico é uma figura magnética, entre o repulsivo e o excêntrico, que atrai a atenção do jovem Borges, vivido por Roney Villela, e assim se aproximam. Borges se torna uma espécie de pupilo de Tunico, em uma relação estranha: não sabemos se há admiração, inveja, desejo, raiva... Tudo de maneira misturada, em nuances e ao mesmo tempo muita intensidade.
O que talvez falte é um ritmo e ações que nos leve a uma aproximação gradual, que possam manter o suspense, mas ajudem a construir essas psiques doentias, como informações que dessem mais pistas das vivências e intenções por trás dessas personalidades. A complexidade da relação das pessoas com a vida pública e a fama está lá, o reconhecimento da psicopatia também, mas essas questões poderiam estar um pouco mais desenvolvidas para que o thriller fosse ainda mais denso e eletrizante. Não sabemos muito sobre seus passados, não vemos muitas justificativas para seus atos.
Fica esse desejo de mais desenvolvimento psicológico, mas com o reconnhecimento do experimento criativo dentro de um gênero em geral com muitos clichês e poucos exemplos no cinema nacional.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
DTF St. Louis - Steve Conrad
Steve Conrad parece gostar de histórias emocionantes e com excentricidades, por exemplo no roteiro do filme Wonder, sobre um menino sindrômico, mas que, na direção de Stephen Chbosky, o melodrama transborda um pouco.
A trama envolvendo um trio romântico de meia idade é envolvente e surpreendente. A maneira como eles vão se conhecendo e relações se estabelecendo adensadas com a morte de um deles instiga e conecta o espectador.
A história, mais do que acompanhar a investigação dessa tragédia e seu possível julgamento, mergulha nas personagens, onde o que marca é o ritmo que os atores imprimem.
O tempo da série parece ralentado, mas não é apenas por uma questão de velocidade, e sim um sublinhar das falas e reações das personagens. Efeito reforçado pelas cenas "dialogadas" em linguagem de sinais e seu silêncio eloquente e expressivo.
Em DTF St Louis a construção marca mais certa perplexidade. As personagens falam como quem transborda o que lhes vem à cabeça, numa sinceridade ingênua e pueril, só que os interlocutores ao invés de estranharem, rechaçarem, enquadrarem ou ridicularizarem o outro, elas acolhem o que é dito.
Pouco a pouco vamos descobrindo a afetividade de cada personagem e o encantamento que se produz a partir daí: Floyd, o homem amoroso com uma carreira fracassada, casado com Carol, uma mulher ambiciosa e batalhadora, mãe de um menino com dificuldades de interação, que conhecem Clark, um homem de mais êxito profissional, mas extremamente solitário. E os investigadores, que começam frios e distanciados, mas que se enredam na trama.
Eles interagem e se apresentam com detalhes e declarações simples (mas daquela simplicidade que poderia estar em poemas e canções). E a direção emoldura cada pequeno gesto e dá espaço para as atuações se destacarem (em todos os sentidos). Assim vamos nos comovendo com as personagens e nos apaixonando junto com elas.
Por exemplo o fracasso de Floyd que endivida toda a família, a ambição de Carol que passsa a desprezar Floyd, as tentativas de ajudar de Clark, mas que expõem e humilham os outros dois.
Assim esses heróis passam a parecer vilões e depois voltam a parecer heróis e terminam sendo extremamente humanos, numa afetividade que se fragiliza frente a um mundo tão árido, até indicando certa crítica a uma sociedade (em particular a norte-americana) que endivida sua população, que não dá muita oportunidade de trabalho, que não incentiva nem acolhe a diferença, que promove bullyigs e competitividade desde a infância...
Uma série sobre encontro, mas também sobre um tempo em que se sucumbe às próprias fragilidades.
sábado, 11 de abril de 2026
A verdadeira dor (A real pain) - Jesse Eisenberg
sexta-feira, 10 de abril de 2026
Sinédoque, Nova Iorque (Synecdoche, New York) - Charlie Kauffman
Conhecido por parcerias exitosas como em Brilho eterno de uma mente sem lembranças dirigido por Michel Gondry - já comentado no blog - ou Quero ser John Malcovich dirigido por Spike Jonze, aqui o roteirista Charlie Kauffman se arrisca também na direção em Sinédoque, Nova Iorque.
E faz um bom trabalho, com um elenco interessante e uma montagem vertiginosa acompanhando o processo de criação de um diretor de teatro, vivido pelo saudoso Philippe Seymour Hoffman.
A questão com o filme são os excessos, a ideia dentro da peça, dentro do filme em que tudo é metáfora para processos de apaixonamento, separação e luto do artista. As diferentes camadas ficam confusas, como uma construção barroca em que por um lado dá forma e materialidade a sensações abstratas, mas por outro vai diluindo e ofuscando sua mensagem.
Um pouco como Quero ser John Malcovich, que traz uma premissa genial, mas numa história que parece não saber o que fazer com ela, fosse um curta seria maravilhoso, mas num longa fica desgastante.
Sinédoque, nome que remete à figura de linguagem semelhante a metonímia, demanda seu tamanho, mas poderia ter mais lapidação, assim os estranhamentos lynchianos (nos remetendo um pouco a Estrada perdida ou Cidade dos sonhos), como casas em incêndio por anos ou personagens vividas por diferentes atores, teriam mais potência.
quinta-feira, 9 de abril de 2026
A filha perdida (La Figlia Oscura / The Lost Daughter) - Elena Ferrante / Maggie Gyllenhaal
Um exemplo mais recente de literatura feminina seria Elena Ferrante com histórias marcadas por sentimentos ambivalentes intensos, presentes tanto em relações femininas de amizades, mas principalmente da maternidade.
Aqui Maggie se debruça sobre uma obra de Ferrante com uma protagonista às voltas com a maternidade: maternidade desejada, cheia de amor, mas também de muita exasperação.
Essa guinada em geral é acolhida pelas mulheres, mas provoca repulsa entre os espectadores homens. Parece duro uma mãe que abandona os filhos e mais fácil se chocar com elas, apesar das milhares de versões masculinas de abandono já são tão usuais que não sensibilizam mais.
E no filme o abandono também é cheio de ambivalências, há amor e ódio, culpa e gozo, independência e desamparo.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Os anos novos (Los años nuevos) - Sara Cano, Paula Fabra e Rodrigo Sorogoyen
Começa em cenas de apresentação e sedução de uma relação, depois os primeiros conflitos, passando ao desejo de se reconectar, até desencontros de momentos de vida e a expectativa do final feliz.
Assim como na série Um dia - recém comentada aqui, lançada dois anos antes, Os anos novos também traz cada episódio correspondendo a um ano, um reveillon, e, assim, a temporada discorrendo sobre dez anos na vida das personagens.
Ali há uma radicalidade do investimento nos diálogos, num tempo muito realista e um encadeamento quase de associação livre, que a faz mais instigante e original. Não há uma seletividade das falas em prol de uma dramaturgia mais afiada, o encanto está em se deixar envolver pela conexão e aleatoriedade de temas que coexistem nas personagens vividas por Ethan Hawke e Julie Delpy - saiba mais aqui.
Aqui também há uma ênfase nos diálogos, mas eles são um pouco mais "funcionais", relatam mais o passar dos anos e deixam menos espaço para lacunas. Mas as temáticas intercalam com detalhes cotidianos e singelos.
Os anos novos traz Ana, uma garota extrovertida, que ainda não encontrou um foco na vida e está temerosa em tomar passos e se arriscar. E Oscar, um rapaz mais sério e responsável, mas bastante solidário e parceiro.
(Casal que lembra também outra obra de sucesso recente: A pior pessoa do mundo - também comentada aqui).
Porém aqui a série se perde um pouco ao trazer um amadurecimento de Ana e que não é acompanhada por Oscar. Ela se arrisca em desejos, vai atrás deles e aprofunda sua caminhada. Já Oscar não muda muito e acaba pautado por certo ressentimento.
segunda-feira, 30 de março de 2026
Um dia (One day) - Nicole Taylor
Eles começam a interagir no fim da faculdade e depois vão se acompanhando na busca por trabalhos, relacionamentos e perspectivas da vida adulta. Apesar das diferenças mantem o encantamento um pelo outro, oscilando e flertando entre a amizade e a paixão.
sexta-feira, 27 de março de 2026
O filho de mil homens - Daniel Rezende
Daniel Rezende ficou conhecido pela montagem de Cidade de Deus de Fernando Meirelles, em seguida assinou outras grandes produções como Tropa de elite de José Padilha, já comentado aqui. Só depois se aventurou pela direção, em curtas, séries e depois longas, como Bingo e agora o ambicioso Filho de mil homens.
Mas como traduzir audiovisualmente uma beleza que é tão etérea? Que vem de reflexões e sensações?
Talvez numa adaptação mais sóbria, mais afeita aos fatos em que o espectador que tem a missão de preencher lacunas e poesias, como em A hora da estrela, adaptação de Suzana Amaral para a obra de Clarice Lispector? Ou se apoiar na sinestesia de sons e imagens mas apenas para buscar a tradução de sensações, como fez o parceiro/mentor de Daniel, o cineasta Fernando Meirelles, com a obra de José Saramago na adaptação de Ensaio sobre a cegueira?
quinta-feira, 26 de março de 2026
Tremembé - Vera Egito / Ullisses Campbell
segunda-feira, 23 de março de 2026
Cara de um, focinho de outro (Hoppers) - Daniel Chong
Aqui a protagonista é Mabel, uma menina que cresce defendendo os animais, para que eles possam viver em seus habitats naturais, até o ponto de se opor às buscas de "modernização" da cidade feitas pelo prefeito. O charme do filme é ela fazer essa defesa ao lado dos bichos, participando de um experimento científico que a faz adentrar um corpo de um castor e interagindo como se fosse um deles.
Diferente de filmes que apresentam o mundo dos animais de maneira mais endêmica, como Vida de inseto, Formiguinhaz ou Flow; diferente também de filmes que tentam "humanizar" o mundo dos animais, reproduzindo os mesmos afetos e o mesmo sistema em que vivemos, como os recentes Um cabra bom de bola - comentado aqui, Zootopia ou o já clássico Procurando Nemo, Cara de um, focinho de outro começa mostrando as relações próprias do mundo animal, mas é aí que há um problema.
Aqui os animais começam revelando a Mabel que os bichos podem se comer para sobreviver, mas depois é defendida uma harmonia que nem sempre está de acordo com os instintos animais.
Além disso a vilania muda de lugar, primeiro no prefeito vaidoso e ganancioso, mas que Mapel consegue conscientizar, aí a harmonia passa a ser ameaçada então por um inseto que quer se vingar por todas as vezes em que semelhantes foram esmagados.
Os esmagamentos não são postos como a "lei das selvas". E a real selvageria de se destruir meios-ambientes para espaços otimizados para carros é colocada como uma questão pontual que o filme resolve em um final feliz.
A discussão sistêmica que urge, sobre por que se tenta subjugar outras espécies e a que ponto estamos colapsando o planeta numa busca infinita de fartura e comodidade (isso sem dizer para quem está indo essa riqueza e conforto) fica de fora.
Filmes infantis não precisam nem devem ser aulas políticas, mas a reflexão poderia ir além, claro que em tempos bélicos e de intolerância, é esperar demais de um filme mainstream norte-americano, fiquemos então com o encanto e diversão que ele proporciona!
domingo, 22 de março de 2026
Bugonia - Yorgos Lanthimos
O grego Yorgos Lanthimos é um nome forte da cinematografia atual, sempre muito criativo e impactante tem conquistado terreno mundo afora.
Ele começou a ganhar destaque com o potente e intimista Dente Canino, já comentado aqui e há uns dez anos vem filmando com estrelas americanas e ampliando seu público.
Com Pobres criaturas veio o maior impacto, trazendo aos filmes uma abordagem mais fantástica, fazendo lembrar inclusive o Ladrão de Sonhos de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. O filme fez sucesso entre público e crítica e mesmo sendo controverso conquistou prêmios de Veneza à Hollywood.
Em Bugonia Lanthimos repete a escalação de um elenco talentoso com Emma Stone e Jesse Plemons que trazem força e estranheza à narrativa.
Um jovem traumatizado que já não confia no mundo, mas em teorias da conspiração, sequestrando uma importante empresária, que ele desconfia ser uma alienígena.
O conflito é simples, mas os diálogos beirando o nonsense são ricos e instigantes, nos fazendo pensar no absurdo de ganâncias e negacionismos a que chegamos - nesse ponto lembra inclusive o filme Não olhe para cima, de Adam McKay.
Também são divertidas as referências a outros filmes, como ET de Steven Spielberg, nas cenas de bicicleta, que são mais realistas e se cruzam com uma estética entre o tosco fantasioso e a ficção científica.
A fragilidade e violência que nos cerca em Bugonia, diferente da indigestão de Sirat, recentemente comentado aqui, nos chega com acidez e ironia.
terça-feira, 17 de março de 2026
Sirat - Oliver Laxe
Raros os filmes que se pautem mais em ideias e sinestesias do que em narrativas, é possível pensar em filmes líricos como a adaptação para Estorvo de Ruy Guerra, ou pensar em experiências filosóficas e metafísicas como os filmes de Júlio Bressane, Tarkovski ou Béla Tarr - já comentados aqui. E, agora, em um tempo tão árido e apocalíptico, Sirat de Oliver Laxe chega perturbando, explodindo, arrebatando.
O ponto de partida do pai espanhol buscando uma filha perdida em alguma rave no Marrocos é um fio condutor que nos insere no universo de raves alternativas, em que vemos figuras gauche, deslocadas de uma sociedade convencional criando um mundo paralelo.
O pai e o filho caçula aparecem destoando de jovens drogados, mas vão tendo entrada para aqueles que recebem os folhetos com fotos da filha perdida, e assim começam algumas conexões.
Depois, algumas cenas de uma guerra que se inicia vai aproximando pessoas que vão se tornando de fato uma comunidade, grupo de páreas, radicais, mutilados, animais, sem laços que não aqueles... Não se fala de nenhuma outra família, de nenhum outro trabalho... A missão deles é se conectar com a música, com a paisagem, com a mistura de nacionalidades, culturas e línguas que aquelas pessoas representam.
E a conexão do espectador também fica com eles, com o estranhamento da música eletrônica e quase inumana, tomadas da paisagem que parecem arte abstrata em movimento e os afetos que surgem como oásis nesse deserto, flores nos cactos, mas às quais não se pode apegar, porque o mundo apresentado é bruto e por isso mesmo extremamente frágil. Não a fragilidade de pétalas, mas de espinhos, de estilhaços.
O mundo está a ponto de explodir, tal qual o fora das telas e quem seremos nós nessa história?
Não há redenção, não há final feliz, é o tempo de mal estar, físico, sinestésico, filosófico e metafísico. O que fazemos com o filme? Saímos no meio? Sustentamos até o final? Sorrimos? Choramos? Dançamos junto? Gritamos? Urramos?
O que faremos de nós? O que faremos do mundo? Como será nossa Sirat? (que significa uma travessia e no islamismo vem com as imagens de ser "uma ponte que atravessa o abismo do inferno em direção ao paraíso e é mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada").
sábado, 14 de março de 2026
Pssica - Stephanie Degreas, Fernando Garrido, Bráulio Mantovani
Além da trama principal que retrata o tráfico sexual de meninas no norte do país, há também o bulliying de meninos contra meninas, a divulgação de vídeos não consentidos, o conflito entre sexualidade e religião, o assédio de homens contra meninas, o uso de drogas, a prostituição...
A série traz a crueza do tema em um ritmo envolvente, não há a densidade de Manas, já comentado aqui, mas há potencial para conquistar o público e amplificar a denúncia. Com um ótimo elenco, encabeçado pela protagonista Janalice, vivida por Domithila Cattete, que traz o misto de etnias em suas feições, e um rosto e corpo de adolescente em que ora vemos a menina que precisa de proteção e ora vemos a mulher decidida e forte que poderá se tornar.
Ela começa tendo que lidar com o namorado que a trai divulgando imagens íntimas, depois tendo que lidar com a família que a condena, com outra parte da família que se resigna em aceitá-la, mas sem muito afeto e dedicação e ainda por cima com o risco de abuso. A partir daí ela se vê à própria sorte e busca suas próprias relações.
Janalice consegue fazer amizades, mas com outras pessoas também vulneráveis, que a vulnerabilizam mais e assim acaba capturada por traficantes sexuais que a leva para outro país para ser prostituída.
Essa trama envolve criminosos e políticos, de maneira bem realista, em especial em tempos de revelações de arquivos Epstein e denúncias de milhares de feminicídios e Janalice vai se tornando uma real heroína.
Temas sérios mas que são trabalhados como trama de ação policial, talvez com excesso de movimentações, cores e sons e passagens muito rápidas e que nos dificultam assimilarmos.
Como uma paixão muito repentina de Preá por Janalice por exemplo.
Ou em conflitos densos como o arrependimento do pai de Janalice pela maneira como age com ela, uma mudança bonita e profunda, mas que poderia ser mais explorada.
Ainda assim o resultado é ótimo e vale ser visitado!
quinta-feira, 12 de março de 2026
Dias perfeitos - Joana Jabace / Raphael Montes
Por isso a ideia da adaptação feita por Joana Jabace para uma minisserie funcionou muito bem com Dias perfeitos.
A série nos convida a conhecer as personagens, o casting carismático, principalmente na protagonista Clarice, vivida por Julia Dalavia, mas também na sinistra e ambivalente Patrícia, mãe do vilão, vivida por Débora Bloch.
Talvez na tentativa de seduzir demais a trama pese em cenas mais apelativas (ou de romance ou de violência), se apoie em um vilão caricatural, o jovem Téo, vivido por Jaffar Bambirra, e não aprofunde tanto aspectos psicológicos, mas para um produto menos denso e mais ligeiro agrada.
