Raros os filmes que se pautem mais em ideias e sinestesias do que em narrativas, é possível pensar em filmes líricos como a adaptação para Estorvo de Ruy Guerra, ou pensar em experiências filosóficas e metafísicas como os filmes de Júlio Bressane, Tarkovski ou Béla Tarr - já comentados aqui. E, agora, em um tempo tão árido e apocalíptico, Sirat de Oliver Laxe chega perturbando, explodindo, arrebatando.
O ponto de partida do pai espanhol buscando uma filha perdida em alguma rave no Marrocos é um fio condutor que nos insere no universo de raves alternativas, em que vemos figuras gauche, deslocadas de uma sociedade convencional criando um mundo paralelo.
O pai e o filho caçula aparecem destoando de jovens drogados, mas vão tendo entrada para aqueles que recebem os folhetos com fotos da filha perdida, e assim começam algumas conexões.
Depois, algumas cenas de uma guerra que se inicia vai aproximando pessoas que vão se tornando de fato uma comunidade, grupo de páreas, radicais, mutilados, animais, sem laços que não aqueles... Não se fala de nenhuma outra família, de nenhum outro trabalho... A missão deles é se conectar com a música, com a paisagem, com a mistura de nacionalidades, culturas e línguas que aquelas pessoas representam.
E a conexão do espectador também fica com eles, com o estranhamento da música eletrônica e quase inumana, tomadas da paisagem que parecem arte abstrata em movimento e os afetos que surgem como oásis nesse deserto, flores nos cactos, mas às quais não se pode apegar, porque o mundo apresentado é bruto e por isso mesmo extremamente frágil. Não a fragilidade de pétalas, mas de espinhos, de estilhaços.
O mundo está a ponto de explodir, tal qual o fora das telas e quem seremos nós nessa história?
Não há redenção, não há final feliz, é o tempo de mal estar, físico, sinestésico, filosófico e metafísico. O que fazemos com o filme? Saímos no meio? Sustentamos até o final? Sorrimos? Choramos? Dançamos junto? Gritamos? Urramos?
O que faremos de nós? O que faremos do mundo? Como será nossa Sirat? (que significa uma travessia e no islamismo vem com as imagens de ser "uma ponte que atravessa o abismo do inferno em direção ao paraíso e é mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada").

