No primeiro longa de Joachin Trier já estava presente o potencial de sua profundidade e talento e também o potencial de uma linguagem diversa mas que também resulta muitas vezes errática e até gratuita.
Eles e seus outros amigos parecem garotos perdidos, que fazem piadas machistas, não sabem falar e assumir seus sentimentos e que têm a petulância juvenil dos desejos de grandeza.
Talvez funcionem como alteregos do próprio diretor, que não se contenta em retratar a dupla principal e adensar suas questões psicológicas, ele traz várias outras personagens e faz brincadeiras de linguagem, com narrações, recortes e colagens, fazendo lembrar a linguagem dinâmica de Cédric Klapisch, que há pouco havia lançado O Albergue espanhol, já comentado aqui.
Os protagonistas também sonham alto, querem conversar com seus ídolos literários de igual para igual e se ver na estante ao lado de Camus.
Porém a vida é mais complexa e Trier sabe enredar os conflitos afetivos: as dificuldades dos rapazes em lidar com a amizade: o apoio, a inveja, o amor e a raiva; as dificuldades com seus namoros: assumir o amor, lidar com o ideal versus o real, se entregar; o conflito deles consigo próprios: surtos psicóticos, necessidade de distância, tempo e espaço, carência e dependência das relações...
Tudo isso é bem colocado e o acerto está inclusive nas medidas desequilibradas das cenas. Muitas vezes as apresentações são estranhas, as situações quase inverossímeis, mas acabam sendo tocantes na imperfeição e por isso ainda mais humanas.
Na sequência de sua filmografia podemos acompanhar seu aprofundamento e errância, como em Oslo, 31 de agosto e Thelma, também comentados aqui.
