quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A estrada (The road) - John Hillcoat

     A adaptação de John Hillcoat para o livro de Cornac McCarthy, A estrada, é mais um filme sobre fim de mundo. A Terra está definhando, os recursos estão acabando e com isso as pessoas vão ficando mais selvagens e hostis.

    Há milhares de exemplos de filmes assim, de Mad Max à Cegueira, de Não olhe para cima à Melancolia, passando pelo potente Hell - já comentado aqui - ou pela série Last of us, que faz muitos paralelos com A estrada.

    Aqui a trama também se passa na relação entre um adulto cuidador e uma criança que precisa de cuidados, mas que também tem o desafio de aprender a se cuidar.

    Um pai e um filho, um cuidador zeloso e obsessivo e um menino que mistura medo, amor, vulnerabilidade mas, acima de tudo, esperança.

    Os dois acabam entrando em conflitos sobre no que e em quem acreditar: o menino quer se abrir ao mundo, quer se vincular, quer florescer, mas o pai foca apenas em se fechar e se proteger. Como espectadores podemos oscilar entre as duas posturas e ver testadas nossas emoções.

    O filme é árido como poderia ser um fim do mundo, falta vida, falta cor (parece quase em preto e branco), falta ação... Mas o que sobra parece ser o essencial. 

    Por isso que, ao final, o filme parece ser sobre a vida e a morte e mais: sobre o amor ou não amor.  Mesmo com cenas mais convencionais, somos tocados por passagens e diálogos bonitos que nos tragam para essas questões e dilemas.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Ruptura (Severance) - Dan Erickson

     Ruptura é uma série árida e muito contemporânea, traz a trama de uma equipe que trabalha na misteriosa corporação Lumon, na qual trabalham pessoas que aceitaram uma experiência de se alienarem de si mesmas, de viver uma vida alternativa naquele ambiente, sem se lembrar ou ter qualquer conexão com suas vidas "reais".

    Entretanto essa "ruptura" começa a ter falhas, algumas pessoas dentro das empresas parecem se lembrar e ter relações com a vida fora dali e algumas pessoas começam a levar lembranças e informações da empresa para fora dela.

    Há um suspense e uma investigação em relação aos fatos relacionados ao procedimento de "ruptura", que pode atrair aqueles que gostam de um bom thriller, mas há também um potencial dramático, já que cada personagem buscou romper consigo mesmo por um motivo: são lutos, decepções, questões familiares etc.

    A trama flerta com um irreal mas que simboliza certos encaminhamentos que a humanidade tem feito: a virtualidade das relações, a desconexão com os afetos, a robotização do trabalho...

    Nesse aspecto remete um pouco à proposta da série Black Mirror.

    Na estética insólita, árida e sinistra faz lembrar também a série Kidding, inclusive na direção de atores, lá com destaque para Jim Carrey. 

    Aqui o destaque vai para o protagonista vivido por Adam Scott e participações especiais de John Turturro, Christopher Walken e Patricia Arquete.


    Já na trama dramática nos faz pensar em Brilho eterno de uma mente sem lembranças, (já comentado aqui), afinal até onde pode ir nosso desejo de não lembrar? Será que vale apagar tudo para apagar uma dor? O quanto nos apagamos a nós mesmos querendo não sofrer? Optaríamos pela pílula azul do Matrix, escolhendo a alienação?   

Questões profundas e bastante interessantes, mas que se perdem e se arrastam um pouco. 

Cria-se mais expectativa do que a narrativa entrega.  Se investem e desinvestem em personagens fazendo termos uma experiência errática e irregular. Há momentos sublimes e outros gratuitos.

De qualquer forma, as questões e o clima da narrativa permanecem em nós, talvez sem rupturas possíveis...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Thelma - Joachin Trier

     Vindo de uma família com muitos artistas: pai, avô e até seu conhecido primo distante Lars, Joachim Trier começou no cinema já se destacando com público e crítica. Estreou com Reprise e depois já passou ao premiado Oslo, 31 de agosto - comentado aqui.


    Entre os filmes seguintes esteve Thelma, com um tema tocante e uma busca ousada de linguagem.

    Trier conta a história de Thelma, jovem que inicia seus estudos na faculdade e tem um episódio de uma espécie de convulsão. Na investigação do que poderia ter acontecido com ela vão surgindo seus sentimentos, sua sexualidade reprimida, a educação rígida de pais religiosos e um passado traumático.

    Os ataques e repercussões desses ataques da garota ganham um caráter sobrenatural, misturando o drama intimista com algo mais fantástico. Há passagens e imagens interessantes, mas outras desnecessárias. 

    As cenas parecem metáforas para a psique da personagem: seus afetos, desejos, medos, raivas, potência: o primeiro amor, o beijo, o gozo...

    Talvez se tudo isso fosse trabalhado em chave realista ganhasse mais profundidade e fosse ainda melhor, vide seus outros filmes.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Sonhos de trem (Train dreams) - Clint Bentley

    


    Clint Bentley surpreende pela maturidade em Sonhos de trem, não apenas pela bela execução, mas por se relacionar com temas tão densos e filosóficos. 

    Não são os acontecimentos e a narrativa o que mais importa aqui, é a passagem do tempo e como ele pode ser vivido e sentido. São menos as perdas na vida do protagonista Joel e mais as lacunas que ficam em sua vida, a dor e angustia de sua consciência de não poder preenchê-las. 

    Talvez venha daí o título, o trem, esse meio de transporte que passa numa constância por diferentes paisagens, um veículo em que se senta e se olha pela janela, numa paisagem aqui marcada pela transformação dos Estados Unidos em expansão no início do século XX.

    Assim, frente à tragédia, ele vive quase resignadamente, tentando entender o sentido - ou falta de sentido - das coisas, são poucas interações e diálogos e muita relação com a natureza, com as árvores centenárias que corta ganhando a vida.

    Aqui também entra uma denúncia sutil da ambição dos homens e seu atropelo com a natureza, o desmatamento que cobra seu preço em incêndios mortíferos.

    Dá pra sentir a narrativa mais literária baseada no livro de Denis Johnson, inclusive por trechos lidos por um narrador, que nos convida a adentrar mais nas reflexões, mas também fazem perder um pouco a fluidez do filme.

    Entre os méritos do filme estão de fato a tão falada fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, que dá textura e materialidade para as emoções de Joel e tão bem interpretadas por Robert Grainier, este dá vida e poesia, à personagem e ao filme.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Raul Seixas - Eu sou - Paulo Morelli

     Paulo Morelli chega em 2025 com uma diversa e sólida filmografia: publicidades, filmes e séries, com direito a destaques como a série Cidade dos Homens, espécie de spin off do filme de seu parceiro de produtora Fernando Meirelles.

    Em Raul Seixas - Eu sou Morelli aplica toda sua experiência fazendo uma cinebiografia do grande astro da MPB. 

    Figura polêmica e idolatrada com uma trajetória com "início, meio e fim", "sexo, drogas e rock'n'roll". Tá tudo ali, mas para funcionar é preciso alinhar: astros, magias e outras artes, mas o que parece fácil e óbvio muitas vezes derrapa, vide tantas outras cinebiografias confusas, tumultuadas, atropeladas, mal interpretadas, precárias...

    Aqui há uma medida boa de tudo, a dosagem entre as cenas melodramáticas e as musicais, entre o histórico e o romanceado que nos remetem à época. Episódio a episódio a série nos instiga tanto a aspectos mais históricos quanto aos mais pitorescos e nos faz repensar nas obras que conhecemos de Raul (como nas muitas cenas de criação de letras e músicas conhecidas de cor por todos). Também nos faz repensar nele de maneira mais íntima e aprofundada, nos envolvendo em seu drama pessoal: no talento, na irreverência, na megalomania, na errância, nos amores, nas rivalidades, nas curiosidades, nos vícios, nas traições, na crueldade do showbusiness... Caldeirão bombástico como para tantos outros artistas, como por exemplo: Elvis, Fred Mercury, Nina Simone, Amy Winehouse, Arnaldo Batista - todos com filmes comentados no acervo do blog.

    Nossa aproximação com a trajetória também se dá muito por conta do elenco, com destaque para o trabalho do protagonista Julio Andrade.

    Uma grande homenagem a um importante artista, talvez com possíveis lacunas biográficas - dado o contraste com outra obra audiovisual sobre ele, o documentário Raul - o início, o fim e o meio - já comentado aqui, mas vale muito a aproximação e o entretenimento... Para quem não viu ainda: "Toca Raul!".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Hamnet - a vida antes de Hamlet (Hamnet) - Chloé Zhao

     Chloé Zhao tem ganhado destaque no cinema internacional, a cineasta chinesa atua nos EUA e trouxe em 2020 o instigante Nomadland.

    Agora Chloé traz novamente um tema criativo e pra falar de Shakespeare sem ser repetitiva ou banal é preciso muita autenticidade.

    Chloé se inspira no livro de Maggie O'Farrell, que por sua vez se inspira na vida de Shakespeare. Ela traz uma biografia romanceada, com fragmentos de fatos históricos e costuras de suposições ou imaginações.     

    Hamnet, então, mais do que nos trazer fatos reais, nos transporta uma ambientação, a um tempo e um espaço, à atmosfera de Shakespeare.


    No começo o filme parece romancear demais, as personagens muito irreverentes e quase etéreas nos fazem mergulhar numa poesia, ora tocante, ora artificial, isso se dá especialmente na construção da companheira de William: Agnes, jovem que perdeu a mãe e não se sente devendo obediência nem a sua madrasta, nem a seu namorado ou marido, nem aos sogros, nem a ninguém. Agnes é comprometida com as lembranças de sua própria mãe e seus ensinamentos sobre a natureza, numa força quase de bruxa, numa fragilidade quase de Ofélia...

    William se apaixona por Agnes, mas não pelo cotidiano em família e a rotina doméstica, ele se perde em seus pensamentos, e a toda hora parece sufocado por eles. Agnes o observa, entende que ele precisa de uma forma de transbordar aquela intensidade e incentiva suas buscas.

    Acompanhamos o anseio e produção artísticos de William pela sua ausência. O marido que faz visitas esporádicas e o pai que tenta recuperar o tempo perdido nessas passagens.

    Podemos nos tocar com as diferentes formas de amor apresentadas, as contravenções dessa relação - especialmente para a época, a intimidade de Agnes e a relação com seus filhos, mas tudo com um tom um pouco pueril.

    Mesmo quando há uma tragédia familiar, com a perda de um dos filhos, o melodrama é construído de maneira romanceada.

    Há questões de parentalidade e responsabilidade colocadas, mas sem uma grande profundidade. 

    Porém quando essa situação se torna material para uma das principais obras de Shakespeare, daí vemos a arte de fato transbordar, o luto de William o implica, se mostra dentro dele - seu filho se torna fantasma ou ele é/foi fantasma do filho? Questões sobre vida e morte, presença e ausência, amor e dor se fazem presentes em uma sequência arrebatadora.

    Arrebatadora ao lembrarmos de Shakespeare e arrebatadora também ao vermos o filme: um retrato original de uma verdade romanceada ou uma inédita narrativa verídica...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

All her fault - Megan Gallagher, Kate Dennis, Minkie Spiro

    Série que está sendo bastante comentada nas redes por diferentes motivos e não à toa, ela flerta com questões diversas e em diferentes registros, porém o que poderia enriquecer a narrativa a deixa desencontrada (ou mesmo narrativamente disléxica)...

    All her fault é sobre o desaparecimento de um menino de cinco anos e a busca dos pais por seu paradeiro.

    O primeiro episódio nos captura pelo conflito denso e dramático vivido em maravilhosas atuações (embora aqui também haja desequilíbrio já que as protagonistas femininas são desenvolvidas com bastante tridimensionalidade e as masculinas ou mesmo as femininas coadjuvantes são quase caricatas e com atuações mais rasas). Sarah Snook e Dakota Fanning são os destaques.

    No desenrolar dessa apresentação é colocada também uma questão muito contemporânea e profunda de: onde estão os responsáveis por uma criança? Fica evidenciado na série o desequilíbrio entre a divisão de tarefas, o desafio muito maior que é para as mulheres conciliarem a parentalidade com seus trabalhos. Faz lembrar as tirinhas de Mary Catherine Starr: 

 

    Porém a série segue com um crime a ser desvendado e a partir daí intercala momentos de suspense e de tensão em abordagens ora de thriller ora de melodrama, acrescentando o tema de: até onde podemos chegar para defender nossos filhos e nossa parentalidade? Vale corrompermos nossa própria ética? Vale vivermos mentiras?

    Ao final traz justificativas mirabolantes e que perdem o potencial de falar de questões atuais tão ricas e necessárias, se distancia do drama real, intimista e contemporâneo da parentalidade e se torna um suspense/novela mexicana/Manoel Carlos/Gloria Perez. Tem sua força, sua potencialidade, mas se perde nas chaves em que vai se desenvolvendo.

    Começa dialogando com séries como Expatriadas ou a primorosa Mare of Easttown, segue explorando a trama intimista familiar remetendo a Big little lies, a própria Succession onde Sarah Snook também brilhou, ou a potente The Bear que também traz outro destaque do elenco: Abby Elliott

    Porém acaba por fazer lembrar da narrativa errática de Wanderlust ou Ladrões de drogas que começam com propostas consistentes, mas se perdem no caminho.

    Em All her fault o final tenta amarrar tantas situações e de maneira tão exagerada que beira a inverossimilhança, nem se assume no gênero melodramático da novela como Por amor de Manoel Carlos, por exemplo, em que se assemelha bastante na trama. E tampouco se consolida na proposta mais densa. Na busca por justificativas psicológicas acaba por desresponsabilizar conflitos cotidianos como são os da parentalidade, postos todos os dias em todas as famílias e vividos dramaticamente o tempo todo, em especial pelas mulheres.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Maya, me dê um título (Maya, donne-moi un titre) - Michel Gondry


    Michel Gondry esbanja criatividade em tudo que faz: vídeos musicais ímpares, filmes memoráveis como Brilho eterno de uma mente sem lembranças, já comentado aqui ou mais recentemente séries como a interessante Kidding.

    Mas nem sempre a originalidade de argumentos e o rico apelo visual dão conta de uma narrativa, caso de A espuma dos dias, também comentado aqui e de seu filme mais recente, o infantil Maya, me dê um título.

    A proposta é bastante simpática: Gondry dá vida a ideias de histórias de sua filha, Maya... Ela lhe dá um título e ele desenvolve a história com intervenções dela. O resultado tem momentos divertidos e singelos, mas em geral é simplório. Parece um excelente exercício familiar mas que não fosse Gondry mundialmente famoso talvez não fosse finalizado como um longa-metragem ganhando telas pelo mundo...

    Podemos ter prazer em adentrar aquele ambiente intimista em suas criações e artes, mas suas histórias acabam não envolvendo tanto quanto poderiam.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Foi apenas um acidente - Jafar Panahi

    Jafar Panahi tem se mostrado um cineasta incansável: artista inquieto e criativo, não para sua expressão apenas pela arte, mas para registrar e denunciar o momento político do Irã e que, em contrapartida, geram interesse não apenas como obras de artísticas, mas como documentos históricos.

    Se distanciando de um início mais puro e bucólico como o maravilhoso Balão Branco, Jafar vem se consolidando com seus filmes clandestinos, que ele faz enquanto está preso ou de maneira escondida, com a importante colaboração de parceiros ao redor do mundo. É o caso de Isto não é um filme e Cortinas Fechadas - já comentados aqui e é o caso de seu filme mais recente: Foi apenas um acidente.

    
    O filme traz um homem que reconhece uma autoridade do regime e que o torturou. Ele pensa em se vingar, mas hesita, com dúvida de se tratar realmente de seu torturador. Ele vai em busca de outras pessoas que possam ajudar a confirmar a identidade do homem e acaba reunindo outras pessoas que foram torturadas pelo regime.

    

    O filme, feito clandestinamente, vai trazendo pequenos conflitos dessa trajetória, em registros quase documentais, muitas vezes pendendo para o cômico.

    Mas o que a obra traz de mais especial são seus diálogos, a conversa entre as vítimas sobre as prisões, as torturas e como buscar mudança: é pela vingança? É pelo esquecimento? É pelo perdão?

    O filme não aprofunda muito as questões e muito menos traz as respostas, mas certamente sensibiliza para o tema, nos sensibiliza para suas dimensões históricas, políticas, éticas e também as dimensões psicológicas.

    Singelo, bonito e muito necessário, por isso principalmente que parece atrair tanta simpatia e reconhecimento no mundo todo, conquistando a palma de cannes e concorrendo ao oscar, por exemplo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ainda estou aqui - Walter Salles

    Walter Salles é muito cuidadoso em escolher seus projetos, sempre com grandes obras e personagens como referência e/ou inspiração traz obras consistentes e com grandes equipes, como Terra Estrangeira, Diários de Motocicleta ou Na estrada - já comentado aqui.

    Nem sempre tudo isso garante a obra-prima, mas quando acontece temos a chance de ter um Central do Brasil, por exemplo.

    Ainda estou aqui também conquistou público e critica Brasil e "afora"...

    A história da família Paiva comoveu pessoas ao redor do mundo. Uma família de classe média alta no Rio de Janeiro orbitada ao redor de Rubens, engenheiro, deputado, pai de família, bom amigo, que vê sua vida abalada pelo golpe de 64: perde seu mandato, amigos, estabilidade... Ainda assim segue a vida e se apoia na família: a mulher, os cinco filhos e os tantos amigos e agregados que circulam em sua casa. Uma casa festiva e movimentada, também pelas inquietações e ações clandestinas em que ele se envolve... Mas nada tão radical que parecesse justificar seu fim: o sumiço silencioso dado pelos militares.

    E o drama do filme surge aí, com o desaparecimento de Rubens, quem vive o grande conflito não é ele, mas sua mulher, Eunice. Eunice que o busca incansavelmente e tenta seguir a vida cuidando dos cinco filhos.

    Não é fácil cativar pelo silêncio. Fernanda Torres que dá vida a Eunice não constrói uma personagem carismática e nem guerreira, é na resiliência, na persistência, na constância que estão suas forças. Por isso não envolve todos e não brilha de maneira óbvia. Como ela mesma diz, sua busca é por uma personagem estoica.

    Assim o filme não tem curvas tão intensas, não apresenta arroubos emocionais ou de ação. Sangue e lágrimas, tônicas daqueles tempos, não estão presentes aqui.

    O filme envolve menos como drama, mas nem por isso faz refletir menos, talvez ao contrário. Talvez tenha feito tanto sucesso por permitir ao público se identificar com o cotidiano daquela família, por nos convidar a estar dentro, fazer parte e, assim, viver sua dor, suas dúvidas, sua angústia, sua perda.

     A violência de uma ditadura não está apenas em violências explícitas, mas nas restrições e proibições: nas mentiras, na omissão, na desinformação, na incerteza e tudo isso está muito bem impresso no filme. Forte contribuição para a luta de Eunice: que a história não seja esquecida e que permaneça aqui, hoje e sempre.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Argentina 1985 - Santiago Mitre

    Santiago Mitre já havia se inscrito em temas político, contra injustiças sociais e imerso no ambiente da justiça. Trouxe essas temáticas nos filmes de Pablo Trapero que roteirizou e também em seu longa Paulina, já comentado aqui.


    Em Argentina 1985 Santiago tematiza uma passagem da Argentina do tempo de sua infância, quando a dura ditadura vivida em seu país recebeu um julgamento.

    O filme é bem didático, traz o passo a passo do julgamento e apresenta os principais envolvidos. Talvez pudesse adensar mais as personagens e explorar mais as situações, mas apenas trazer o básico já foi bastante importante.

    Argentina 1985 faz pensar e rememorar. Dá uma aula sobre a importância da revisão história de acontecimentos importantes como um golpe militar, um governo autoritário, sangrento e que ignora leis. Vale em especial para brasileiros que não olharam de frente essa passagem da história, que em sua luta pela anistia dos guerrilheiros contra a ditadura acabou aceitando a anistia ampla, geral e irrestrita. 

    Não nos confrontamos com nossos traumas, adotamos a postura do "deixa disso" (que volta até hoje em novas situações e roupagens), não analisamos nossas posturas, nosso comportamento, nosso desejo, nossa repressão, nossas feridas. Como curá-las então? Não temos vitórias como essa da Argentina, mas temos muito a resgatar e contar. E nosso cinema também nos ajuda em inúmeros exemplos, seja em filmes do início da retomada do cinema brasileiro como Lamarca ou O que é isso companheiro? Filmes dos anos 2000 como Hoje - já comentado aqui. Ou até filmes em que esse é o contexto de fundo como Tatuagem ou Meu nome é Gal - também comentados no blog. Ou ainda nos sucessos recentes como Ainda estou aqui ou Agente Secreto. E que siga em mais produções, para seguirmos a máxima de Freud de "repetir, recordar e elaborar".

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Hacks - Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky


    Hacks caminha já para sua 5a temporada, um sucesso desde sua estreia, com muito público e prêmios. É mais uma série metalinguística sobre a indústria audiovisual, a trama aqui é sobre o desenvolvimento de programas para a comediante Deborah Vance interpretada por Jean Smart, em sua busca por recolocações e tentativas de se manter ou até ascender em seu sucesso, assim conhece a roteirista em início de carreira Ava Daniels, vivida por Hannah Einbinder.

    A série explora muito bem situações do showbusiness, abordando principalmente a construção do humor: a ironia, a acidez, as críticas, o limiar com ofensas, preconceitos, moralismos...

    E o que cativa nessa série nessa construção é a relação entre as protagonistas, que também se criticam, se ofendem, mas aprendem muito uma com a outra. Elas acabam se alimentando em suas trajetórias e vão criando uma afeição cheia de ambiguidades.

    O público transita com elas, entre defesas e ataques, empatias e antipatias, torcidas contra e torcidas pró. Com isso acaba sendo seduzido menos por Hollywood e mais pela intimidade das personagens, por seus aspectos mundanos e cotidianos, não são as produções milionárias, os picos de audiência, os produtos em franquia, os prêmios e reconhecimentos, mas o desejo de amar e ser amada de Deborah e Ava.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Manas - Marianna Brennand

    Estreia na ficção de Mariana Brennand, que já havia feito trabalhos documentais como o filme sobre o seu tio, o importante artista plástico Francisco Brennand (já comentado aqui), Manas também surgiu como um projeto documental.

    Mariana queria investigar a exploração sexual de meninas no norte do país, entretanto se deu conta de que ninguém ali gostaria de falar sobre o assunto e se retraumatizar com a experiência e também seria mais difícil identificar e responsabilizar os criminosos. Assim a ficção lhe pareceu um caminho, e que ela trilhou talentosamente.

    Falar sobre meninas prostituídas poderia ter ficado panfletário ou melodramático demais, mas ela soube dosar: construiu uma personagem densa, com ambiguidades não apenas entre o ser menina e ser mulher, mas entre a ignorância e o desejar, o querer ser desejada e estar longe do desejo. Ela não é colocada como inocente, tem a complexidade de quem entende algo, mas não entende tudo, em que tem interesses, mas onde é vítima.


    O casting para esse trabalho também foi muito bem feito, a menina escolhida para protagonista nos cativa em suas ações e principalmente em seus silêncios. Seu olhar sempre parece dizer muito, mas não nos revela muito sobre o que.

    São lacunas que compõe o filme, que lhe dão forma e que ornam com o ambiente amazônico em que se passa a trama.

    A beleza está lá e assim a corrupção dessa beleza se torna ainda mais ameaçadora.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Dez por cento (Dix pour cent) - Fanny Herrero

    Tantas séries ganharam versões em diferentes países, essa é uma que merecia muitas versões locais!
    Afinal é muito interessante ter uma narrativa sobre o processo de produção de obras audiovisuais, mas com os atores reais não apenas como elenco, mas como trama, apresentados como caricaturas deles mesmos. Uma ideia genial, feita aqui com maestria: drama, humor, ritmo, sensibilidade, tudo em boa medida.


    São três temporadas curtas cuja espinha dorsal são as personagens "anônimas", os trabalhadores de  uma agência de atores que lutam por seu lucro de "dez por cento" sobre os ganhos dos atores famosos. Assim vemos o cotidiano de disputa entre agências e agentes diante de cada artista, disputas por bons trabalhos, pelo sucesso em convites e audições, pelas boas negociações, os conflitos entre propostas, ideais e buscas pessoais dos atores, etc.

    Mas o charme está em, a cada episódio, ter uma grande estrela convidada que é explorada em suas características: atrizes que querem ser levadas a sério a partir de seus papéis, atrizes que querem ser bem representadas, que têm que enfrentar o envelhecimento ou a solidão, que têm que superar a marca de certos papéis... Ou ainda episódios em que se exageram características reais das personagens, como o modo obsessivo-workaholic de Isabelle Hupert, ou a dificuldade diante da pecha de símbolo sexual de Mônica Belucci.

    A série nos traga para sua trama, mas também ecoa todo imaginário que temos com artistas como Cécile de France, Charlotte Gainsbourg, Jean Reno, Juliette Binoche, Sigourney Weaver na fértil cinematografia francesa e além.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Estúdio (The Studio) - Evan Goldberg, Alex Gregory e Peter Huyck


    Uma série leve e divertida, apesar da complexidade e excentricidade do cotidiano apresentado: bastidores de Hollywood.
    A primeira temporada conta com 10 episódios que apresentam dilemas internos da indústria audiovisual, por exemplo na  questão da busca de sucessos pessoais num ambiente muito marcado pela vaidade e pelo ego, onde ter reconhecimento, bajular pessoas reconhecidas e temer se indispor com elas, almejar prêmios etc é o dia-a-dia. Com esses conflitos temos uma grande trama sendo desenvolvida, com as personagens fixas tentando crescer e se dar bem.

    Também temos em praticamente todos episódios o conflito entre a busca artística e a busca de lucros, assim incluir ou não merchandising, aceitar ou recusar filmagens mais demoradas e custosas, são exemplos de temas de episódios.

    A série traz ainda a dificuldade entre se manter em narrativas de temáticas atuais e o cuidado com polêmicas, como o desafio de ser politicamente correto e ainda assim poder apresentar conflitos e dramas.

    Para quem gosta de comédia há muitas cenas parar rir e se divertir, para quem quer adentrar na metalinguagem dos filmes, séries e showbusiness há muitas cenas para dialogar, já para quem quer drama as cenas não se adensam muito e não aprofundam suas temáticas, ficam mais na curiosidade de bastidores e nos exageros das piadas.

sábado, 13 de setembro de 2025

Ritas - Oswaldo Santana e Karen Harley

    Os conhecidos montadores do audiovisual brasileiro, Oswaldo Santana responsável por obras como Tropicália e Bruna Surfistinha e Karen Harley responsável por Viajo porque preciso, volto porque te amo e Que horas ela volta? (já comentados aqui no blog) se uniram em um projeto especial. 

    A dupla comprou os direitos da autobiografia de Rita Lee em 2018 e começaram a trabalhar na narrativa da vida da artista, tanto fazendo uma longa entrevista - a última dada por ela, quanto pesquisa de material de arquivo.     

    Entre os materiais também a produção própria de Rita com vídeos feitos por ela em sua casa, ressaltando o humor e autenticidade dela, mas também apresentando o lado sereno e íntimo.

    Algumas frentes de trabalho e muito material em ebulição, a potência e versatilidade de Rita Lee foi transbordando e dando corpo ao documentário, inclusive definindo o título que traz a multiplicidade da artista, o documentário não traz apenas uma Rita, mas Ritas.

    Há a Rita filha de classe média alta paulistana; há a Rita adolescente roqueira rebelde; há a Rita que integrou o Mutantes, alcançou o sucesso, dialogou musicalmente com a efervescência artística dos anos 60 e 70 no Brasil; há a Rita expulsa dos Mutantes numa situação que revela muito sobre ela e sobre a banda, dando um contraponto da versão de Arnaldo Batista, apresentada no documentário Loki - já comentado aqui; há a Rita que se reinventou numa carreira solo; a Rita que encontrou um grande amor e intenso parceiro de vida e de arte, Roberto de Carvalho; a Rita do sexo, das drogas e do rock; a Rita da maturidade, do envelhecimento, mãe e avó...

    Com uma personagem tão rica e encantadora já havia muito potencial para seduzir o público, mas a costura dessa "geléia geral" com belas animações e trilha muito bem pontuada e utilizada valorizam ainda mais a narrativa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Meu nome é Gal - Dandara Ferreira e Lô Politi

     A onda das cinebiografias musicais é paradoxal: nos enchem de expectativas difíceis de se cumprir por um lado, mas, por outro, ao escutar os grandes sucessos dos artistas, temos nosso deleite garantido...

    Não poderia ser diferente com um filme sobre Gal Costa.

    Aquém da artista e da obra, as diretoras Dandara Ferreira e Lô Politi acertam na narrativa enxuta e intimista, se focam no início da carreira artística de Gal, quando ela ainda era Gracinha, para então se tornar Gal Costa.

    O filme é sobre esse despertar, com uma Gal engatinhante, assustada, experimental.

    Sophie Charlote dá vida a essa busca com encanto e simpatia, da moça tímida mas corajosa, que larga sua cidade para encontrar os amigos músicos e parceiros. A Gal Costa que tenta agarrar oportunidades de mostrar seu talento para interpretar bossa nova, mas que começa a se destacar no movimento que ali se inicia da Tropicalia, até se mostrar consolidada por todo seu talento.

    Eram tempos quentes, de luta entre a ditadura e os movimentos de resistência e guerrilha comunista e de efervescência de posicionamentos frente a esse cenário.

    As artes em especial borbulhavam e a MPB se mostrava especialmente fértil.

    Meu nome é Gal pode não borbulhar, mas provoca a emoção e nostalgia do tempo e dos artistas especiais que retrata.

    Um filme sem arroubos, mas para se curtir e se colocar na vitrola sem medo...



sábado, 6 de setembro de 2025

A reserva (Reservatet) - Ingeborg Topsøe



    A reserva de Ingeborg Topsøe é uma minissérie de seis episódios sobre o desaparecimento de uma jovem babá filipina na Dinamarca.

    A série é muito bem feita: boa fotografia, direção de arte interessante, som instigante e boa direção de atores. 

    Há personagens e núcleos bem definidos: os milionários x seus funcionários, os egoístas x os solidários, os adultos x as crianças.

    A série faz de um suspense clássico mais uma oportunidade para se discutir a adolescência: quem são esses novos jovens que vivem um mundo paralelo no universo digital?
    E aqui com a peculiaridade da convivência com babás vindas de outra cultura e nessa relação complexa de alguém que para as crianças merecem um afeto familiar, mas que, ao mesmo tempo, não pertencem ao seu mundo.

    Faz lembrar o filme Que horas ela volta? mas também séries mais recentes como Adolescência e Expatriadas.

    Sem propor grandes arroubos, mas muito bem construída e costurada, envolve e instiga.

Longe deste insensato mundo (Far from the Madding Crowd) - Thomas Vinterberg

    Thomas Vinterberg é um dos mentores do Dogma 95 e diretor do filme ícone Festa de família. Também autor de outros filmes profundos e intimistas, como Submarino e A caça, já comentados aqui. Porém Vinterberg é um cineasta versátil e com Longe deste insensato mundo mostra um lado mais clássico seu.

    Vinterberg se baseia no romance do inglês do século XIX Thomas Hardy e traz uma Inglaterra vitoriana. 

    Bathsheba é uma jovem não convencional, estudada e sem pretensões de seguir o destino padrão de casar e constituir família. Assim ela recusa pretendentes e foca sua vida em fazer prosperar a fazenda que herda. 

    São muitas frentes que o filme apresenta, mas acaba não aprofundando nenhum tema. Em seu panorama rasante, acaba realmente raso e pouco convincente. 


    Traz uma protagonista doce, vivida por Carey Mullingan para um papel de muita personalidade e traz pretendentes leais, mas tampouco vemos o que os faz manter tão conectados à heroína.

    Acompanhamos o filme que é muito bem feito com dedicação, mas sem empolgação - bem diferente de outras experiências vinterbergianas!


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Uma bela vida (Le Dernier souffle) - Costa-Gravas

    Costa-Gravas é um diretor de seu tempo e de sua história, após filmes com temáticas políticas - alguns já comentados aqui, chega aos 92 anos falando sobre o fim da vida.




    Em Uma bela vida ele traz o filósofo Denis Podalydès às voltas com sua própria saúde e se aproximado do médico Kad Merad, que se especializou em cuidados paliativos. Assim ele tenta entender de que se trata essa especialidade e como funciona seu trabalho.

    E, assim também, Denis se aproxima de diversas pessoas que estão próximas ao seus fins e que querem decidir como viver esse momento: acompanhados, sozinhos, de maneira mais cética, mais religiosa, festivas, introspectivas etc.

    Com cada decisão prática tomada podemos ver as repercussões filosóficas e existenciais.

    Um filme simples, com uma forma despretenciosa, sem grandes cenas e amarrações, mas funcionando como uma boa janela narrativa para essa discussão e reflexão.

    Em tempos de envelhecimento da sociedade e de avanços na medicina, é muito interessante provocar o debate e mantê-lo vivo e em aberto.