Chloé Zhao tem ganhado destaque no cinema internacional, a cineasta chinesa atua nos EUA e trouxe em 2020 o instigante Nomadland.
Agora Chloé traz novamente um tema criativo e pra falar de Shakespeare sem ser repetitiva ou banal é preciso muita autenticidade.
Chloé se inspira no livro de Maggie O'Farrell, que por sua vez se inspira na vida de Shakespeare. Ela traz uma biografia romanceada, com fragmentos de fatos históricos e costuras de suposições ou imaginações.
Hamnet, então, mais do que nos trazer fatos reais, nos transporta uma ambientação, a um tempo e um espaço, à atmosfera de Shakespeare.
William se apaixona por Agnes, mas não pelo cotidiano em família e a rotina doméstica, ele se perde em seus pensamentos, e a toda hora parece sufocado por eles. Agnes o observa, entende que ele precisa de uma forma de transbordar aquela intensidade e incentiva suas buscas.
Acompanhamos o anseio e produção artísticos de William pela sua ausência. O marido que faz visitas esporádicas e o pai que tenta recuperar o tempo perdido nessas passagens.
Podemos nos tocar com as diferentes formas de amor apresentadas, as contravenções dessa relação - especialmente para a época, a intimidade de Agnes e a relação com seus filhos, mas tudo com um tom um pouco pueril.
Mesmo quando há uma tragédia familiar, com a perda de um dos filhos, o melodrama é construído de maneira romanceada.
Há questões de parentalidade e responsabilidade colocadas, mas sem uma grande profundidade.
Porém quando essa situação se torna material para uma das principais obras de Shakespeare, daí vemos a arte de fato transbordar, o luto de William o implica, se mostra dentro dele - seu filho se torna fantasma ou ele é/foi fantasma do filho? Questões sobre vida e morte, presença e ausência, amor e dor se fazem presentes em uma sequência arrebatadora.
Arrebatadora ao lembrarmos de Shakespeare e arrebatadora também ao vermos o filme: um retrato original de uma verdade romanceada ou uma inédita narrativa verídica...
