Clint Bentley surpreende pela maturidade em Sonhos de trem, não apenas pela bela execução, mas por se relacionar com temas tão densos e filosóficos.
Não são os acontecimentos e a narrativa o que mais importa aqui, é a passagem do tempo e como ele pode ser vivido e sentido. São menos as perdas na vida do protagonista Joel e mais as lacunas que ficam em sua vida, a dor e angustia de sua consciência de não poder preenchê-las.
Talvez venha daí o título, o trem, esse meio de transporte que passa numa constância por diferentes paisagens, um veículo em que se senta e se olha pela janela, numa paisagem aqui marcada pela transformação dos Estados Unidos em expansão no início do século XX.
Assim, frente à tragédia, ele vive quase resignadamente, tentando entender o sentido - ou falta de sentido - das coisas, são poucas interações e diálogos e muita relação com a natureza, com as árvores centenárias que corta ganhando a vida.
Aqui também entra uma denúncia sutil da ambição dos homens e seu atropelo com a natureza, o desmatamento que cobra seu preço em incêndios mortíferos.
Dá pra sentir a narrativa mais literária baseada no livro de Denis Johnson, inclusive por trechos lidos por um narrador, que nos convida a adentrar mais nas reflexões, mas também fazem perder um pouco a fluidez do filme.
Entre os méritos do filme estão de fato a tão falada fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, que dá textura e materialidade para as emoções de Joel e tão bem interpretadas por Robert Grainier, este dá vida e poesia, à personagem e ao filme.
