quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Hamnet - a vida antes de Hamlet (Hamnet) - Chloé Zhao

     Chloé Zhao tem ganhado destaque no cinema internacional, a cineasta chinesa atua nos EUA e trouxe em 2020 o instigante Nomadland.

    Agora Chloé traz novamente um tema criativo e pra falar de Shakespeare sem ser repetitiva ou banal é preciso muita autenticidade.

    Chloé se inspira no livro de Maggie O'Farrell, que por sua vez se inspira na vida de Shakespeare. Ela traz uma biografia romanceada, com fragmentos de fatos históricos e costuras de suposições ou imaginações.     

    Hamnet, então, mais do que nos trazer fatos reais, nos transporta uma ambientação, a um tempo e um espaço, à atmosfera de Shakespeare.


    No começo o filme parece romancear demais, as personagens muito irreverentes e quase etéreas nos fazem mergulhar numa poesia, ora tocante, ora artificial, isso se dá especialmente na construção da companheira de William: Agnes, jovem que perdeu a mãe e não se sente devendo obediência nem a sua madrasta, nem a seu namorado ou marido, nem aos sogros, nem a ninguém. Agnes é comprometida com as lembranças de sua própria mãe e seus ensinamentos sobre a natureza, numa força quase de bruxa, numa fragilidade quase de Ofélia...

    William se apaixona por Agnes, mas não pelo cotidiano em família e a rotina doméstica, ele se perde em seus pensamentos, e a toda hora parece sufocado por eles. Agnes o observa, entende que ele precisa de uma forma de transbordar aquela intensidade e incentiva suas buscas.

    Acompanhamos o anseio e produção artísticos de William pela sua ausência. O marido que faz visitas esporádicas e o pai que tenta recuperar o tempo perdido nessas passagens.

    Podemos nos tocar com as diferentes formas de amor apresentadas, as contravenções dessa relação - especialmente para a época, a intimidade de Agnes e a relação com seus filhos, mas tudo com um tom um pouco pueril.

    Mesmo quando há uma tragédia familiar, com a perda de um dos filhos, o melodrama é construído de maneira romanceada.

    Há questões de parentalidade e responsabilidade colocadas, mas sem uma grande profundidade. 

    Porém quando essa situação se torna material para uma das principais obras de Shakespeare, daí vemos a arte de fato transbordar, o luto de William o implica, se mostra dentro dele - seu filho se torna fantasma ou ele é/foi fantasma do filho? Questões sobre vida e morte, presença e ausência, amor e dor se fazem presentes em uma sequência arrebatadora.

    Arrebatadora ao lembrarmos de Shakespeare e arrebatadora também ao vermos o filme: um retrato original de uma verdade romanceada ou uma inédita narrativa verídica...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

All her fault - Megan Gallagher, Kate Dennis, Minkie Spiro

    Série que está sendo bastante comentada nas redes por diferentes motivos e não à toa, ela flerta com questões diversas e em diferentes registros, porém o que poderia enriquecer a narrativa a deixa desencontrada (ou mesmo narrativamente disléxica)...

    All her fault é sobre o desaparecimento de um menino de cinco anos e a busca dos pais por seu paradeiro.

    O primeiro episódio nos captura pelo conflito denso e dramático vivido em maravilhosas atuações (embora aqui também haja desequilíbrio já que as protagonistas femininas são desenvolvidas com bastante tridimensionalidade e as masculinas ou mesmo as femininas coadjuvantes são quase caricatas e com atuações mais rasas). Sarah Snook e Dakota Fanning são os destaques.

    No desenrolar dessa apresentação é colocada também uma questão muito contemporânea e profunda de: onde estão os responsáveis por uma criança? Fica evidenciado na série o desequilíbrio entre a divisão de tarefas, o desafio muito maior que é para as mulheres conciliarem a parentalidade com seus trabalhos. Faz lembrar as tirinhas de Mary Catherine Starr: 

 

    Porém a série segue com um crime a ser desvendado e a partir daí intercala momentos de suspense e de tensão em abordagens ora de thriller ora de melodrama, acrescentando o tema de: até onde podemos chegar para defender nossos filhos e nossa parentalidade? Vale corrompermos nossa própria ética? Vale vivermos mentiras?

    Ao final traz justificativas mirabolantes e que perdem o potencial de falar de questões atuais tão ricas e necessárias, se distancia do drama real, intimista e contemporâneo da parentalidade e se torna um suspense/novela mexicana/Manoel Carlos/Gloria Perez. Tem sua força, sua potencialidade, mas se perde nas chaves em que vai se desenvolvendo.

    Começa dialogando com séries como Expatriadas ou a primorosa Mare of Easttown, segue explorando a trama intimista familiar remetendo a Big little lies, a própria Succession onde Sarah Snook também brilhou, ou a potente The Bear que também traz outro destaque do elenco: Abby Elliott

    Porém acaba por fazer lembrar da narrativa errática de Wanderlust ou Ladrões de drogas que começam com propostas consistentes, mas se perdem no caminho.

    Em All her fault o final tenta amarrar tantas situações e de maneira tão exagerada que beira a inverossimilhança, nem se assume no gênero melodramático da novela como Por amor de Manoel Carlos, por exemplo, em que se assemelha bastante na trama. E tampouco se consolida na proposta mais densa. Na busca por justificativas psicológicas acaba por desresponsabilizar conflitos cotidianos como são os da parentalidade, postos todos os dias em todas as famílias e vividos dramaticamente o tempo todo, em especial pelas mulheres.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Maya, me dê um título (Maya, donne-moi un titre) - Michel Gondry


    Michel Gondry esbanja criatividade em tudo que faz: vídeos musicais ímpares, filmes memoráveis como Brilho eterno de uma mente sem lembranças, já comentado aqui ou mais recentemente séries como a interessante Kidding.

    Mas nem sempre a originalidade de argumentos e o rico apelo visual dão conta de uma narrativa, caso de A espuma dos dias, também comentado aqui e de seu filme mais recente, o infantil Maya, me dê um título.

    A proposta é bastante simpática: Gondry dá vida a ideias de histórias de sua filha, Maya... Ela lhe dá um título e ele desenvolve a história com intervenções dela. O resultado tem momentos divertidos e singelos, mas em geral é simplório. Parece um excelente exercício familiar mas que não fosse Gondry mundialmente famoso talvez não fosse finalizado como um longa-metragem ganhando telas pelo mundo...

    Podemos ter prazer em adentrar aquele ambiente intimista em suas criações e artes, mas suas histórias acabam não envolvendo tanto quanto poderiam.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Foi apenas um acidente - Jafar Panahi

    Jafar Panahi tem se mostrado um cineasta incansável: artista inquieto e criativo, não para sua expressão apenas pela arte, mas para registrar e denunciar o momento político do Irã e que, em contrapartida, geram interesse não apenas como obras de artísticas, mas como documentos históricos.

    Se distanciando de um início mais puro e bucólico como o maravilhoso Balão Branco, Jafar vem se consolidando com seus filmes clandestinos, que ele faz enquanto está preso ou de maneira escondida, com a importante colaboração de parceiros ao redor do mundo. É o caso de Isto não é um filme e Cortinas Fechadas - já comentados aqui e é o caso de seu filme mais recente: Foi apenas um acidente.

    
    O filme traz um homem que reconhece uma autoridade do regime e que o torturou. Ele pensa em se vingar, mas hesita, com dúvida de se tratar realmente de seu torturador. Ele vai em busca de outras pessoas que possam ajudar a confirmar a identidade do homem e acaba reunindo outras pessoas que foram torturadas pelo regime.

    

    O filme, feito clandestinamente, vai trazendo pequenos conflitos dessa trajetória, em registros quase documentais, muitas vezes pendendo para o cômico.

    Mas o que a obra traz de mais especial são seus diálogos, a conversa entre as vítimas sobre as prisões, as torturas e como buscar mudança: é pela vingança? É pelo esquecimento? É pelo perdão?

    O filme não aprofunda muito as questões e muito menos traz as respostas, mas certamente sensibiliza para o tema, nos sensibiliza para suas dimensões históricas, políticas, éticas e também as dimensões psicológicas.

    Singelo, bonito e muito necessário, por isso principalmente que parece atrair tanta simpatia e reconhecimento no mundo todo, conquistando a palma de cannes e concorrendo ao oscar, por exemplo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ainda estou aqui - Walter Salles

    Walter Salles é muito cuidadoso em escolher seus projetos, sempre com grandes obras e personagens como referência e/ou inspiração traz obras consistentes e com grandes equipes, como Terra Estrangeira, Diários de Motocicleta ou Na estrada - já comentado aqui.

    Nem sempre tudo isso garante a obra-prima, mas quando acontece temos a chance de ter um Central do Brasil, por exemplo.

    Ainda estou aqui também conquistou público e critica Brasil e "afora"...

    A história da família Paiva comoveu pessoas ao redor do mundo. Uma família de classe média alta no Rio de Janeiro orbitada ao redor de Rubens, engenheiro, deputado, pai de família, bom amigo, que vê sua vida abalada pelo golpe de 64: perde seu mandato, amigos, estabilidade... Ainda assim segue a vida e se apoia na família: a mulher, os cinco filhos e os tantos amigos e agregados que circulam em sua casa. Uma casa festiva e movimentada, também pelas inquietações e ações clandestinas em que ele se envolve... Mas nada tão radical que parecesse justificar seu fim: o sumiço silencioso dado pelos militares.

    E o drama do filme surge aí, com o desaparecimento de Rubens, quem vive o grande conflito não é ele, mas sua mulher, Eunice. Eunice que o busca incansavelmente e tenta seguir a vida cuidando dos cinco filhos.

    Não é fácil cativar pelo silêncio. Fernanda Torres que dá vida a Eunice não constrói uma personagem carismática e nem guerreira, é na resiliência, na persistência, na constância que estão suas forças. Por isso não envolve todos e não brilha de maneira óbvia. Como ela mesma diz, sua busca é por uma personagem estoica.

    Assim o filme não tem curvas tão intensas, não apresenta arroubos emocionais ou de ação. Sangue e lágrimas, tônicas daqueles tempos, não estão presentes aqui.

    O filme envolve menos como drama, mas nem por isso faz refletir menos, talvez ao contrário. Talvez tenha feito tanto sucesso por permitir ao público se identificar com o cotidiano daquela família, por nos convidar a estar dentro, fazer parte e, assim, viver sua dor, suas dúvidas, sua angústia, sua perda.

     A violência de uma ditadura não está apenas em violências explícitas, mas nas restrições e proibições: nas mentiras, na omissão, na desinformação, na incerteza e tudo isso está muito bem impresso no filme. Forte contribuição para a luta de Eunice: que a história não seja esquecida e que permaneça aqui, hoje e sempre.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Argentina 1985 - Santiago Mitre

    Santiago Mitre já havia se inscrito em temas político, contra injustiças sociais e imerso no ambiente da justiça. Trouxe essas temáticas nos filmes de Pablo Trapero que roteirizou e também em seu longa Paulina, já comentado aqui.


    Em Argentina 1985 Santiago tematiza uma passagem da Argentina do tempo de sua infância, quando a dura ditadura vivida em seu país recebeu um julgamento.

    O filme é bem didático, traz o passo a passo do julgamento e apresenta os principais envolvidos. Talvez pudesse adensar mais as personagens e explorar mais as situações, mas apenas trazer o básico já foi bastante importante.

    Argentina 1985 faz pensar e rememorar. Dá uma aula sobre a importância da revisão história de acontecimentos importantes como um golpe militar, um governo autoritário, sangrento e que ignora leis. Vale em especial para brasileiros que não olharam de frente essa passagem da história, que em sua luta pela anistia dos guerrilheiros contra a ditadura acabou aceitando a anistia ampla, geral e irrestrita. 

    Não nos confrontamos com nossos traumas, adotamos a postura do "deixa disso" (que volta até hoje em novas situações e roupagens), não analisamos nossas posturas, nosso comportamento, nosso desejo, nossa repressão, nossas feridas. Como curá-las então? Não temos vitórias como essa da Argentina, mas temos muito a resgatar e contar. E nosso cinema também nos ajuda em inúmeros exemplos, seja em filmes do início da retomada do cinema brasileiro como Lamarca ou O que é isso companheiro? Filmes dos anos 2000 como Hoje - já comentado aqui. Ou até filmes em que esse é o contexto de fundo como Tatuagem ou Meu nome é Gal - também comentados no blog. Ou ainda nos sucessos recentes como Ainda estou aqui ou Agente Secreto. E que siga em mais produções, para seguirmos a máxima de Freud de "repetir, recordar e elaborar".

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Hacks - Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky


    Hacks caminha já para sua 5a temporada, um sucesso desde sua estreia, com muito público e prêmios. É mais uma série metalinguística sobre a indústria audiovisual, a trama aqui é sobre o desenvolvimento de programas para a comediante Deborah Vance interpretada por Jean Smart, em sua busca por recolocações e tentativas de se manter ou até ascender em seu sucesso, assim conhece a roteirista em início de carreira Ava Daniels, vivida por Hannah Einbinder.

    A série explora muito bem situações do showbusiness, abordando principalmente a construção do humor: a ironia, a acidez, as críticas, o limiar com ofensas, preconceitos, moralismos...

    E o que cativa nessa série nessa construção é a relação entre as protagonistas, que também se criticam, se ofendem, mas aprendem muito uma com a outra. Elas acabam se alimentando em suas trajetórias e vão criando uma afeição cheia de ambiguidades.

    O público transita com elas, entre defesas e ataques, empatias e antipatias, torcidas contra e torcidas pró. Com isso acaba sendo seduzido menos por Hollywood e mais pela intimidade das personagens, por seus aspectos mundanos e cotidianos, não são as produções milionárias, os picos de audiência, os produtos em franquia, os prêmios e reconhecimentos, mas o desejo de amar e ser amada de Deborah e Ava.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Manas - Marianna Brennand

    Estreia na ficção de Mariana Brennand, que já havia feito trabalhos documentais como o filme sobre o seu tio, o importante artista plástico Francisco Brennand (já comentado aqui), Manas também surgiu como um projeto documental.

    Mariana queria investigar a exploração sexual de meninas no norte do país, entretanto se deu conta de que ninguém ali gostaria de falar sobre o assunto e se retraumatizar com a experiência e também seria mais difícil identificar e responsabilizar os criminosos. Assim a ficção lhe pareceu um caminho, e que ela trilhou talentosamente.

    Falar sobre meninas prostituídas poderia ter ficado panfletário ou melodramático demais, mas ela soube dosar: construiu uma personagem densa, com ambiguidades não apenas entre o ser menina e ser mulher, mas entre a ignorância e o desejar, o querer ser desejada e estar longe do desejo. Ela não é colocada como inocente, tem a complexidade de quem entende algo, mas não entende tudo, em que tem interesses, mas onde é vítima.


    O casting para esse trabalho também foi muito bem feito, a menina escolhida para protagonista nos cativa em suas ações e principalmente em seus silêncios. Seu olhar sempre parece dizer muito, mas não nos revela muito sobre o que.

    São lacunas que compõe o filme, que lhe dão forma e que ornam com o ambiente amazônico em que se passa a trama.

    A beleza está lá e assim a corrupção dessa beleza se torna ainda mais ameaçadora.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Dez por cento (Dix pour cent) - Fanny Herrero

    Tantas séries ganharam versões em diferentes países, essa é uma que merecia muitas versões locais!
    Afinal é muito interessante ter uma narrativa sobre o processo de produção de obras audiovisuais, mas com os atores reais não apenas como elenco, mas como trama, apresentados como caricaturas deles mesmos. Uma ideia genial, feita aqui com maestria: drama, humor, ritmo, sensibilidade, tudo em boa medida.


    São três temporadas curtas cuja espinha dorsal são as personagens "anônimas", os trabalhadores de  uma agência de atores que lutam por seu lucro de "dez por cento" sobre os ganhos dos atores famosos. Assim vemos o cotidiano de disputa entre agências e agentes diante de cada artista, disputas por bons trabalhos, pelo sucesso em convites e audições, pelas boas negociações, os conflitos entre propostas, ideais e buscas pessoais dos atores, etc.

    Mas o charme está em, a cada episódio, ter uma grande estrela convidada que é explorada em suas características: atrizes que querem ser levadas a sério a partir de seus papéis, atrizes que querem ser bem representadas, que têm que enfrentar o envelhecimento ou a solidão, que têm que superar a marca de certos papéis... Ou ainda episódios em que se exageram características reais das personagens, como o modo obsessivo-workaholic de Isabelle Hupert, ou a dificuldade diante da pecha de símbolo sexual de Mônica Belucci.

    A série nos traga para sua trama, mas também ecoa todo imaginário que temos com artistas como Cécile de France, Charlotte Gainsbourg, Jean Reno, Juliette Binoche, Sigourney Weaver na fértil cinematografia francesa e além.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Estúdio (The Studio) - Evan Goldberg, Alex Gregory e Peter Huyck


    Uma série leve e divertida, apesar da complexidade e excentricidade do cotidiano apresentado: bastidores de Hollywood.
    A primeira temporada conta com 10 episódios que apresentam dilemas internos da indústria audiovisual, por exemplo na  questão da busca de sucessos pessoais num ambiente muito marcado pela vaidade e pelo ego, onde ter reconhecimento, bajular pessoas reconhecidas e temer se indispor com elas, almejar prêmios etc é o dia-a-dia. Com esses conflitos temos uma grande trama sendo desenvolvida, com as personagens fixas tentando crescer e se dar bem.

    Também temos em praticamente todos episódios o conflito entre a busca artística e a busca de lucros, assim incluir ou não merchandising, aceitar ou recusar filmagens mais demoradas e custosas, são exemplos de temas de episódios.

    A série traz ainda a dificuldade entre se manter em narrativas de temáticas atuais e o cuidado com polêmicas, como o desafio de ser politicamente correto e ainda assim poder apresentar conflitos e dramas.

    Para quem gosta de comédia há muitas cenas parar rir e se divertir, para quem quer adentrar na metalinguagem dos filmes, séries e showbusiness há muitas cenas para dialogar, já para quem quer drama as cenas não se adensam muito e não aprofundam suas temáticas, ficam mais na curiosidade de bastidores e nos exageros das piadas.

sábado, 13 de setembro de 2025

Ritas - Oswaldo Santana e Karen Harley

    Os conhecidos montadores do audiovisual brasileiro, Oswaldo Santana responsável por obras como Tropicália e Bruna Surfistinha e Karen Harley responsável por Viajo porque preciso, volto porque te amo e Que horas ela volta? (já comentados aqui no blog) se uniram em um projeto especial. 

    A dupla comprou os direitos da autobiografia de Rita Lee em 2018 e começaram a trabalhar na narrativa da vida da artista, tanto fazendo uma longa entrevista - a última dada por ela, quanto pesquisa de material de arquivo.     

    Entre os materiais também a produção própria de Rita com vídeos feitos por ela em sua casa, ressaltando o humor e autenticidade dela, mas também apresentando o lado sereno e íntimo.

    Algumas frentes de trabalho e muito material em ebulição, a potência e versatilidade de Rita Lee foi transbordando e dando corpo ao documentário, inclusive definindo o título que traz a multiplicidade da artista, o documentário não traz apenas uma Rita, mas Ritas.

    Há a Rita filha de classe média alta paulistana; há a Rita adolescente roqueira rebelde; há a Rita que integrou o Mutantes, alcançou o sucesso, dialogou musicalmente com a efervescência artística dos anos 60 e 70 no Brasil; há a Rita expulsa dos Mutantes numa situação que revela muito sobre ela e sobre a banda, dando um contraponto da versão de Arnaldo Batista, apresentada no documentário Loki - já comentado aqui; há a Rita que se reinventou numa carreira solo; a Rita que encontrou um grande amor e intenso parceiro de vida e de arte, Roberto de Carvalho; a Rita do sexo, das drogas e do rock; a Rita da maturidade, do envelhecimento, mãe e avó...

    Com uma personagem tão rica e encantadora já havia muito potencial para seduzir o público, mas a costura dessa "geléia geral" com belas animações e trilha muito bem pontuada e utilizada valorizam ainda mais a narrativa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Meu nome é Gal - Dandara Ferreira e Lô Politi

     A onda das cinebiografias musicais é paradoxal: nos enchem de expectativas difíceis de se cumprir por um lado, mas, por outro, ao escutar os grandes sucessos dos artistas, temos nosso deleite garantido...

    Não poderia ser diferente com um filme sobre Gal Costa.

    Aquém da artista e da obra, as diretoras Dandara Ferreira e Lô Politi acertam na narrativa enxuta e intimista, se focam no início da carreira artística de Gal, quando ela ainda era Gracinha, para então se tornar Gal Costa.

    O filme é sobre esse despertar, com uma Gal engatinhante, assustada, experimental.

    Sophie Charlote dá vida a essa busca com encanto e simpatia, da moça tímida mas corajosa, que larga sua cidade para encontrar os amigos músicos e parceiros. A Gal Costa que tenta agarrar oportunidades de mostrar seu talento para interpretar bossa nova, mas que começa a se destacar no movimento que ali se inicia da Tropicalia, até se mostrar consolidada por todo seu talento.

    Eram tempos quentes, de luta entre a ditadura e os movimentos de resistência e guerrilha comunista e de efervescência de posicionamentos frente a esse cenário.

    As artes em especial borbulhavam e a MPB se mostrava especialmente fértil.

    Meu nome é Gal pode não borbulhar, mas provoca a emoção e nostalgia do tempo e dos artistas especiais que retrata.

    Um filme sem arroubos, mas para se curtir e se colocar na vitrola sem medo...



sábado, 6 de setembro de 2025

A reserva (Reservatet) - Ingeborg Topsøe



    A reserva de Ingeborg Topsøe é uma minissérie de seis episódios sobre o desaparecimento de uma jovem babá filipina na Dinamarca.

    A série é muito bem feita: boa fotografia, direção de arte interessante, som instigante e boa direção de atores. 

    Há personagens e núcleos bem definidos: os milionários x seus funcionários, os egoístas x os solidários, os adultos x as crianças.

    A série faz de um suspense clássico mais uma oportunidade para se discutir a adolescência: quem são esses novos jovens que vivem um mundo paralelo no universo digital?
    E aqui com a peculiaridade da convivência com babás vindas de outra cultura e nessa relação complexa de alguém que para as crianças merecem um afeto familiar, mas que, ao mesmo tempo, não pertencem ao seu mundo.

    Faz lembrar o filme Que horas ela volta? mas também séries mais recentes como Adolescência e Expatriadas.

    Sem propor grandes arroubos, mas muito bem construída e costurada, envolve e instiga.

Longe deste insensato mundo (Far from the Madding Crowd) - Thomas Vinterberg

    Thomas Vinterberg é um dos mentores do Dogma 95 e diretor do filme ícone Festa de família. Também autor de outros filmes profundos e intimistas, como Submarino e A caça, já comentados aqui. Porém Vinterberg é um cineasta versátil e com Longe deste insensato mundo mostra um lado mais clássico seu.

    Vinterberg se baseia no romance do inglês do século XIX Thomas Hardy e traz uma Inglaterra vitoriana. 

    Bathsheba é uma jovem não convencional, estudada e sem pretensões de seguir o destino padrão de casar e constituir família. Assim ela recusa pretendentes e foca sua vida em fazer prosperar a fazenda que herda. 

    São muitas frentes que o filme apresenta, mas acaba não aprofundando nenhum tema. Em seu panorama rasante, acaba realmente raso e pouco convincente. 


    Traz uma protagonista doce, vivida por Carey Mullingan para um papel de muita personalidade e traz pretendentes leais, mas tampouco vemos o que os faz manter tão conectados à heroína.

    Acompanhamos o filme que é muito bem feito com dedicação, mas sem empolgação - bem diferente de outras experiências vinterbergianas!


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Uma bela vida (Le Dernier souffle) - Costa-Gravas

    Costa-Gravas é um diretor de seu tempo e de sua história, após filmes com temáticas políticas - alguns já comentados aqui, chega aos 92 anos falando sobre o fim da vida.




    Em Uma bela vida ele traz o filósofo Denis Podalydès às voltas com sua própria saúde e se aproximado do médico Kad Merad, que se especializou em cuidados paliativos. Assim ele tenta entender de que se trata essa especialidade e como funciona seu trabalho.

    E, assim também, Denis se aproxima de diversas pessoas que estão próximas ao seus fins e que querem decidir como viver esse momento: acompanhados, sozinhos, de maneira mais cética, mais religiosa, festivas, introspectivas etc.

    Com cada decisão prática tomada podemos ver as repercussões filosóficas e existenciais.

    Um filme simples, com uma forma despretenciosa, sem grandes cenas e amarrações, mas funcionando como uma boa janela narrativa para essa discussão e reflexão.

    Em tempos de envelhecimento da sociedade e de avanços na medicina, é muito interessante provocar o debate e mantê-lo vivo e em aberto.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Vitória - Andrucha Waddington

    Baseado em fatos reais, Vitória conta a história de uma senhora que foi testemunha ocular do crescimento e banalização do crime no Rio de Janeiro. O tráfico sendo comercializado à luz do dia, indiscriminadamente.

    Indiscriminadamente, palavra que resume um tanto a situação, parece ter o crime em seu centro, mas de forma disfarçada, negada, sem ordem ou controle... Mas pior, um controle pulverizado, de todos que tentam se beneficiar de sua propriedade.

    A denúncia da senhora motivada pela sua busca de sossego e normalidade, de uma vida que não precise ser interrompida por tiroteios a todo momento, mas que vai de desenrolando em uma denúncia muito maior, envolvendo uma rede de tráfico, de policiais, de políticos... O estado atual do crime organizado.

    Alguém da sociedade civil não pareceria ter voz para se levantar contra nada disso, mas acontece. E apenas alguém muito autêntica, como é o caso de Dona Antônia, vivida bravamente por Fernanda Montenegro.

    Fernanda é uma atriz ícone, não há dúvida de sua grandiosidade, mas é lindo vê-la brilhar. Aqui, nos holofotes sombrios das tomadas sem muita luz, dos gestos que se veem eloquentes num virar de olhos, na respiração mais tensa, no colar de cacos da xícara e da vida da personagem... 

(Faz lembrar da Fernanda Montenegro que separava feijões com Gianfrancesco Guarnieri em Eles não usam black-tie de Leon Hirszman, em 1981).

    Vitória dá destaque à história, às personagens, às intimidades envolvidas pelos morros cariocas. Toda sua direção é econômica mas muito precisa e aí está sua força, o filme não se perde em acrobacias narrativas ou de cena, nada é gratuito, tudo se encaixa e se amarra, apenas no desencadear de fatos, sem malabarismos.

    E assim o filme fica íntimo, mas potente, não apenas com a protagonista mas com todo o elenco, não apenas no clímax e em cenas de ação ou reviravoltas, mas também no cotidiano, nas reuniões de condomínio, nas amizade com um dos meninos que vive a vulnerabilidade da vida no morro, vivido por Thawan Lucas, ou com uma mulher trans que busca alternativas para uma vida digna e segura, vivida por Linn da Quebrada, ou ainda na parceria fundamental com o jornalista que assegura sua vida e sua história, vivido por Alan Rocha.

    Belo trabalho de Andrucha Waddington.



segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Marte um - Gabriel Martins

Um retrato da complexa simplicidade do dia a dia. Ou da simples complexidade?
Um filme das individualidades dentro de um coletivo ou do coletivo que se reflete em cada individualidade?
Uma narrativa sobre o prosaico do cotidiano ou sobre o imensurável terror dos pesadelos e brilho dos sonhos?

Marte um parece tudo isso. E muito mais.


Despretensioso, mas de uma profundidade ímpar.

Em seu encadear quase desconexo chega em um dos resultados mais coesos e tocantes do cinema brasileiro recente.

Marte um é o sonho de um menino, mas é também o contraponto do sonho de um pai, tem a cumplicidade dos sonhos da irmã e a redenção das aflições da mãe. Marte um fala de desejos e imaginários, mas apresentados através de um cotidiano extremamente concreto.

Tem as notícias de TV, nosso presente político, os programas de sucesso, a ética e a estética vivida, as possibilidades postas, as pautas de costume, as contraposições das minorias (diferenças de classe, aceitações e ressentimentos, lutas de acesso, quebras de barreiras e preconceitos, modas, sexualidades, paixões - inclusive a "nacional", culturas, vícios, perdições, religiões, amizades, família).

Tem uma boa construção de ambientes e momentos primorosos do elenco.

Tem drama, tem humor, tem realismo, tem poesia.

Tem um índice de questões psicanalíticas postas: enfrentamento aos pais, narcisismos, pulsões de vida e morte, ninhos vazios, angústias, amores.

Tem tudo isso e sem ser didático. Um filme singelo e afetuoso.

Pode causar estranhamento, demorar a aquecer, mas a emoção com certeza chega, quiçá até arrebatando!

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Elvis - Baz Luhrmann


Que história genial a de Elvis.

Ícone pop, cantor fenomenal, somado a uma performance sexy e chocante, mas com potencial para muito mais...

Sua entrada na música por influência não só da música country local mas também pela cultura negra em plena ascensão do rhythm and blues, poderiam resultar em algo ainda mais criativo, irreverente e arrebatador.

Acabou sendo "apenas" um ídolo de multidões e um dos principais nomes do início do rock. 

Seu potencial foi corrompido, a figura frágil, o rapaz vulnerável que acabou susceptível a influências familiares, à ganância de seu produtor Tom Parker e à sedução e apelo das drogas.

As personagens estavam todas colocadas: o mocinho, o bandido, os coadjuvantes e o cenário efervescente do choque cultural e da música dos anos 50, 60 e 70. 

O filme traz tudo isso e ainda tenta modernizar mais uma linguagem que por si só já seria eletrizante. Mas o que seria de Baz Luhrmann sem querer brilhar ainda mais do que todas as lantejoulas de Elvis?

E deu certo. Com sua linguagem frenética, captando o ritmo tiktok da atualidade, alcançou um grande público.

Porém, para um público desejoso de adentrar e se emocionar com a história de Elvis, fica faltando espaço (e tempo) para envolvimentos. 

A imagem não para nem por um segundo na tela: são cortes, movimentos de câmera, movimentação de atores, efeitos, sons, narração... O filme é uma metralhadora audiovisual. 

Não dá tempo para respirar e, portanto, falta fôlego para os possíveis momentos de arrebatamento.

Tanto da história pessoal e familiar, quanto pela contemplação de sua arte.

Ao contrário de outros filmes musicais como Bohemian Rhapsody ou Rocketman não dá pra dar "play" no filme como em um disco de melhores músicas. Talvez como um clipe de melhores momentos das melhores músicas (com duração de 2h40).

O filme acaba "faltando", dado tantos excessos...

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Pureza - Renato Barbieri

Personagem incrível, típica pessoa que ao ouvir a história falaríamos: "daria um filme". E deu.

Tema atual e extremamente importante: trabalhos análogos à escravidão, exploração, desigualdade social, concentração de terras, favorecimentos políticos...

Na contramão: uma mãe em busca do paradeiro de seu filho, se infiltrando numa fazenda e se aproximando dos "inimigos" pela esperança do reencontro.

Trama muito boa e construída equilibradamente. Atuação de Dira Paes à altura da personagem. 

Talvez pudesse ter um trabalho a mais em alguns diálogos, que às vezes parecem esquemáticos demais (como nas cenas em Brasília), o mesmo nas interpretações.

Mas essas "impurezas" não comprometem a experiência emocionante do filme.

Filme necessário para os dias de hoje no Brasil. Pela luta e pela esperança.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Tudo em todo lugar ao mesmo tempo (Everything Everywhere All at Once ) - Dan Kwan & Daniel Scheinert

Filme bastante interessante, com uma premissa atual, distopia abordando o ser e estar contemporâneo: real X irreal ou virtual e a maneira como entram os afetos dentre tantas outras demandas em nossas vidas.

Pode-se pensar numa mistura de Matrix com linguagem tarantinesca, ou mesmo em aspectos filosóficos de Michel Gondry e narrativas como Brilho eterno de uma mente sem lembrança ou mesmo a série Kidding e certamente com muitas outras referências pop das quais muitas me escapam.

Porém onde está o grande potencial do filme é também onde há uma dispersão: são tantas referências, tanta colagem, tantas linguagens que o filme se excede.

Fica cansativo e não apenas por seus 140 minutos, mas também pelo ritmo frenético e pelo excesso de tudo. Ainda mais sem que haja uma base forte para a costura. Não há personagens tão densos para nos identificarmos e que ancorem tantas cenas de disputa, luta, transições de tempo e espaço.

Vira um espetáculo desse frenesi. Talvez de muito sucesso para um certo público, mas menos universal do que poderia.