segunda-feira, 30 de março de 2026

Um dia (One day) - Nicole Taylor

    Baseada no best seller de David Nicholls, a série Um dia traz o encontro de dois jovens através dos anos. Cada episódio apresenta um dos anos na vida de Emma e Dexter. Daquelas comédias românticas em que o encontro improvável revela a cada um a possibilidade de um outro jeito de ser: ela mais estudiosa, dedicada e introvertida e ele popular, confiante, entusiasmado, sedutor.

    Eles começam a interagir no fim da faculdade e depois vão se acompanhando na busca por trabalhos, relacionamentos e perspectivas da vida adulta. Apesar das diferenças mantem o encantamento um pelo outro, oscilando e flertando entre a amizade e a paixão.

A série é bem construída, conta com elenco carismático e ritmo envolvente, pode atrair corações adolescentes de todas as idades pois, apesar de em alguns momentos ficar mais pueril e previsível, há momentos de profundidade e surpresa.

sexta-feira, 27 de março de 2026

O filho de mil homens - Daniel Rezende

     Daniel Rezende ficou conhecido pela montagem de Cidade de Deus de Fernando Meirelles, em seguida assinou outras grandes produções como Tropa de elite de José Padilha, já comentado aqui. Só depois se aventurou pela direção, em curtas, séries e depois longas, como Bingo e agora o ambicioso Filho de mil homens.

  
Daniel parte da obra-prima de Valter Hugo Mãe, um livro que capítulo a capítulo adentra a vida de personagens solitárias, isoladas, problemáticas, que vemos sofrerem uma rejeição da sociedade e a descoberta de um jeito diferente de viver. 

Aos poucos o que parece ser um livro de contos se torna um romance profundo, poético, inebriante. As emoções contidas em cada um começam a se espalhar e se potencializar em conjunto, levando a um cruzamento arrebatador. 

    Mas como traduzir audiovisualmente uma beleza que é tão etérea? Que vem de reflexões e sensações? 

    Talvez numa adaptação mais sóbria, mais afeita aos fatos em que o espectador que tem a missão de preencher lacunas e poesias, como em A hora da estrela, adaptação de Suzana Amaral para a obra de Clarice Lispector? Ou se apoiar na sinestesia de sons e imagens mas apenas para buscar a tradução de sensações, como fez o parceiro/mentor de Daniel, o cineasta Fernando Meirelles, com a obra de José Saramago na adaptação de Ensaio sobre a cegueira?


    Porém Daniel quis ir além, ele parece ter sublinhado tudo que achou de mágico e encantador no livro e assim se tornou didático e pueril. Os brilhos e colorações que traz para as imagens ficam infantis e mesmo a interpretação de personagens autênticas demais, chega em um exotismo teatral que não favorece a construção delas. Faz lembrar a adaptação de Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marques feita por Laura Mora e Alex García López para uma série televisiva e que também se distanciam da profundidade da obra de origem. Fiquemos com as imagens criadas em nosso imaginário para obras tão potentes e inesquecíveis.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Tremembé - Vera Egito / Ullisses Campbell

    Tremembé foi uma das séries brasileiras recentes de maior sucesso. Inspirada na pesquisa e livro de Ullisses Campbell, chama a atenção pela qualidade técnica: bem produzida, dirigida e com ritmo - mérito de roteiro e montagem. 
    O casting é um capítulo à parte: atores carismáticos, impactantes e de acordo com suas personagens. Seja em interpretações de maior densidade dramática ou aquelas em que incorporam mais um tipo, a maioria do elenco parece muito adequada em seu papel e contribuindo na potência da trama.
    Tudo confluindo então para um grande envolvimento do espectador e uma maratonagem dos seis episódios.

    Entretanto, justamente aquilo que mais atraiu o público é o que parece o mais problemático: por que contar essa história, por que o interesse por essas personagens? Por que adentrar um presídio com pessoas que cometeram crimes conhecidos e de ampla cobertura midiática? Por que seguir fazendo isso e buscar mais histórias para outras temporadas?
    A resposta leva ao subtítulo da série: A prisão dos famosos, e parece destacar dois problemas: primeiro que, ao escolher essas pessoas há um recorte político. Narrar com densidade e tridimensionalidade a história de criminosos é muito importante, já que ninguém é 100% vilão e fugir de maniqueísmos parece sempre saudável. Mas aqui há realmente exemplos complexos de psicopatias graves. Além disso, a escolha de humanizar e glamourizar essas pessoas num universo de um Brasil com tantos exemplos, em especial no sistema prisional, de figuras injustiçadas, mártires demonizados com tantas chacinas comemoradas país afora e sem que a série aprofunde questões de gênero, raça e classe, vira uma escolha estética e ética frágil.
    O segundo é a provocação da curiosidade das pessoas pela tragédia alheia, com elas se comovendo sem estarem diretamente implicadas, num interesse que beira a morbidade, como o desejo de olhar um acidente de trânsito, de se fixar em capas de Notícias Populares, de consumir tragédias em Aqui agora, Programa do Ratinho e similares sensacionalistas... Há até um entretenimento histórico, de ir lembrando sobre os crimes tão divulgados na época de seus acontecimentos e conhecer os desdobramentos, nem sempre tão difundidos. 
    Não que as obras audiovisuais precisem trazer um discurso ideológico denso, claro que é possível produtos apenas de entretenimento, mas explorar essa curiosidade despertada em um tempo em que se relaciona com o outro para se comparar, para viver com eles o que não vivemos nós mesmos, consumindo revistas de fofocas, reality shows, redes sociais de influenciadores e Tremembé... Há que se questionar...

segunda-feira, 23 de março de 2026

Cara de um, focinho de outro (Hoppers) - Daniel Chong

    A Pixar sempre traz animações de excelência técnica, boas personagens e ótimas sacadas de humor. Cara de um, focinho de outro não foge a essa regra.

    Aqui a protagonista é Mabel, uma menina que cresce defendendo os animais, para que eles possam viver em seus habitats naturais, até o ponto de se opor às buscas de "modernização" da cidade feitas pelo prefeito. O charme do filme é ela fazer essa defesa ao lado dos bichos, participando de um experimento científico que a faz adentrar um corpo de um castor e interagindo como se fosse um deles.

    Diferente de filmes que apresentam o mundo dos animais de maneira mais endêmica, como Vida de inseto, Formiguinhaz ou Flow; diferente também de filmes que tentam "humanizar" o mundo dos animais, reproduzindo os mesmos afetos e o mesmo sistema em que vivemos, como os recentes Um cabra bom de bola - comentado aqui, Zootopia ou o já clássico Procurando Nemo, Cara de um, focinho de outro começa mostrando as relações próprias do mundo animal, mas é aí que há um problema.

    Como em tentativas como Madagascar ou Os sem floresta há um conflito em mostrar "as leis da selva" e a cadeia alimentar sem acusá-la de "selvagem", e, ao acusá-la de selvagem que alternativas são dadas?

    Em Madagascar ou os animais vivem ou num zoológico numa vida artificial e limitada ou os bichos correm o risco de deixar de ser amigos, já que vão ter que se enfrentar para sobreviver. Em Os sem floresta eles desistem da floresta e se adaptam à vida de ultraprocessados para se alimentar, por exemplo. Mas são essas reais soluções?

    Aqui os animais começam revelando a Mabel que os bichos podem se comer para sobreviver, mas depois é defendida uma harmonia que nem sempre está de acordo com os instintos animais.

    Além disso a vilania muda de lugar, primeiro no prefeito vaidoso e ganancioso, mas que Mapel consegue conscientizar, aí a harmonia passa a ser ameaçada então por um inseto que quer se vingar por todas as vezes em que semelhantes foram esmagados.

    Os esmagamentos não são postos como a "lei das selvas". E a real selvageria de se destruir meios-ambientes para espaços otimizados para carros é colocada como uma questão pontual que o filme resolve em um final feliz. 

    A discussão sistêmica que urge, sobre por que se tenta subjugar outras espécies e a que ponto estamos colapsando o planeta numa busca infinita de fartura e comodidade (isso sem dizer para quem está indo essa riqueza e conforto) fica de fora.

Neste sentido é mais bonita a passagem da Era do gelo quando homens, mamutes e tigres se enfrentam cada um com seu interesse, mas que ao precisarem se deparar com a perda do outro chegam a um desenlace de desculpas e reconhecimentos. Apesar da convivência utópica entre todas as espécies, a mensagem afetiva de onde o medo de um que faz atacar o outro e gerar vinganças num ciclo de dores e perdas que levam a uma reconciliação fica genuína e bonita no filme de Carlos Saldanha.

    Filmes infantis não precisam nem devem ser aulas políticas, mas a reflexão poderia ir além, claro que em tempos bélicos e de intolerância, é esperar demais de um filme mainstream norte-americano, fiquemos então com o encanto e diversão que ele proporciona!

domingo, 22 de março de 2026

Bugonia - Yorgos Lanthimos

    O grego Yorgos Lanthimos é um nome forte da cinematografia atual, sempre muito criativo e impactante tem conquistado terreno mundo afora.

    Ele começou a ganhar destaque com o potente e intimista Dente Canino, já comentado aqui e há uns dez anos vem filmando com estrelas americanas e ampliando seu público.

    Com Pobres criaturas veio o maior impacto, trazendo aos filmes uma abordagem mais fantástica, fazendo lembrar inclusive o Ladrão de Sonhos de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. O filme fez sucesso entre público e crítica e mesmo sendo controverso conquistou prêmios de Veneza à Hollywood.

Em Bugonia Lanthimos repete a escalação de um elenco talentoso com Emma Stone e Jesse Plemons que trazem força e estranheza à narrativa.

    Um jovem traumatizado que já não confia no mundo, mas em teorias da conspiração, sequestrando uma importante empresária, que ele desconfia ser uma alienígena. 

    O conflito é simples, mas os diálogos beirando o nonsense são ricos e instigantes, nos fazendo pensar no absurdo de ganâncias e negacionismos a que chegamos - nesse ponto lembra inclusive o filme Não olhe para cima, de Adam McKay.

    Também são divertidas as referências a outros filmes, como ET de Steven Spielberg, nas cenas de bicicleta, que são mais realistas e se cruzam com uma estética entre o tosco fantasioso e a ficção científica.

O que mais assombra no filme é justamente o tanto de realidade que tem na fantasia, o irreal se aproxima muito do horror que vivemos, da desumanidade como se tratam os seres humanos.

 A fragilidade e violência que nos cerca em Bugonia, diferente da indigestão de Sirat, recentemente comentado aqui, nos chega com acidez e ironia.

terça-feira, 17 de março de 2026

Sirat - Oliver Laxe

     Raros os filmes que se pautem mais em ideias e sinestesias do que em narrativas, é possível pensar em filmes líricos como a adaptação para Estorvo de Ruy Guerra, ou pensar em experiências filosóficas e metafísicas como os filmes de Júlio Bressane, Tarkovski ou Béla Tarr - já comentados aqui. E, agora, em um tempo tão árido e apocalíptico, Sirat de Oliver Laxe chega perturbando, explodindo, arrebatando.

    O ponto de partida do pai espanhol buscando uma filha perdida em alguma rave no Marrocos é um fio condutor que nos insere no universo de raves alternativas, em que vemos figuras gauche, deslocadas de uma sociedade convencional criando um mundo paralelo.

    O pai e o filho caçula aparecem destoando de jovens drogados, mas vão tendo entrada para aqueles que recebem os folhetos com fotos da filha perdida, e assim começam algumas conexões.

    Depois, algumas cenas de uma guerra que se inicia vai aproximando pessoas que vão se tornando de fato uma comunidade, grupo de páreas, radicais, mutilados, animais, sem laços que não aqueles... Não se fala de nenhuma outra família, de nenhum outro trabalho... A missão deles é se conectar com a música, com a paisagem, com a mistura de nacionalidades, culturas e línguas que aquelas pessoas representam.

    E a conexão do espectador também fica com eles, com o estranhamento da música eletrônica e quase inumana, tomadas da paisagem que parecem arte abstrata em movimento e os afetos que surgem como oásis nesse deserto, flores nos cactos, mas às quais não se pode apegar, porque o mundo apresentado é bruto e por isso mesmo extremamente frágil. Não a fragilidade de pétalas, mas de espinhos, de estilhaços.

    O mundo está a ponto de explodir, tal qual o fora das telas e quem seremos nós nessa história?

    Não há redenção, não há final feliz, é o tempo de mal estar, físico, sinestésico, filosófico e metafísico. O que fazemos com o filme? Saímos no meio? Sustentamos até o final? Sorrimos? Choramos? Dançamos junto? Gritamos? Urramos?

    O que faremos de nós? O que faremos do mundo? Como será nossa Sirat? (que significa uma travessia e no islamismo vem com as imagens de ser "uma ponte que atravessa o abismo do inferno em direção ao paraíso e é mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada").

sábado, 14 de março de 2026

Pssica - Stephanie Degreas, Fernando Garrido, Bráulio Mantovani

    


Inspirada no livro de Edyr Augusto, Pssica traz uma temática muito urgente e atual: a violência e predação contra mulher. 


Além da trama principal que retrata o tráfico sexual de meninas no norte do país, há também o bulliying de meninos contra meninas, a divulgação de vídeos não consentidos, o conflito entre sexualidade e religião, o assédio de homens contra meninas, o uso de drogas, a prostituição...

A série traz a crueza do tema em um ritmo envolvente, não há a densidade de Manas, já comentado aqui, mas há potencial para conquistar o público e amplificar a denúncia.

    Com um ótimo elenco, encabeçado pela protagonista Janalice, vivida por Domithila Cattete, que traz o misto de etnias em suas feições, e um rosto e corpo de adolescente em que ora vemos a menina que precisa de proteção e ora vemos a mulher decidida e forte que poderá se tornar.

    Ela começa tendo que lidar com o namorado que a trai divulgando imagens íntimas, depois tendo que lidar com a família que a condena, com outra parte da família que se resigna em aceitá-la, mas sem muito afeto e dedicação e ainda por cima com o risco de abuso. A partir daí ela se vê à própria sorte e busca suas próprias relações.

      Janalice consegue fazer amizades, mas com outras pessoas também vulneráveis, que a vulnerabilizam mais e assim acaba capturada por traficantes sexuais que a leva para outro país para ser prostituída.

    Essa trama envolve criminosos e políticos, de maneira bem realista, em especial em tempos de revelações de arquivos Epstein e denúncias de milhares de feminicídios e Janalice vai se tornando uma real heroína.

    Temas sérios mas que são trabalhados como trama de ação policial, talvez com excesso de movimentações, cores e sons e passagens muito rápidas e que nos dificultam assimilarmos.

Como uma paixão muito repentina de Preá por Janalice por exemplo.  

Ou em conflitos densos como o arrependimento do pai de Janalice pela maneira como age com ela, uma mudança bonita e profunda, mas que poderia ser mais explorada.

 Ainda assim o resultado é ótimo e vale ser visitado!

quinta-feira, 12 de março de 2026

Dias perfeitos - Joana Jabace / Raphael Montes

Raphael Montes tem feito muito sucesso com seus romances policiais: tramas envolventes e personagens sedutores que nos levam a adentrar o ritmo da narrativa. E histórias que, em geral, funcionam muito em adaptações, pois já são bastante audiovisuais.

    Por isso a ideia da adaptação feita por Joana Jabace para uma minisserie funcionou muito bem com Dias perfeitos.

    A série nos convida a conhecer as personagens, o casting carismático, principalmente na protagonista Clarice, vivida por Julia Dalavia, mas também na sinistra e ambivalente Patrícia, mãe do vilão, vivida por Débora Bloch.


Talvez na tentativa de seduzir demais a trama pese em cenas mais apelativas (ou de romance ou de violência), se apoie em um vilão caricatural, o jovem Téo, vivido por Jaffar Bambirra, e não aprofunde tanto aspectos psicológicos, mas para um produto menos denso e mais ligeiro agrada.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Eu e meu avô Nihonjin - Célia Catunda

     Célia Catunda tem participado de importantes animações brasileiras como as séries Show da Luna, Peixonauta, Tarsilinha... Sua produtora tem quase 40 anos e com isso um histórico de muita garra, talento e persistência para seguir trabalhando com audiovisual e num segmento que quando não há uma indústria por trás é de um artesanato muito laborioso!

    Seu trabalho mais recente, o longa Eu e meu avô Nihonjin dos roteiristas Oscar Nakasato e Rita Catunda mostra essas qualidades. A partir de uma história singela: um menino que quer conhecer suas origens, ele precisa ouvir as histórias de seu avô e remontar seu passado familiar.

    A estrutura narrativa é extremamente simples: uma lição de casa como ponto de partida e encontros com o avô que vão contando pouco a pouco sobre a vinda dos antepassados do Japão para o Brasil, as dificuldades do início da instalação da família, a adaptação...

    Há um didatismo na narração: tanto nos aspectos históricos quanto nos aspectos emocionais: há personagens muito bem delineadas que mostram os conflitos, a chegada sem dinheiro e vida em servidão, o compartilhar com outros imigrantes sem entender a língua, o respeito aos valores de origem e a abertura a outras culturas, o posicionamento durante a 2a Guerra, os preconceitos sofridos, o desafio entre se instalar num país e fazer valer seu conhecimento de nação... Contrastes culturais, medos e conquistas típicos de imigrantes e que tipicamente provocam conflitos dentro da própria família, entre aqueles que reforçam ainda mais as origens e aqueles que tentam esquecer para se adaptar melhor. 

 

Afetos básicos e complexos ao mesmo tempo, que construídos em ritmo lento e suave contribui no didatismo da narrativa, e que, somados aos belos traços da animação podem cativar o público infantil.


sexta-feira, 6 de março de 2026

Oppenheimer - Christopher Nolan

     Christopher Nolan muda do universo de fantasia e ficção científica onde tem mais experiência (de filmes como Batman Begins e Interestelar - já comentado aqui) e traz uma história verídica, do desenvolvimento da bomba atômica americana pelo físico Robert Oppenheimer. Entretanto aproveita sua habilidade com narrativas épicas e super-personagens para construir a trama.

    A história de Oppenheimer realmente tem múltiplos vieses, relações e implicações, envolve relações pessoais, egos do mundo acadêmico e muitas questões políticas. Um mundo masculino, competitivo e bélico, que Oppenheimer oscila a quanto adentrar.

    E para desenvolver essa história complexa Nolan faz uma narrativa à altura: muitas personagens, vozes e tempos, tudo se somando e se cruzando. O resultado é confuso e árido, nos aproxima menos das questões filosóficas e existenciais do cientista e mais da arquitetura política, de interesse e disputa de poder.

    É um filme bastante atual, mas que deixa de lado o que poderia ser um antídoto para os nossos tempos, fosse o foco mais sobre os questionamentos da aplicação e extensão do uso da energia nuclear poderia nos envolver e sensibilizar mais e nos aproximar menos desses anos 20 com tantas guerras.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Uma batalha após a outra (One batle after another) - Paul Thomas Anderson

     O jovem promissor de diversos vídeos musicais e filmes como Boogie Nights, Magnólia e Punch-Drunk love, vem ganhando experiência e maturidade, seja em filmes como O Mestre - já comentado aqui - ou no mais recente e de grande repercussão Uma batalha após a outra.

    Antes interessado em personagens "gauche" para desenvolver o que poderia haver por trás delas, construir relações complexas, contraditórias e questionáveis, fazendo o público questionar junto, se emocionar, participar e se envolver, agora Paul Thomas Anderson traz sua maturidade e primor em diálogo com a descrença e o cinismo.

    Uma batalha após a outra começa com guerrilheiros se colocando contra as políticas anti-imigratórias dos EUA, personagens radicais, mas cheios de juventude e propósitos lutando contra conservadores preconceituosos.

    Entretanto essas personagens com quem poderíamos nos identificar vão diminuindo sua força e ética. O casal vivido por Teyana Taylor e Leonardo Di Caprio se perde ao ter uma filha, há um impasse interessante entre a vida familiar que se impõe diante de uma criança e o desejo de seguir sua luta. Porém  os caminhos escolhidos reforçam caricaturas daqueles que se alienam nos cuidados do lar versus os que ignoram a parentalidade para viver seus impulsos. 

    Sim, a luta vira sobre isso: impulsos raivosos e nem se sabe mais contra quem. A mulher negra de corpo voluptuoso é caracterizada como uma mulher selvagem e sexual, que desperta desejo e faz jogos de sedução e tortura inclusive com os fascistas contra quem luta, encarnado principalmente na personagem de Sean Penn.

    E seu ex segue na alienação à qual se entrega se tornando um drogado que precisa até ser cuidado pela filha.

    Entre os conservadores se aponta uma possibilidade de humanismo, mas ao final todos se mostram infantis, mesquinhos e sem empatia por ninguém, fascistas matando fascistas - buscando anos de perdão?

    Quem talvez mantenha seus princípios, siga lutando e contribua por mover a trama seja a personagem de Benício Del Toro, que a partir de sua academia de artes marciais organiza uma sociedade alternativa, com ética e lealdade.

    Paul Thomas Anderson escala um elenco incrível e muito bem dirigido, traz ritmo e estética alucinadamente envolventes, há cenas de ação brilhantemente executadas como raramente se vê e cenas de humor muito bem construídas. Por todas essas qualidades o filme se torna ainda mais lamentável, já que a mensagem parece ser de deboche a qualquer causa e luta.

    Em tempos em que as pessoas se dividem entre os que estão cada vez mais radicais e polarizados e os que tentam entender os movimentos políticos do mundo mas num desgaste e saturação de informações, ao trazer temas políticos, mas fazer piada com eles, o filme parece ser um desserviço de despolitização.