segunda-feira, 23 de março de 2026

Cara de um, focinho de outro (Hoppers) - Daniel Chong

    A Pixar sempre traz animações de excelência técnica, boas personagens e ótimas sacadas de humor. Cara de um, focinho de outro não foge a essa regra.

    Aqui a protagonista é Mabel, uma menina que cresce defendendo os animais, para que eles possam viver em seus habitats naturais, até o ponto de se opor às buscas de "modernização" da cidade feitas pelo prefeito. O charme do filme é ela fazer essa defesa ao lado dos bichos, participando de um experimento científico que a faz adentrar um corpo de um castor e interagindo como se fosse um deles.

    Diferente de filmes que apresentam o mundo dos animais de maneira mais endêmica, como Vida de inseto, Formiguinhaz ou Flow; diferente também de filmes que tentam "humanizar" o mundo dos animais, reproduzindo os mesmos afetos e o mesmo sistema em que vivemos, como os recentes Um cabra bom de bola - comentado aqui, Zootopia ou o já clássico Procurando Nemo, Cara de um, focinho de outro começa mostrando as relações próprias do mundo animal, mas é aí que há um problema.

    Como em tentativas como Madagascar ou Os sem floresta há um conflito em mostrar "as leis da selva" e a cadeia alimentar sem acusá-la de "selvagem", e, ao acusá-la de selvagem que alternativas são dadas?

    Em Madagascar ou os animais vivem ou num zoológico numa vida artificial e limitada ou os bichos correm o risco de deixar de ser amigos, já que vão ter que se enfrentar para sobreviver. Em Os sem floresta eles desistem da floresta e se adaptam à vida de ultraprocessados para se alimentar, por exemplo. Mas são essas reais soluções?

    Aqui os animais começam revelando a Mabel que os bichos podem se comer para sobreviver, mas depois é defendida uma harmonia que nem sempre está de acordo com os instintos animais.

    Além disso a vilania muda de lugar, primeiro no prefeito vaidoso e ganancioso, mas que Mapel consegue conscientizar, aí a harmonia passa a ser ameaçada então por um inseto que quer se vingar por todas as vezes em que semelhantes foram esmagados.

    Os esmagamentos não são postos como a "lei das selvas". E a real selvageria de se destruir meios-ambientes para espaços otimizados para carros é colocada como uma questão pontual que o filme resolve em um final feliz. 

    A discussão sistêmica que urge, sobre por que se tenta subjugar outras espécies e a que ponto estamos colapsando o planeta numa busca infinita de fartura e comodidade (isso sem dizer para quem está indo essa riqueza e conforto) fica de fora.

Neste sentido é mais bonita a passagem da Era do gelo quando homens, mamutes e tigres se enfrentam cada um com seu interesse, mas que ao precisarem se deparar com a perda do outro chegam a um desenlace de desculpas e reconhecimentos. Apesar da convivência utópica entre todas as espécies, a mensagem afetiva de onde o medo de um que faz atacar o outro e gerar vinganças num ciclo de dores e perdas que levam a uma reconciliação fica genuína e bonita no filme de Carlos Saldanha.

    Filmes infantis não precisam nem devem ser aulas políticas, mas a reflexão poderia ir além, claro que em tempos bélicos e de intolerância, é esperar demais de um filme mainstream norte-americano, fiquemos então com o encanto e diversão que ele proporciona!

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