sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Relatos Selvagens (relatos salvajes) - Damián Szifrón


O diretor argentino Damián Szifrón usa sua experiência com programas de ação e suspense de TV para fazer Relatos Selvagens.

Diversos curtas que falam de violência e apresentam crimes de diversas naturezas: assassinatos, roubos, assédios morais, traições, vinganças etc.

Mérito do filme reunir um elenco primoroso (com nomes como e ter tramas bem amarradas, decupadas e com ritmo envolventes.

Entretanto nenhuma questão no filme é muito aprofundada, não só por se tratarem de histórias curtas, mas por ser um filme aninhado ao gênero e à busca de vilões e mocinhos. 

Muitas vezes Szifrón subverte seus personagens e eles mudam de lado, mas não de maneira a estarmos próximos a eles e nos identificarmos intensamente com seus conflitos.

Sem dúvida um filme de entretenimento com conteúdo, mas talvez supervalorizado pela crítica e pelo público, dada a quantidade de prêmios e de público que está fazendo.

Devemos ter muitos filmes como esse, mas que ele não precise ser visto como tão excepcional.

domingo, 16 de novembro de 2014

Kinsey - Vamos falar de sexo - Bill Condon


Bill Condon aproveitou uma personalidade com uma trajetória extremamente interessante para fazer um filme biografia: o biológo Alfred Kinsey que ficou conhecido por seus estudos pioneiros sobre a sexualidade humana.

Kinsey viveu questões sobre sua sexualidade e com dificuldade para interlocução decidiu ser interlocutor de outros que também tivessem dúvidas. Nos EUA dos anos 40 ele começou a dar aulas sobre o assunto em uma universidade em Indiana e fazer diversas pesquisas.

As pesquisas de Kinsey se baseavam em entrevistas e relatórios e também em suas experimentações pessoais e dentro do seu grupo. 

O filme tenta abarcar um pouco de tudo: os pontos de interesse, os fatos biográficos, os dados das pesquisas, os estudos empíricos, a perda de objetividade científica, a repercussão e polêmicas geradas etc.

Com um personagem tão interessante, Condon consegue instigar para sua história, mas termina em um filme morno e sem personalidade. Para dar mais dinamismo a sua narrativa usa recursos televisivos (cartelas, grafismos, fusões), talvez muito pautado por sua experiência em telefilmes, séries e obras infanto-juvenis.

Assim, esta obra de Condon se assemelha um pouco da obra de Kinsey. Kinsey trata de sexo e faz questionamentos extremamente relevantes e transgressores, mas se fixa em coleta de dados e sem tentar interpretá-los e analisá-los parece chegar aquém de onde poderia. 

Falta a relação com a psicologia (também uma de suas formações) para interpretar a série de dados com os quais trabalha. Algo apenas ligeiramente apontado em falas da personagem da esposa e do púpilo de Kinsey no filme.

Levantar a infinidade de sexualidades possíveis, tentando quebrar tabus de que a maioria das pessoas se masturbam e tem desejos bissexuais por exemplo, foi uma iniciativa incrível, mas usar essa multiplicidade apenas como parâmetro para uma "libertação" de que tudo seria possível, cabível e aceitável foi uma simplificação do comportamento humano.

Muitas vezes aqueles que se dizem sem censuras e liberais a tudo são os mais aprisionados por sua sexualidade, como vemos em tantas perversões e como vemos em filmes que tratam do assunto sem tentar ser tão completos e por isso conseguindo ser mais profundos e densos como filmes de Lars Von Trier ou na ficção Augustine e no documentário Na Captura dos Friedmans já comentados aqui.


Uma viagem extraordinária (L'extravagant voyage du jeune et prodigieux T.S. Spivet) - Jean-Pierre Jeneut


Jean-Pierre Jeneut é um dos cineastas com maior talento para retratar universos lúdicos, pincelando questões profundas com ares de contos de fada.

Filmes incríveis como Delicatessen e Ladrão de Sonhos, dirigidos ao lado de Marc Caro;

E também com sua obra mais popular o Fabuloso Destino de Amélie Poulain, são exemplos do que sua mente fantástica pode criar.

Entretanto quando diretores criativos como ele tentam se moldar em algumas histórias acabam com narrativas fracas em meio a imagens interessantes.

Terry Gilliam, Tim Burton, Wes Anderson ou mesmo mais recentemente Michel Gondry, todos com exemplos comentados aqui, se perdem em algumas de suas tentativas.

A começar pela escolha de protagonistas. Em Uma Viagem Extraordinária falta carisma no menino que interpreta o protagonista (lembrando A Fantástica Fábrica de Chocolate de Burton e também A Invenção de Hugo Cabret de Scorsese) e falta fortalecer seu conflito.

Spivet é o cientista precoce e inventor prodígio de 10 anos vive no interior dos Estados Unidos, em meio a uma mãe bióloga fora dos padrões, um pai fazendeiro chucro e irmãos com quem não tem muita identificação.


Ele se divide entre a busca de um prêmio que recebe e a culpa de um acidente com seu irmão gêmeo.

Mas suas emoções e motivações não são claras e acompanhamos o filme como se fossem esquetes fantásticas, sem a graciosidade e humor de outros filmes e sem termos algo para nos apegar e seguir.

A boa direção técnica acaba não suficiente para a história de grande potencial mas mal tão fracamente roteirizada.

A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli) - George Ovashvili


Uma grande oportunidade de ter um aperitivo do cinema da Geórgia, com o filme de George Ovashvili A Ilha dos Milharais.

História singela em linguagem igualmente simples provando que "menos" pode ser "mais".

Um senhor chega em uma ilhota e começa a construir sua vida ali, uma vida do zero e no meio do nada:
constrói um abrigo, leva sua neta, ergue uma casa, uma plantação, um teto e um sustento.

Mas é possível viver em paz tão "ilhado"?

O que pode emergir desse local que vai se mostrando cercado por uma guerra entre a Geórgia e a República separatista da Abecásia?

O que pode emergir de um senhor com coração humano que acolhe fugitivos e não sabe lidar com a neta que cresce e começa a virar mulher?


(Aqui lembrando o belo filme de Walter Lima Jr A Ostra e o Vento a dificuldade de um senhor em lidar com o vir a ser mulher).

A vida e a natureza se fazem mais imperativas, não vemos emergir nada com a humanidade desse senhor, submergem seus sonhos e se finaliza triste e melancólico, mas em um filme que emociona mergulhado em poesia.