segunda-feira, 6 de agosto de 2018

As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County) - Clint Eastwood


Com atuação em mais de 70 filmes e a direção de 40 títulos, Clint Eastwood é um dos cineastas mais produtivos da atualidade, 88 anos e sem menção de parar.

E sempre se renovando, reciclando, nem sempre arrebatando e surpreendendo, mas muitas vezes nos extasiando com seu talento.

Em geral são narrativas clássicas, mas que ele também gosta de subverter como em Menina de Ouro, que o filme começa um e termina outro. Muitos de seus filmes estão comentados aqui.


Mas seu passado clássico impera e se impõe, e vale a pena. É o caso de As Pontes de Madison.

Um romance simples, em que a narrativa surge em flashback e relata o encontro de duas pessoas improváveis, mas que se apaixonam arrebatadamente.

Premissa clichê, onde o interesse surge pela condução de Clint: a boa direção, os tempos, os enquadramentos, a música e as atuações (dele mesmo e da merecedora do oscar Meryl Streep).

E mesmo vendo hoje, 25 anos depois, o filme ainda nos toca. Algo está datado, no gestual e no visual, mas o principal - o drama e seus diálogos - seguem atuais e permanecem.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Coco - A vida é uma festa - Lee Unkrich e Adrian Molina


Ótima a sacada de usar a cultura mexicana para cenário dessa trama: sua importante festa dos mortos e outras diversas referências culturais.

Por exemplo a música ou a artista plástica Frida Kahlo, tudo isso colore (inclusive literalmente) o filme lindamente.

Em Coco, o conflito principal é o desejo de um menino de ser músico e a proibição da família por conta do trauma do pai que abandonou a família para tocar.

Mas tudo se encaixa quando o trauma é explicado e outro vilão aparece.

A narrativa não é surpreendente, mas tem um crescente e traz a bonita questão de que os mortos só existem enquanto os vivos lembram deles, por isso a importância da homenagem no Dia dos Mortos e por a justificativa da data.

Há personagens graciosos e divertidos, mas nenhum em destaque, talvez o que mais faça falta no filme, que acaba não tendo o mesmo atrativo e não se torna tão marcante quanto Monstros ou Ratatouille, por exemplo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Desobediência (Disobedience) - Sebastián Lelio


O diretor chileno Sebastián Lelio traz mais um filme com protagonistas mulheres. Aqui, em Desobediência, o drama é entre duas judias: Ronit e Esti.

A história vai sendo contada aos poucos, com lacunas sendo preenchidas e silêncios sendo revelados.

A cultura rígida e ortodoxa desobedecida secretamente pelos desejos.

Uma mulher que se afastou de sua família e cultura e volta por conta da morte do pai, um importante rabino reverenciado pela comunidade, e a partir daí se apresentam conflitos, contrastes dos de culturas e sentimentos e vêm à tona histórias do passado. 

Uma boa e densa história, mas onde falta um pouco mais de densidade na direção. Mais variáveis nas interpretações, nos diálogos, nas cenas propostas.


Todo potencial apresentado no início acaba um pouco linear e morno.

Ainda assim há cenas de arrebatamento e a história ecoa em nós para além do filme, o que, afinal, é o que pode haver de mais especial numa obra de arte.

Hannah - Andrea Pallaoro


O jovem diretor italiano Andrea Pallaoro desenvolveu um projeto ambicioso com Hannah.

Ambicioso não por excesso de intenções, mas por querer apresentar tão pouco e de forma tão precisa.

Hannah é a história de uma mulher de cerca de 60 anos cujo marido vai preso e sua vida vai sendo restringida por isso: laços cortados, dinheiro escasso, direitos confiscados.

Mas ela segue a vida com altivez.

E não é a vida de privações, sofrimentos e lamentos de uma latina, por exemplo. É uma vida em tons e com recursos de uma europeia (não há desabafos, há intelectualidade, há atividade física, há iniciativas).


Lembra um pouco a dureza de Amor, de Haneke - já comentado aqui.

Uma dignidade dura, silenciosa, militar.

A interpretação de Charlotte Rampling é exata. Observamos cada gesto, olhar e respiração dessa personagem. Mas paramos na observação.

A narrativa é tão meticulosamente enxuta que não deixa espaço para muita emoção e acaba se desgastando um pouco pelo excesso de economia.

Começa lembrando o tocante Há tanto tempo que te amo, também comentado aqui, que também demora para dizer a que veio e quem são suas personagens e histórias, mas que ao final se transborda e nos permite participar e nos emocionar com seu drama.

Em Hannah não há convite para essa entrada, tudo permanece nas entrelinhas, nos interditos, nos silêncios. Há muita densidade presente, mas tão denso que não conseguimos nem mergulhar.

Raras iniciativas como essa, ainda mais tão bem executadas, interpretadas, dirigidas, mas poderia pesar um pouco menos para o outro lado da balança.