segunda-feira, 27 de julho de 2026

O Diário de Pilar na Amazônia - Eduardo Vaisman / Rodrigo Van Der Put

     Flávia Lins sempre foi uma escritora interessada em viajar, tanto por diferentes países, como pelo mundo de fantasia das crianças. Assim, trabalhou como roteirista em projetos como Caça talentos e Sítio do picapau amarelo, até chegar em sua série de livros Diário de Pilar...

    Num dispositivo similar ao de Lucas Silva e Silva em O mundo da Lua, Pilar tem uma rede mágica para poder mergulhar em outros mundos...

    A primeira experiência foi na Grécia, podendo trazer não apenas uma outra geografia, mas muito de história e cultura, especialmente sua mitologia...

    Com o sucesso do primeiro livro, Pilar passou a viajar por outros países e sua segunda experiência foi pela Amazônia.

    Assim, Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put aproveitaram a proximidade regional para produção e decidiram fazer a adaptação pro cinema...

    Com inteligência artificial e efeitos especiais para as cenas de magia (gatinho de estimação de Pilar ou seres do folclore brasileiro como o Curupira), puderam dar brilho à narrativa. Mas o principal do filme está na trama bem amarrada, com desafios e objetivos bem definidos, de valores nobres a serem defendidos (aqueles que querem defender a natureza versus os que têm ambições destruidoras), situações de aventura, suspense e conquistas, está tudo ali bem dosado e costurado.

    O que poderia conquistar mais no filme é a construção de personnagens e o elenco, com mais carisma dos atores - inclusive da própria Pilar, e uma direção menos caricatural, como Dr Ernesto, vivido por Marcelo Adnet, que está tão exagerado que suas habilidades de vozes e corpo ficam estriônicas. Uma personagem como a de Zé Minhoca, que oscila entre a ganância, o medo e a compaixão por quem vai atacar acaba sendo mais interessante e talvez pudessem ensinar mais às crianças que, como todo mundo, não são sempre boas ou más. Afinal, para sermos "bonzinhos", temos que lidar com nossos defeitos...
    Mas o filme funciona e mostra seu potencial para se desdobrar em série como os livros... Que venham as próximas viagens!

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Minions & Monsters - Pierre Coffin

     Os Minions já se tornaram personagens bastante conhecidos dos sucessos das animações de Meu malvado favorito e em filmes próprios deles. 

    Aqui temos mais uma trama com essas criaturas carismática e politicamente incorretas. Embora em alguns momentos violentas demais, o que em um filme infantil poderia ser melhor cuidado (por exemplo o caso da cena do vilão sendo empalado).

    Em Minions & Monsters acompanhamos outra vez a saga da turma de Minions para encontrar um vilão a quem servir e idolatrar. Neste caso, além de exemplos monstruosos e brincadeiras com o imaginário de múmias, monstros das cavernas, bruxos, ETs, acompanhamos menções históricas das referências. Não só dos vilões, mas até de armas, como os legos que ao serem pisados são capazes de aniquilar uma personagem... (que pai de criança pequena não tem uma lembrança similar?).

    Cenas que dialoguem com os adultos, especialmente os pais, é uma preocupação cada vez mais presente nos filmes infantis, que buscam nas trilhas e panos de fundo atrativos para maiores de 18.

    Entretanto neste filme há um excesso de referências. Além das históricas, há menções específicas a filmes icônicos da história do cinema, só que não os pops e clássicos, mas alguns menos conhecidos. Talvez referências triviais para o diretor francês Pierre Coffin, mas que se tornam citações cifradas e que poluem a trama. Entre os Minions, fica um filme certamente de malvados menos favoritos...

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Uma infância alemã (Amrum) - Fatih Akim

    O turco alemão Fatih Akim veio consolidando sua cinematografia nas últimas décadas, nos apresentando filmes muito interessantes e diversos, como Contra a parede, Do outro lado Soul kitchen - já comentados aqui, ou na última década em filmes como Em pedaços.

    Em sua obra mais recente, Uma infância alemã, podemos conhecer um outro lado seu, de uma narrativa mais clássica, com olhar sensível para um drama de época... O tema é novamente o nazismo e a 2a Guerra e que, embora desgastado vem aqui com questões em grande diálogo com o fascismo atual - a relação de um povo e uma cultura com o diferente.

    Projeto de Hark Bohm, ator e diretor alemão, que se inspira em suas próprias vivências e memórias e que, diante de uma doença, recebe o apoio e parceria do ex-aluno e amigo Fatih Akim para realizá-lo.

    Uma infância alemã conta a história de Nanning, filho de nazistas que sofrem com sua anunciada derrota na primavera de 1945. Ao redor, amigos e vizinhos vislumbram tempos melhores, de menos violência e privação. Mas Nanning se vê dividido entre comemorar junto com eles e se lamentar com sua família, em especial sua mãe, a quem quer resgatar de uma depressão.   

    O filme tem uma jornada singela e intimista, do garoto em suas funções cotidianas com afazeres domésticos, trabalhos agrícolas, aprendizados de caças e as relações afetivas em meio a essas tarefas. Mas seu principal conflito é lidar com a grande decepção da mãe e sua recusa em se alimentar. Ela diz que a única coisa que teria vontade de comer é pão com mel e manteiga - um desejo aparentemente simples, mas que no contexto de guerra convoca uma árdua jornada para Nanning tentar realizá-la.

    Em seus esforços para atender a mãe, vêm os conflitos entre a herança dos ideais arianos de sua família e a comemoração dos novos tempos, com espaço para outros povos e para solidariedade.

    Como cuidar então de seu amor ao próximo, que se origina com sua mãe, figura primeva e depositária de seu maior afeto e o amor que vai surgindo por outras pessoas que sua mãe despreza? E como manter seus valores de uma educação rígida e sólida, quando vê familiares desistindo da vida ou fraquejando em sua ética em meio à necessidade?   

    Vivemos o intenso dilema ao lado de Nanning, que nos cativa com seu olhar doce e atos firmes e obstinados. Jasper Billerbeck, que vive o garoto nos ganha com seu carisma, mesmo que em alguns momentos traga expressões limitadas. O mesmo com algumas cenas menos desenvolvidas, como o afogamento, mas que trazem tanto sentido à trama que nos coquista.

    Acompanhando seu desejo de atender a mãe, também torcemos para sua ruptura com ela, por isso a cena tão catártica em que ela tenta reprimir a afetividade dele e ele se rebela em abraços e lágrimas.

    Com a linda paisagem da ilha de Amrun, no norte da Alemanha, próxima à Dinamarca, com o subtexto conhecido do nazismo e da guerra e com uma contrução econômica, nos aproximamos dessa realidade e recebemos com frescor mais um filme da 2a guerra. Mais emocionante ainda quando vemos personagens reais em cena. Emoção que transborda da tela e nos emociona também com os lamentáveis tempos de guerra que vivemos nos anos 20 deste século XXI.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Toy Story (John Lasseter / Ash Brannon / Lee Unkrich / Josh Cooley / McKenna Harris / Andrew Stanton)

     A série Toy Story parte sempre da premissa de mundos de fantasia criados pelas crianças e seus brinquedos, com isso seus criadores sempre fizeram uma homenagem à história dos brinquedos, dando vida e reverenciando clássicos de muitas infâncias, como o brinquedo de se montar o rosto de uma cabeça de batata, carros, dinossauros, soldadinhos, até chegarem em Barbies e tablets.

    No primeiro filme, criado por John Lasseter, há mais de 20 anos, o ponto de partida era do boneco Woody que tinha que dividir seu posto de brinquedo preferido com o boneco Buzz Lightyear e nas brigas acabam se perdendo da criança e passam por muitas aventuras até retornarem à casa.

   
    Com o sucesso, quatro anos depois veio a continuação, fazendo de Woody um objeto de desejo de colecionador no filme e na vida real. A trama novamente é de resgate, mas o atrativo vem de novas personagens introduzidas à trama, como a cowgirl Jessie.

    Dez anos depois veio o terceiro filme, que foi inteligente em criar um roteiro que com novas aventuras pudesse atrair novos públicos infantis, mas que também apelasse à nostalgia das crianças dos anos 90 que já se sentissem grandes, como o garoto Andy, que aqui está indo pra faculdade e se prepara para se despedir de seus brinquedos, os ameaçando de serem levados para centros de doação de brinquedos até serem apresentados a uma nova criança: a pequena Bonnie.

    Mais recentemente veio o quarto filme da série, quando os brinquedos já vivem com Bonnie, convivem com brinquedos de sucata e vão acompanhá-la em suas férias, ou seja, o risco de novos ambientes e de serem perdidos fica muito presente.

    Em 2026 vem o quinto filme, com diretores e roteiristas totalmente novos, mas ainda mantendo muitos dos astros originais, como Tom Hanks na voz de Woody ou Joan Cusack na voz de Jessie, a trama se atualiza com uma crise muito atual, dos brinquedos perdendo espaço na vida das crianças para as telas. 

   A vilã é um tablet e a socialização passando pelas redes sociais, os brinquedos tentam enfrentar essa crise, valorizando as crianças que sabem fazer seus mundos de faz de conta. As personagens que aparecem perdidas e que não têm função nessa história parecem ser os pais, deflagrando uma crise de nossos tempos, em que os pais têm realmente dificuldade em mediar o desejo de seus filhos de participarem de um mundo automatizado, mas não deixá-los hipnotizados e robotizados.

    A premissa mais do que interessante, é importante de ser abordada. Entretanto o filme tem seus desequilíbrios, querendo apresentar questões demais e não tendo tempo e espaço para explorar todas, como a memória das relações entre brinquedos e as crianças crescidas. Acaba entrando justamente em certo frenesi de mudança de cenas que diz sobre o tempo ansioso e multitarefa em que vivemos.

    Mas vale a experiência, que se destaca pela crítica, mensagem e seus bons protagonistas, eles seguem cativando e nos atraindo, seja ao público original do filme de 1995, ou dos que estão chegando agora, no mundo de Toy Story, em 2026.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Pai Mãe Irmã Irmão (Father Mother Sister Brother) - Jim Jarmusch

    Diretor cultuado pela cena alternativa hollywoodiana, Jim Jarmush parece gostar de histórias lacunares, convidando o espectador a preenchê-las em meio a um deslizamento aparentemente despretencioso de cenas, com atores excêntricos e trilhas descoladas. 

    Essa receita chega em obras consagradas como Down by law, Café e cigarros ou Flores partidas. Filmes que podem cativar, mas também resvalar em buscas ora rasas, ora muito afetadas e artificiais - exatamente o que acontece ao vermos seu novo filme:  Pai Mãe Irmã Irmão.    

    Na construção de seus filmes costuma haver um destaque para dois elementos: o elenco e as trilhas e que aqui convergem, talvez pela intensa passagem de Jarmush pela cena musical, onde faz clipes e documentários e até - por que não? - casting para as ficções. Assim, em  Pai Mãe Irmã Irmão temos uma ótima atuação de Tom Waits no papel do pai que protagoniza o primeiro segmento do filme...

    O filme aqui é dividido em três partes, todas com cenas familiares vividas por um elenco diverso, entre não atores (como Tom Waits), atores consagradíssimos como Charlotte RamplingCate BlanchetAdam Driver, também atores de universos mais pop como Mayim Bialik, além de atores menos conhecidos como Vicky Krieps, Indya Moore e Luka Sabbat.

    Em todos os trechos vemos filhos adultos encontrando seus pais, esses entes usualmente tido como conhecidos e familiares, mas aqui apresentados como estranhos, em encontros que se mostram muito desconfortáveis. 

   
    Como se trata de adultos, os filhos tentam também protagonizar as cenas, mas fica claro o descompasso da maturidade quando se está diante dos pais. Ali as crianças interiores parecem falar mais alto e revelar a  infantilidade daqueles adultos, que nos cativam, fazendo com que tentemos remontar suas histórias e as faltas que os deixaram naquela fragilidade.

    Por se tratarem de relações antigas, também já parecem enrijecidas, sem muito poder de mudança, redenção ou resgate. Curiosamente, onde há mais possibilidade de acesso dos filhos aos pais, são justamente nos pais que morreram, porque já não estão mais ali pra se defenderem de qualquer segredo, o que tiver para ser descoberto, será. Ou a especulação parecerá mais leve e permitida.

    Essas crônicas audiovisuais são recortes, não há começos, meios e fins ou objetivos a serem alcançados, é um registro de breves momentos com toda uma história contida e escondida ali.

    Sem grandes chamarizes, nos atraem no simples, no desejo de intuir e preencher histórias entre familiares desconhecidos que não se acessam, o desejo de acessá-los fica conosco...