segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Nem tudo é paz e amor - Betão Aguiar

     O documentarista Betão Aguiar traz com Nem tudo é paz e amor uma narrativa ao mesmo tempo pessoal e excêntrica, mas que pode transcender e ecoar de diferentes maneiras.

    Com depoimentos de filhos de ícones da contracultura brasileira, partindo dele mesmo, filho de Paulinho Boca de Cantor dos Novos Baianos e da produtora Marília Aguiar, que também estão presentes no filme. Fala também com outros filhos da banda, como Sarah Sheeva, filha de Baby e Pepeu Gomes ou Ciça Morais, filha de Morais Moreira. Além deles marcam os depoimentos de Moreno Veloso, Anelis Assumpção, Beto Lee, entre outros.

    A riqueza dessa lista se expressa nas experiências que eles narram e sua complexidade: a dificuldade de lidar com uma infância em que presenciavam a efervescência cultural de seus pais e parceiros e a dificuldade com a falta de rotina e a convivência íntima com sexo, drogas e mpb'n'roll...

    A densidade já vem nas cenas iniciais, com um super 8 de crianças pequenas fumando cigarros como se fosse uma bricadeira.

    E a partir daí as questões se desdobram em depoimentos, como Moreno Veloso falando de voltas da escola com sua casa com artistas do nível de Tom Jobim e João Gilberto tocando e no ambiente ao lado cenas muito impróprias.

    Sarah Sheeva também impacta contando de sua aproximação com a igreja, de quando ela foi a um culto e descobriu um lugar em que era permitido chorar, em que não precisava ser feliz o tempo todo, como na comunidade em que crescia com os Novos Baianos. Ela conta dessa descoberta e da valorização de regras e "conservações" que a fizeram se tornar pastora e ir na direção contrária a toda transgressão dos pais.

    No filme vão sendo pautados os costumes e os conflitos parentais presentes, mas que se dão em qualquer família: até onde devemos com nossos filhos limitar, liberar, proibir, proibir a proibição...?   

    A investigação vai aida aonde está o amor em tudo isso: o que é sobre os pais e seus próprios narcisismos colocado na outra geração e o que tem de experimentação numa busca de um mundo melhor, diferente, com novos parâmetros... 
    Até onde os pais devem experimentar e o quanto com isso proporcionam descobertas ou o quanto com isso deixam de olhar seus filhos e o que eles estão demandando, o quanto suas ideologias de um futuro podem descuidar do presente. O presente pulsante que é dado pela infância.

    Nem tudo é paz e amor traz temas e não se dispõe a fechá-los, talvez traga inclusive questões demais, numa narrativa que em alguns momentos parece faltar direcionamento.
    Por exemplo, Anelis Assumpção com o debate importantíssimo sobre a diferença da recepção de uma postura transgressora de brancos ou pretos.
    Também cenas anedóticas, de crianças que tinham a liberdade de escolherem seus nomes e assim ficavam sem uma alcunha por muito tempo - e, no caso, após tanta indefinicação, terminando com o nome "Maria".
    Mas essa narrativa meio fluida e em momentos perdida também compõe o aspecto libertário e vamos seguindo e nos envolvendo, embalados por uma excelente trilha musical...

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O Drama (The drama) - Kristoffer Borgli

   O norueguês Kristoffer Borgli começou sua carreira na Europa, mas passou a ser mais conhecido em sua fase americana, com seu longa O homem dos teus sonhos.

    Agora, na sequência, estreia O drama, com os "jovens" baladados Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim e Mamoudou Athie.

    Borgli investe no carisma melancólico de Pattinson, velho conhecido de jovens já de outras gerações por conta de Crepúsculo e que tem aparecido em filmes mais sérios nos últimos anos. E no magnetismo potente de Zendaya, que ficou conhecida ao protagonizar a série Euphoria, mas que também seguiu a carreira em filmes mais sérios, como Rivais.

    De um filme mais clichê de encontro amoroso, com jovens desajustados e tímidos começando a se relacionar e se apaixonando pelas qualidades e defeitos graciosos um do outro, passa a um filme com traumas e questões culturais - personagens com passados marcados por bullyings, uso de armas, uso de drogas, planejamentos de ataques terroristas, pais ausentes, pais conservadores, amigos hipócritas...

     Interessante ver como a trama se desdobra e revela da relação dos americanos com esses temas por exemplo minimizando bullyings e/ou tendo reações terroristas.

    O Drama quase vira um drama menor e repetitivo, mas sabe dosar a ironia e o humor e costura tudo com ritmo, chegando num bom resultado.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Cabo do medo - Martin Scorcese / Nick Antosca

    Cabo do medo foi um filme de muita potência e impacto, filmado por Martin Scorcese em 1991 e estrelado por Robert de Niro, Jessica Lange, Nick Nolte e uma jovem Juliette Lewis.

    O suspense baseado no livro de John D. MacDonald apresenta Max, um homem que sai da prisão após cumprir uma pena de 14 anos que poderia não ter sido sentenciada com as provas que seu advogado retem, ele se aproxima então da família do advogado e nos deixa na tensão de se haverá uma vingança e qual poderá ser.

 Com essa premissa envolvente, atores talentosos e uma direção precisa, o filme é uma experiência muito eletrizante.


   
    Portanto, o projeto de transformar Cabo do medo em série soa promissor e a aposta de Nick Atosca, com sua experiência em filmes de suspense e terror lhe dava crédito. E ele soube explorar muito bem a estética, não só no elenco, mas também na trilha e fotografia.

    Há espaço na trama para: se contar mais do que Max pode ter vivido na prisão, nos aproximarmos mais da família e, com isso, vivermos mais de perto toda a tensão com o reaparecimento dele...

    Os primeiros episódios são envolventes, principalmente com a figura de Javier Barden que realmente se destaca em sua atuação. 

    Entretanto, com o decorrer dos episódios, a série não se contenta em adensar a história daquelas personagens, traz outras - irmãos, filhos, exs, amantes, colegas de trabalho, de escola etc. E a cada nova personagem há novos elementos e possíveis tragédias.

    Todas as personagens se desequilibram: são ou vulneráveis demais, ou descontroladamente agressivas, têm motivos para vinganças e assassinatos e nos deixam apreensivos e desconfiados.

   
    Mas o pior é não ter personagens afetuosas, elas não parecem verdadeiras, há uma frieza e desconfiança que paira no ar, uma desumanização que pode ser interessante para manter um suspense, mas não para trazer verossimilhança e empatizarmos. Não somos instigados a querer entender essas pessoas e torcer por elas, não há chance de adensarmos em suas psiques e o terror psicológico resulta frágil. Assim, a série traz vários acréscimos, mas acaba perdendo muito no caminho.