sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Três vezes adeus (Tre ciotole) - Isabel Coixet

     Diretora sensível de filmes como A vida secreta das palavras - já comentado aqui, Isabel Coixet chega com mais um exemplo de uma bela narrativa.

    Três vezes adeus começa com o término de um relacionamento e muito do que pode estar presente em um recomeço.

    

    As cenas são bonitas e realistas, com os vazios das separações, as dúvidas, arrependimentos, hesitações. Mas, para nos envolvermos ainda mais, faz falta a construção das personagens. 

    Conhecemos muito pouco da protagonista, até temos alguns relatos dos defeitos dela, dados pelo ex, mas as qualidades... Vemos dois homens com interesses por ela, mas pelo que exatamente?

    Como nos aproximar e nos apaixonar e desapaixonar também por ela sem conhecê-la?

      E como nos comover mais quando ela adoece?

    Maravilhoso filmes que contam dos detalhes, que mostram os cotidianos, mas ainda mais brilhantes quando nas pequenezas há profundidade... Como na trilogia do Amanhecer de Linklater ou filmes como A pior pessoa do mundo - também comentado aqui - que tem uma narrativa com algumas semelhanças a Três vezes adeus.   

    Ainda assim, aqui temos cenas de extrema sensibilidade e muito emocionantes, com destaque justamente para as despedidas. Mesmo com arestas, um filme que vale muito a pena para pensarmos no amor, na amizade, na vida, na morte, transcendências...

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Democracia em vertigem - Petra Costa

     Democracia em Vertigem é o terceiro longa de Petra Costa, que em sua trajetória foi encontrando um lugar para elaborar seus afetos e olhar para o mundo. 
    Fosse sobre seus avós, como no curta de estreia Olhos de Ressaca; em seu primeiro longa Elena, em que faz uma elaboração da morte de sua própria irmã; na troca com outros artistas e na documentação cruzada sobre a montagem de uma peça e a gestação de uma criança como em Olmo e a gaivota; ou aqui pra falar da passagem de vida de um país...

    Em 2013, como muitos que viram manifestações crescerem no Brasil, em quantidade e intensidade, Petra começou a se inquietar. A inquietação cresceu e foi tomando forma quando foi se preparando um golpe, dado com o impeachment da presidente Dilma em 2016.

    Ali Petra se dispôs a documentar o momento, entendendo como uma guinada histórica na jovem retomada da democracia brasileira após décadas de ditadura.

    Uma das inspirações de Petra foi A Batalha do Chile, de Patrício Guzmán, que também na época se viu perdido, angustiado, mas buscando ações frente a ações funestas. Ele documentou diferentes pessoas de distintos grupos e regiões para dar um panorama da luta que se armava.

    Petra fez o mesmo, saiu dando rajadas de registros em todo tipo de evento político: manifestações pró-impeachment, anti-golpe, entrevistas com pessoas comuns, com partidários, apartidários, com políticos, com artistas, consigo própria...

    Assim como nos outros filmes, buscou paralelos pessoais e, vinda de uma família influente no país, se pôs em cena, mais uma vez trazendo sua voz como fio condutor.

    Esse recurso pode parecer pueril para alguns, mas diz de uma implicação e disposição cada vez mais necessárias.

    A década seguinte chegou com mais riscos e erosões, o acordo dito em 2016 que envolveria diferentes estratos da sociedade, multi partidos e "com o supremo, com tudo" foi colocado no ventilador, a política para a maior parte da sociedade foi até assassinada - como apurou o jornalista Tomás Chiaverini em podcast. Em grande parte dos cidadãos se chega em 2026 com uma perplexidade e descrença num futuro.

    Petra fala em 2019 de uma democracia em vertigem, olha para o passado recente, contextualiza brevemente dentro da história do país e nos deixa com certa náusea e bambeamento com sua vertigem.

     Fala do passado de exploração desde a vinda dos portugueses para a região, das famílias beneficiadas, da expansão do país, da construção de Brasília, da organização da política, dos movimentos contra oligárquicos, da luta da classe trabalhadora, das disputas presenciais de Lula, de seus governos, de sua sucessão, de sua derrocada...

    Seu filme seguinte Apocalipse nos trópicos, de 2024, traz no título uma palavra que nos remete a fim do mundo, mas que também significa desvendamento, mas em 2026 fica difícil saber para onde olhar... 

    Temos um medo do futuro generalizado, que produz ao redor uma ascenção do desejo de olhar para si, de se proteger e assim vemos movimentos de extrema direita ganharem força e, por outro lado, para aqueles que sonham com projetos mais amplos - democracia talvez? socialismo ainda? anarquias? Que trilha pode haver? Como lutar por uma ética e por ideais de justiça em sociedade? Como sonhar?

    Não há respostas claras. 

    A democracia passa por ambivalências e certezas são armadilhas extremistas. E, na dificuldade de se sonhar conjuntamente, certamente um caminhos é passar por um olhar sob si e aí o valor de obras como essa.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Deixe ele partir (Let him go) - Thomas Bezucha

     Sempre há espaço para filmes de perdas em família pois há tanto para se elaborar com essas dores, que podemos compartilhar diferentes narrativas e ainda nos envolver, emocionar e surpreender.   

    E em Deixe ele partir há uma situação bastante interessante: do neto de um filho que falece e que vai morar com a mãe e seu novo marido. Mas a vida da nova família se coloca distante e a vó paterna quer se manter perto, também como uma reparação pela perda do filho. 

    Entretanto o que poderia ser um filme da intensidade na sutileza, do desvendamento sobre o vazio, se torna um filme sobre obstinação e orgulhos, numa busca e perseguição pelo paradeiro da criança.

    Um embate entre esses dois avós paternos, protagonizados por Diane Lane e Kevin Costner, e uma família rústica e embrutecida pelas adversidades da vida nos anos 60 em regiões remotas dos Estados Unidos.

    O filme parece querer dialogar com o universo do faroeste de Clint Eastwood, mas não nos aproxima o suficiente desses corações e mentes. As personagens estão mal construídas, não hesitam, não têm nuances... E assim não chegamos a lugares sublimes como Clint no coloca, por exemplo com o romance de As pontes de Madison, com o hermitão de Gran Torino ou o pai angustiado e em luto de Sobre meninos e lobos. (Filme recente que se aproxima mais desse lugar talvez seja o bonito Sonhos de trem também comentado aqui).

    Deixe ele partir ameaça emocionar e instigar, mas fica em um lugar intermediário, traz uma boa premissa, um contexto interessante, inclusive abordando atrocidades imputadas aos indígenas americanos e os machismos da época, mas se perde no caminho.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O convite (The invite) - Olivia Wilde

    Sucesso de público e crítica, O Convite, o novo longa da experiente atriz e recém diretora Olivia Wilde é interessante e agradável.
    Agradável porque tem tom de comédia e interessante porque traz questões importantes como o desejo e o convite ao desejo. E não apenas no fato concreto de um convite de ménage sexual, mas na amplitude dessa palavra: de por onde investimos, como nos relacionamos, o que reivindicamos, com o que nos comprometemos, como balanceamos nossas pulsões e encaminhamos nossos afetos e nossas decisões de vida.

    Aqui, no casal em crise vivido pela própria Olivia Wilde e por Seth Rogen, que após muitos anos de casamento, a filha já adolescendo e a meia idade se instalando vêm questões como frustrações com os caminhos tomados. 
    As escolhas implicam perdas e ganhos e é um árduo processo se haver com isso. E quando não há honestidade, uma  "auto-honestidade", fica fácil se acomodar, culpabilizar os outros, a vida, o destino, o parceiro (como o marido faz) ou tentar ignorar e fingir que tudo está nos "conformes" (como a esposa faz).
        
    E um outro casal, vivido por Penélope Cruz e Edward Norton, entra aqui mais do que para convites eróticos, mas como um novo olhar para o que está presente, para o que está em jogo na cena. 
    Com perguntas simples e honestas fazem com que eles - e nós - olhemos os porquês as coisas estão como estão e por que não aceitar ou mudar.
    Para o próprio espectador, que é um tanto levado a olhar para aquele casal de maneira cristalizada, já que também é uma direção que tende à comédia e à construção de personagens com certo ar caricato, as intervenções feitas por essas personagens disruptivas, surpreendentes e sedutoras também nos impactam e arejam nosso olhar, convocando a novos pontos de vista e direções.
    Nos vemos por um lado no íntimo, como em narrativas entre quatro paredes de casais como a série recente Cenas de um casamento ou Deus da Carnificina - já comentado aqui, ao qual lembramos muito por também ser uma adaptação de peça de teatro e também ser feita em apenas um apartamento e com dois casais. E por outro lado nos vemos convidados a explorar os desejos e sonhar com o que pode estar fora... Seja o passado deles que os levou ali, seja novas decisões e escolhas que podem surgir.

    Assim, O Convite é mesmo um convite, sem tanta densidade e dramaticidade, mas com a profundidade do cotidiano e da atualidade árida e isolada em que vivemos.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Blue Jay - Alex Lehmann

     Projeto de autoria de Mark Duplass, que também protagoniza o filme ao lado de Sarah Paulson, e que foi dirigido por Alex Lehman.

    Lehman constroi bem a nostalgia e intensidade de um reencontro entre dois ex-namorados quase vinte anos depois. Em aspectos desde a escolha de trilhas ou a fotografia em preto e branco, até o ritmo bem realista...

    O filme começa devagar, como um reencontro estranho e vamos aos poucos entendendo quem são aquelas personagens e, principalmente, entendendo a relação entre elas. 

    Como em outros filmes de encontros e reencontros, por exemplo a trilogia de Richard Linklater Antes do Amanhecer/Por do sol/Meia-noite - já comentados aqui - ou o recente Vidas Passadas de Celine Song, Blue Jay vai nos envolvendo nos diálogos, olhares e silêncios. 

    A história desses ex-namorados de colégio, que voltam à cidade natal por circunstâncias distintas no mesmo momento, e que tiveram trajetórias bem diferentes no campo profissional e emocional vai sendo compartilhada por eles e com o público.

    E a delicadeza e densidade com que trabalha os fatos, ora em cenas prosaicas e graciosas, ora com confissões profundas, faz com que o filme entregue muito mais do que uma história do que poderia ou não ter acontecido, mas uma história de como as vivências, enamoramentos e traumas seguem conosco, como as reelaboramos ou recalcamos para dar sequência às nossas vidas, mas elas seguem fazendo parte de nós.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A última casa (The last house) - Louis Leterrier

     Louis Leterrier tem destaque por filmes de ação como Transformers e Hulk, mas aqui vai para um gênero mais de suspense.

    A última casa apresenta um fenômeno em que as pessoas ficam trancadas em casa sem conseguir sair, uma espécie de fim de mundo intimista. O filme então se foca em uma dessas casas e a vida de sua família em confinamento.

    As cenas vão desde cotidianos que nos remetem aos tempos de pandemia com gestos de cuidados com higiene e racionamento, até alusões a algo mais transcendente e fantástico, como a ameaça de zumbis ou alienígenas.

   
    Dialoga, nesse sentido, com produções recentes como Last of us ou O eternauta. Mas o que poderia ser um diferencial atrativo, que é a intimidade de uma família (vivida por bons atores como Wagner Moura e Greta Lee), não é bem construída. 

    As personagens são rasas e não têm nuances, a gradação de emoções por que cada um passa não tem a dimensão da passagem de anos e dificuldade de sobrevivência.    

    Leterrier compensa a falta de conflito psíquicos com cenas de ação, mas que também não são tão bem justificadas e acabam perdendo nossa adesão à trama.  Muita tensão e expectativa é semeada, mas não frutifica como poderia.