quarta-feira, 22 de julho de 2026

Uma infância alemã (Amrum) - Fatih Akim

    O turco alemão Fatih Akim veio consolidando sua cinematografia nas últimas décadas, nos apresentando filmes muito interessantes e diversos, como Contra a parede, Do outro lado Soul kitchen - já comentados aqui, ou na última década em filmes como Em pedaços.

    Em sua obra mais recente, Uma infância alemã, podemos conhecer um outro lado seu, de uma narrativa mais clássica, com olhar sensível para um drama de época... O tema é novamente o nazismo e a 2a Guerra e que, embora desgastado vem aqui com questões em grande diálogo com o fascismo atual - a relação de um povo e uma cultura com o diferente.

    Projeto de Hark Bohm, ator e diretor alemão, que se inspira em suas próprias vivências e memórias e que, diante de uma doença, recebe o apoio e parceria do ex-aluno e amigo Fatih Akim para realizá-lo.

    Uma infância alemã conta a história de Nanning, filho de nazistas que sofrem com sua anunciada derrota na primavera de 1945. Ao redor, amigos e vizinhos vislumbram tempos melhores, de menos violência e privação. Mas Nanning se vê dividido entre comemorar junto com eles e se lamentar com sua família, em especial sua mãe, a quem quer resgatar de uma depressão.   

    O filme tem uma jornada singela e intimista, do garoto em suas funções cotidianas com afazeres domésticos, trabalhos agrícolas, aprendizados de caças e as relações afetivas em meio a essas tarefas. Mas seu principal conflito é lidar com a grande decepção da mãe e sua recusa em se alimentar. Ela diz que a única coisa que teria vontade de comer é pão com mel e manteiga - um desejo aparentemente simples, mas que no contexto de guerra convoca uma árdua jornada para Nanning tentar realizá-la.

    Em seus esforços para atender a mãe, vêm os conflitos entre a herança dos ideais arianos de sua família e a comemoração dos novos tempos, com espaço para outros povos e para solidariedade.

    Como cuidar então de seu amor ao próximo, que se origina com sua mãe, figura primeva e depositária de seu maior afeto e o amor que vai surgindo por outras pessoas que sua mãe despreza? E como manter seus valores de uma educação rígida e sólida, quando vê familiares desistindo da vida ou fraquejando em sua ética em meio à necessidade?   

    Vivemos o intenso dilema ao lado de Nanning, que nos cativa com seu olhar doce e atos firmes e obstinados. Jasper Billerbeck, que vive o garoto nos ganha com seu carisma, mesmo que em alguns momentos traga expressões limitadas. O mesmo com algumas cenas menos desenvolvidas, como o afogamento, mas que trazem tanto sentido à trama que nos coquista.

    Acompanhando seu desejo de atender a mãe, também torcemos para sua ruptura com ela, por isso a cena tão catártica em que ela tenta reprimir a afetividade dele e ele se rebela em abraços e lágrimas.

    Com a linda paisagem da ilha de Amrun, no norte da Alemanha, próxima à Dinamarca, com o subtexto conhecido do nazismo e da guerra e com uma contrução econômica, nos aproximamos dessa realidade e recebemos com frescor mais um filme da 2a guerra. Mais emocionante ainda quando vemos personagens reais em cena. Emoção que transborda da tela e nos emociona também com os lamentáveis tempos de guerra que vivemos nos anos 20 deste século XXI.

Nenhum comentário:

Postar um comentário