Diretor cultuado pela cena alternativa hollywoodiana, Jim Jarmush parece gostar de histórias lacunares, convidando o espectador a preenchê-las em meio a um deslizamento aparentemente despretencioso de cenas, com atores excêntricos e trilhas descoladas.
Essa receita chega em obras consagradas como Down by law, Café e cigarros ou Flores partidas. Filmes que podem cativar, mas também resvalar em buscas ora rasas, ora muito afetadas e artificiais - exatamente o que acontece ao vermos seu novo filme: Pai Mãe Irmã Irmão.
Na construção de seus filmes costuma haver um destaque para dois elementos: o elenco e as trilhas e que aqui convergem, talvez pela intensa passagem de Jarmush pela cena musical, onde faz clipes e documentários e até - por que não? - casting para as ficções. Assim, em Pai Mãe Irmã Irmão temos uma ótima atuação de Tom Waits no papel do pai que protagoniza o primeiro segmento do filme...
O filme aqui é dividido em três partes, todas com cenas familiares vividas por um elenco diverso, entre não atores (como Tom Waits), atores consagradíssimos como Charlotte Rampling, Cate Blanchet e Adam Driver, também atores de universos mais pop como Mayim Bialik, além de atores menos conhecidos como Vicky Krieps, Indya Moore e Luka Sabbat.
Em todos os trechos vemos filhos adultos encontrando seus pais, esses entes usualmente tido como conhecidos e familiares, mas aqui apresentados como estranhos, em encontros que se mostram muito desconfortáveis.
Como se trata de adultos, os filhos tentam também protagonizar as cenas, mas fica claro o descompasso da maturidade quando se está diante dos pais. Ali as crianças interiores parecem falar mais alto e revelar a infantilidade daqueles adultos, que nos cativam, fazendo com que tentemos remontar suas histórias e as faltas que os deixaram naquela fragilidade.
Por se tratarem de relações antigas, também já parecem enrijecidas, sem muito poder de mudança, redenção ou resgate. Curiosamente, onde há mais possibilidade de acesso dos filhos aos pais, são justamente nos pais que morreram, porque já não estão mais ali pra se defenderem de qualquer segredo, o que tiver para ser descoberto, será. Ou a especulação parecerá mais leve e permitida.
Essas crônicas audiovisuais são recortes, não há começos, meios e fins ou objetivos a serem alcançados, é um registro de breves momentos com toda uma história contida e escondida ali.
Sem grandes chamarizes, nos atraem no simples, no desejo de intuir e preencher histórias entre familiares desconhecidos que não se acessam, o desejo de acessá-los fica conosco...
Nenhum comentário:
Postar um comentário