segunda-feira, 29 de junho de 2026

Natal amargo (Amarga Navidad) - Pedro Almodóvar

    Pedro Almodóvar tem talento inegável para tramas novelescas com tintas carregadas. São premissas dramáticas e melodramáticas, atores em intensidade e toda a estética acompanhando esse arroubo de emoções: cores, cenários, fotografias, músicas...   

    Há exemplos em que a combinação resulta sublime como Carne Trêmula, Tudo sobre minha mãe, Fale com ela, Volver, O quarto ao lado... Mas há também casos em que a novela fica novelesca demais: roteiros com muitas reviravoltas, elenco que não acompanha aquele exagero ou uma direção mais imprecisa...

    Parece o caso justamente exemplos autobiográficos percam essa força e precisão, como foi o caso de Má educação ou o recente Natal amargo.

    O filme parte de uma trama metaliguística em que há um cineasta de meia idade de sucesso e em crise com sua carreira e um possível novo filme (semelhanças não são mera coincidência). E este cineasta traz em seu roteiro uma diretora em crise entre fazer filmes cults ou publicidades bem remuneradas, que vemos dramatizado em paralelo. 

    Ambos aparecem em busca de sentido para suas vidas, se apoiando em relações estáveis, mas se distraindo e se encantando com possíveis novidades... Encantamentos que arriscam descartamentos... E por isso também sofrem críticas...

    A trama rocambolesca tem sua graça, mas quando sentimos muito a mão do diretor, com pausas e olhares artificiais, um ritmo que tira a fluidez do filme e torna as personagens em muitos momentos caricatas, inverossímeis, ou até infantis (colocando mãos no coração em momentos de dor) aí arrisca desconectar espectadores. 

    Também pelo roteiro que busca o drama em situações ora muito excessivas (perda de filhos, rompimentos etc) e ora em crises filosóficas um pouco banais: a crise ética do diretor que usa dados reais de sua amiga para colocar em seu filme, mas que não se implica com a dor dela o deixa limitado.

    Talvez com uma amarração um pouco mais densa, que explorasse premissas tão ricas no interessante ambiente almodovariano (de suas cores sólidas e intensas escolhidas a dedo), poderíamos desfrutar mais.

    Mas como em geral acontece com grandes diretores, mesmo em filmes mais irregulares, há cenas que valem a pena a assistida... Com certeza o caso aqui...

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