segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cangaço novo - Mariana Bardan e Eduardo Melo

    Criação da dupla Mariana Bardan e Eduardo Melo, a série Cangaço novo mostra a potência possível para se revisitar um cenário e um tema bastante conhecidos da cultura brasileira e ainda assim trazer jovialidade, força e originalidade.
    Cangaço novo pode ser vista tanto como herdeira do cinema novo, quanto de obras mais recentes como Cidade de Deus - inclusive surgiu dentro da mesma produtora, a O2, de Fernando Meirelles.
    
No elenco - um dos pontos altos da série - temos também desde estrelas longamente conhecidas como Marcélia Cartaxo, eternizada por sua atuação em A hora da Estrela de Suzana Amaral, passando por destaques da retomada do cinema brasileiro como Hermila Guedes, que se destacou ao protagonizar O céu de Suely, de Karim Ainouz; até chegar nos arrebatadores atores da nova geração encabeçados por Alice Carvalho e Allan Souza Lima, isso sem contar em um excelente time de coadjuvantes.
    
    Num ambiente do Nordeste marcado pela pobreza e desigualdade, a violência se torna a arma tanto para os opressores, como para os oprimidos que se rebelam. Mas a maestria do roteiro está em trazer dramas pessoais para encaminhar a trama.

    
Começa com a chegada de Ubaldo, que deixa sua vida no sudeste para ter notícias da família de origem, lá se aproxima dos seus parentes de sobrenome Vaqueiros e com eles se junta para conseguir dinheiro. Nessas tentativas começam então cenas de ação eletrizantemente realizadas. 

Em paralelo, vemos as relações pessoais se adensarem: a família se reaproximar, casais se formarem, se separarem e segredos serem revelados.
    
    A trama também vai apresentando traços políticos: não é apenas um grupo de cangaceiros/bandidos aleatórios, mas há princípios de reparação social contra políticos controladores da região, inclusive com cargos de prefeitura e senado e com ambições para explorar a região sem pensar no equilíbrio do meio ambiente.
   
Entretanto, em nome de assaltos cada vez mais sofisticados e cinematográficos, os propósitos se perdem, um tanto como acontece na vida real, mas outro tanto deixando a série até inverossímil. Acaba se assemelhando um pouco a experiências como a série espanhola A casa de papel ou mesmo Onze homens e um segredo, em que o destaque é o crime e, com isso, perde sua densidade narrativa, em que o mérito era alinhavar tão bem diferentes frentes temáticas (abordagem política, social, afetiva...).
    E, na segunda temporada, do resvalo na incoerência acaba se chegando na perda de ética das personagens, os ataques e matanças ficam tão indiscriminados que os protagonistas que nos cativaram se tornam personagens insensíveis que não se comovem com mortes. Podemos seguir empatizados e aliados a eles pela história pregressa e por sua força e carisma, mas se questionarmos seus atos e motivações há passagens que se fragilizam.
    Cangaço novo segue sendo talentosa e vigorosa, mas com pontos duvidosos, o princípio do Cangaço, um projeto Robin Hood que poderia nos aproximar ainda mais da trama; ou também a existência de vilões mais humanizados, que mantivessem seu egoísmo, mas pudessem pensar em sua família, em algum amor ao próximo, ainda que limitado e mesquinho, trariam mais ambivalência e densidade à série. 
    Veremos o que a próxima temporada, já vislumbrada no final da segunda, pode reservar à trama e quem sabe trabalhar justamente com essas fragilidades...

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