quinta-feira, 9 de abril de 2026

A filha perdida (La Figlia Oscura / The Lost Daughter) - Elena Ferrante / Maggie Gyllenhaal

Poucas são as criações artísticas com características mais explicitamente femininas. A escrita de Clarice Lispector é um exemplo, com seus fluxos de pensamento em associação livre que apresentam menos considerações e racionalizações diretas e fálicas e mais uma sinestesia da vivência corpórea e intimista. No cinema sua obra pode ser conhecida na adaptação de Suzana Amaral para A hora da Estrela.

Também Marguerite Duras com sua sensualidade intensa e ao mesmo delicada, errante e muito característica. Além de escritora, Marguerite era roteirista, assinando dezenas de obras, e parceira de diretores como Alain Resnais na obra-prima Hiroshima mon amour ou na adaptação de Jean-Jacques Annaud para um de seus livros mais importantes: O amante.

Um exemplo mais recente de literatura feminina seria Elena Ferrante com histórias marcadas por sentimentos ambivalentes intensos, presentes tanto em relações femininas de amizades, mas principalmente da maternidade.

 Os livros de Ferrante têm muitas cenas bem audiovisuais, apesar do mistério sob sua identidade, fala-se de histórias autobiográficas e portanto com muitos dados realistas, circunstâncias históricas e cenas em continuidade, como de novelas. 

Não à toa suas obras também têm sido muito adaptadas, foi o caso da série Amiga Genial, adaptada por Saverio Constanzo e do filme A filha perdida de Maggie Gyllenhaal.

   
Maggie vem de uma família de artistas e começou sua carreira se destacando como atriz, um dos filmes em que atuou foi O sorriso de Monalisa, que também apresenta contradições e disputas de um mundo feminino, embora de uma maneira mais rasa.

Aqui Maggie se debruça sobre uma obra de Ferrante com uma protagonista às voltas com a maternidade: maternidade desejada, cheia de amor, mas também de muita exasperação.

Maternidade que transborda carinho e admiração, mas que também sufoca e demanda privações, especialmente em um mundo machista. 

Em seu casamento foi ela a cobrada por deixar de lado sua carreira para se dedicar às crianças, é ela que recebe pedidos e cobranças sem fim de suas filhas, é ela que ouve infinitos chamados de seu nome... até que ela se rebela.

Essa guinada em geral é acolhida pelas mulheres, mas provoca repulsa entre os espectadores homens. Parece duro uma mãe que abandona os filhos e mais fácil se chocar com elas, apesar das milhares de versões masculinas de abandono já são tão usuais que não sensibilizam mais.

E no filme o abandono também é cheio de ambivalências, há amor e ódio, culpa e gozo, independência e desamparo.

Quem é a filha perdida do título? 
A própria protagonista, também em crise com sua mãe? Suas filhas? O momento da infância delas em que ela não esteve presente? A mãe que ela conhece na praia e que a faz rememorar toda essa história? A filha dela? Sua boneca?    

São muitas figuras femininas na obra e todas intensas, com sentimentos latentes transbordantes e enigmáticos e que são muito bem incorporados no filme, com uma direção enxuta e precisa e um elenco afiadíssimo, com destaque para Olivia Colman, mas presenças importantes de Jessie Buckley, Dakota Johnson, Ed Harris e Paul Mescal.

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