sexta-feira, 27 de março de 2026

O filho de mil homens - Daniel Rezende

     Daniel Rezende ficou conhecido pela montagem de Cidade de Deus de Fernando Meirelles, em seguida assinou outras grandes produções como Tropa de elite de José Padilha, já comentado aqui. Só depois se aventurou pela direção, em curtas, séries e depois longas, como Bingo e agora o ambicioso Filho de mil homens.

  
Daniel parte da obra-prima de Valter Hugo Mãe, um livro que capítulo a capítulo adentra a vida de personagens solitárias, isoladas, problemáticas, que vemos sofrerem uma rejeição da sociedade e a descoberta de um jeito diferente de viver. 

Aos poucos o que parece ser um livro de contos se torna um romance profundo, poético, inebriante. As emoções contidas em cada um começam a se espalhar e se potencializar em conjunto, levando a um cruzamento arrebatador. 

    Mas como traduzir audiovisualmente uma beleza que é tão etérea? Que vem de reflexões e sensações? 

    Talvez numa adaptação mais sóbria, mais afeita aos fatos em que o espectador que tem a missão de preencher lacunas e poesias, como em A hora da estrela, adaptação de Suzana Amaral para a obra de Clarice Lispector? Ou se apoiar na sinestesia de sons e imagens mas apenas para buscar a tradução de sensações, como fez o parceiro/mentor de Daniel, o cineasta Fernando Meirelles, com a obra de José Saramago na adaptação de Ensaio sobre a cegueira?


    Porém Daniel quis ir além, ele parece ter sublinhado tudo que achou de mágico e encantador no livro e assim se tornou didático e pueril. Os brilhos e colorações que traz para as imagens ficam infantis e mesmo a interpretação de personagens autênticas demais, chega em um exotismo teatral que não favorece a construção delas. Faz lembrar a adaptação de Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marques feita por Laura Mora e Alex García López para uma série televisiva e que também se distanciam da profundidade da obra de origem. Fiquemos com as imagens criadas em nosso imaginário para obras tão potentes e inesquecíveis.

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