quinta-feira, 5 de março de 2026

Uma batalha após a outra (One batle after another) - Paul Thomas Anderson

     O jovem promissor de diversos vídeos musicais e filmes como Boogie Nights, Magnólia e Punch-Drunk love, vem ganhando experiência e maturidade, seja em filmes como O Mestre - já comentado aqui - ou no mais recente e de grande repercussão Uma batalha após a outra.

    Antes interessado em personagens "gauche" para desenvolver o que poderia haver por trás delas, construir relações complexas, contraditórias e questionáveis, fazendo o público questionar junto, se emocionar, participar e se envolver, agora Paul Thomas Anderson traz sua maturidade e primor em diálogo com descrença e cinismo.

    Uma batalha após a outra começa com guerrilheiros se colocando contra as políticas anti-imigratórias dos EUA, personagens radicais, mas cheios de juventude e propósitos lutando contra conservadores preconceituosos.

    Entretanto essas personagens com quem poderíamos nos identificar vão diminuindo sua força e ética. O casal vivido por Teyana Taylor e Leonardo Di Caprio se perde ao ter uma filha, há um impasse interessante entre a vida familiar que se impõe diante de uma criança e o desejo de seguir sua luta, mas os caminhos escolhidos se tornam caricaturas daqueles que se alienam nos cuidados do lar versus os que ignoram a parentalidade para viver seus impulsos. 

    Sim, a luta vira sobre isso: impulsos raivosos e nem se sabe mais contra quem. A mulher negra de corpo voluptuoso é caracterizada como uma mulher selvagem e sexual, que desperta desejo e faz jogos de sedução e tortura inclusive com os fascistas contra quem luta, encarnado principalmente na personagem de Sean Penn.

    E seu ex segue na alienação à qual se entrega se tornando um drogado que precisa até ser cuidado pela filha.

    Entre os conservadores se aponta uma possibilidade de humanismo, mas ao final todos se mostram infantis e mesquinhos e sem empatia por ninguém, fascistas matando fascistas - buscando anos de perdão?

    Quem talvez mantenha seus princípios, siga lutando e contribua por mover a trama seja a personagem de Benício Del Toro, que a partir de sua academia de artes marciais organiza uma sociedade alternativa, com ética e lealdade.

    Paul Thomas Anderson traz um elenco incrível e muito bem dirigido, traz ritmo e estética envolventes e alucinantes, há cenas de ação brilhantemente executadas como raramente se vê e cenas de humor muito bem construídas. Por todas essas qualidades o filme se torna ainda mais lamentável, já que a mensagem parece ser de deboche a qualquer causa e luta.

    Em tempos em que as pessoas se dividem entre os que estão cada vez mais radicais e polarizados e os que tentam entender os movimentos políticos do mundo mas num desgaste e saturação de informações, ao trazer temas políticos, mas fazer piada com eles, o filme pode ser um desserviço de despolitização. 

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