terça-feira, 17 de março de 2026

Sirat - Oliver Laxe

     Raros os filmes que se pautem mais em ideias e sinestesias do que em narrativas, é possível pensar em filmes líricos como a adaptação para Estorvo de Ruy Guerra, ou pensar em experiências filosóficas e metafísicas como os filmes de Júlio Bressane, Tarkovski ou Béla Tarr - já comentados aqui. E, agora, em um tempo tão árido e apocalíptico, Sirat de Oliver Laxe chega perturbando, explodindo, arrebatando.

    O ponto de partida do pai espanhol buscando uma filha perdida em alguma rave no Marrocos é um fio condutor que nos insere no universo de raves alternativas, em que vemos figuras alternativas, deslocadas de uma sociedade convencional criando um mundo paralelo.

    O pai e o filho caçula aparecem destoando de jovens drogados, mas vão tendo entrada para aqueles que recebem os folhetos com fotos da filha perdida, e assim começam algumas conexões.

    Depois algumas cenas de uma guerra que se inicia vai aproximando algumas pessoas e vão se tornando de fato uma comunidade, grupo de páreas, radicais, mutilados, animais, sem laços que não aqueles... Não se fala de nenhuma outra família, de nenhum outro trabalho... A missão deles é se conectar com a música, com a paisagem, com a mistura de nacionalidades, culturas e línguas que aquelas pessoas representam.

    E a conexão do espectador também fica com eles, com o estranhamento da música eletrônica e quase inumana, tomadas da paisagem que parecem arte abstrata em movimento e os afetos que surgem como oásis nesse deserto, flores nos cactos, mas às quais não se pode apegar, porque o mundo apresentado é bruto e por isso mesmo extremamente frágil. Não a fragilidade de pétalas, mas de espinhos, de estilhaços.

    O mundo está a ponto de explodir, tal qual o fora das telas e quem seremos nós nessa história?

    Não há redenção, não há final feliz, é o tempo de mal estar, físico, sinestésico, filosófico e metafísico. O que fazemos com o filme? Saímos no meio? Sustentamos até o final? Sorrimos? Choramos? Dançamos junto? Gritamos? Urramos?

    O que faremos de nós? O que faremos do mundo? Como será nossa Sirat? (que significa uma travessia e no islamismo vem com as imagens de ser "uma ponte que atravessa o abismo do inferno em direção ao paraíso e é mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada").

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