sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Hal & Harper - Cooper Raiff

Hal & Harper é mais um projeto autoral do jovem Cooper Raiff que, além de roteirizar e dirigir, é um dos protagonistas da série: vive o jovem Hal, que com a irmã Harper enfrenta o trauma de ter perdido a mãe na infância.

    Como em todo trauma e luto, os acontecimentos não acontecem de forma linear, os afetos não têm uma organização e temporalidade localizada, não há uma geografia específica e por isso tudo se mistura.

    Esse é o grande mérito da série: conseguir nos capturar para um emaranhado de lembranças, acontecimentos e personagens do passado, presente e futuro dos protagonistas. 

    A cada episódio somos preenchidos por acontecimentos ora da infância, ora da juventude e caminhamos um pouco mais para o que está por vir, temos momentos para sorrir puerilmente com as personagens ou chorar copiosamente.

    Entre os fatos dessa trajetória está a família tentando se reerguer logo após a perda da mãe, tanto as duas crianças quanto o pai que ficou como único cuidador delas. Eles oscilam entre a cumplicidade em que um fato deste traz e o estilhaçamento e ressentimento particular de cada um. 

    Esse passado transborda em tudo que tiveram que engolir para seguir vivendo e no que se fixaram e de onde nunca conseguiram sair.

Os jovens irmãos de 20 e poucos anos são ainda as crianças desamparadas da infância, mas também adultos que perderam a inocência e leveza muito cedo. 

Por isso a opção estética de que os mesmos atores interpretem os momentos de infância num primeiro momento podem causar estranhamento e incômodo, mas ao final faz muito sentido.

   
O pai, vivido por Mark Ruffalo, também, ele aparece no presente em uma nova relação, mas se divide entre a construção e a elaboração de seu luto: o que é preciso destruir para que ele se abra ao que está por vir.

    Nos 20 e poucos anos dos jovens cabem as crises clássicas de descoberta e fim de primeiros amores, de sonhos de trabalho versus sonhos de casamento e desejos de se estabelecer, mas também de mudar e alçar voos.

Esses conflitos são muito bem apresentados com diálogos cativantes, profundos e realistas e com interpretações comoventes, com destaque para Lili Reinhart.

    A narrativa densa e dramática é muito boa, mas a linguagem que nos remete à memória, essa matéria metafísica que nos compõe e que faz com que nossas trajetórias e dramas sejam tão singulares é que faz com que Hal & Harper seja tão especial também.   

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