Joachin Trier vem apresentando questões em seus filmes de acordo com suas fases e suas personagens revelam olhares cada vez mais maduros e profundos. Assim, em Valor sentimental há uma densidade que ainda não havia sido apresentada em sua obra. As questões complexas e abrangentes sempre estiveram presentes, mas aqui há uma evolução da sensibilidade.
Não é apenas sobre os conflitos familiares de duas irmãs que perdem a mãe e reencontram o pai que desde o divórcio havia estado ausente, é sobre uma matéria menos sólida e mais indizível. Diz respeito a origens, medos, amores, cumplicidades, ódios... "Valores sentimentais"...
Essa expressão que usamos para objetos, que pode dizer respeito a heranças e que é carregada de subjetividade, de narrativas, de memórias... Essa substância tão concreta e tão abstrata que acompanha a todos nós e por isso é tão tocante no filme.
Se angustia a cada vez que se depara com o novo, com aquilo que não sabe onde pode dar. Por outro lado, Nora não se permite relações estáveis, também tem medo daquilo que possa conhecer totalmente e mais: que possa conhecê-la totalmente. Há um medo de se entregar, de confiar.
É insegura quanto ao que tem para dar, ao mesmo tempo em que tem bastante autonomia para entregar seu corpo e alma para as personagens que interpreta, para questionar e desafiar os medos da irmã ou o pai que tanto a magoou.
O pai é vivido pelo experiente Stella Skarsgard, que conhecemos desde filmes de Lars von Trier (veja mais aqui) até produções hollywoodianas como a franquia Piratas do Caribe. Ele traz toda a ambiguidade de um homem que viveu uma tragédia e de quem podemos ter pena e de um homem que impôs um grande drama e quase tragédia a sua família com seu egoísmo e negligência e de quem por isso podemos ter raiva.
Esse pai septuagenário é também diretor de cinema e traz um projeto depois de um tempo de ostracismo, com expectativa de que a obra seja o símbolo de sua vida e assim nos instigue e comova.
E instiga sua filha Nora, com quem quer realizar o projeto.
A trama mais do que desenvolver se a filha vai ou não fazer o filme com ele, vai ou não perdoá-lo, vai ou não fazer o pai entender o que provocou, se ele vai ou não se arrepender, ela é sobre as lacunas e preenchimentos que coexistem nas relações, o que ficam delas para nós e o que há de valor sentimental em nossas memórias.
Seu talento e sensibilidade está em construir cenas de cotidiano, cenas realistas e tão carregadas de drama, especialmente pela direção de atores que faz. Os atores mostram as personagens por dentro e nos viram do avesso em emoções.
Não é só o patriarca, o universo burguês, os atos fálicos e o que está dito, é o que está por trás, as resistências, as pequenas revoluções, a maneira feminina de lidar com as dores... Por isso uma das cenas mais emocionantes é justamente uma em que o pai não está, em que as irmãs falam sobre a força e amor delas. O filme parece ser muito mais sobre isso, ou essa é a herança que parece deixar para mim, aí está seu valor sentimental.

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