É bonito ver um cineasta consolidar e ser reconhecido por seu cinema. Kleber Mendonça Filho faz um cinema autoral, prestigiando sua origem e sendo fiel ao seu tom narrativo, interesses e ideologias.
Desde seus curtas está lá o Recife, também desde sempre o flerte com um humor sóbrio, com o excêntrico, com o realista inverossímil, entremeando às questões políticas, com enfrentamentos de autoridades e resistência das personagens.
Em seu primeiro longa, O som ao redor - já comentado aqui, estava lá muito bem construído o clima e um suspense que nunca eclode; o mesmo em Aquarius, longa que lhe deu notoriedade internacional, talvez na sequência haja um pouco mais de ação e distopia mas ainda assim suas marcas se apresentam no excelente Bacurau.
Agora Kleber volta a se conter e deixar o suspense suspenso e perene em O agente secreto.
Difícil descrever e definir O agente secreto, não há uma trama com arco convencional, um conflito apresentado, desenvolvido e desenrolado em um ápice. Há o clima. Há a tensão do risco e da perseguição. A ameaça dos desaparecimentos. Um contexto real da ditadura - com a época muito bem reconstituída esteticamente: na fotografia, arte, figurinos, som... E também a brincadeira com os medos fictícios das pessoas, como as lendas urbanas reais retratadas no filme.
O filme conquista ainda por trazer personagens realistas, íntegras, afetuosas e generosas, que tentam se salvar, salvar suas famílias, amigos e pessoas que respeitam, seja o protagonista vivido por Wagner Moura e seu filho, ou a comunidade de resistência em que se ampara, como a interessantíssima personagem de Dona Sebastiana, vivida pela estreante Tânia Maria. No elenco ainda há destaques para Hermila Guedes, Alice Carvalho, entre outros.
Em todas essas personagens vemos também as lutas pelo que elas acreditam, quando dizem não à corrupção, quando defendem seus trabalhos, quando se defendem, defendem suas vidas.
Por isso mesmo sendo um filme que se passa há quase 40 anos parece tão atual, pois os grupos e pessoas que tentam impor a superioridade na força e no status privilegiado seguem presentes, talvez com a maior intensidade que temos visto nos últimos anos.
Em tempos fascistas obras que exaltem resistências são importantes.
Mesmo que o filme não tenha reviravoltas e o protagonista pareça ter emoções contidas há material ali para ser desvendado, há o que se refletir e o que se deixar ecoar no mundo em que vivemos.
E por isso sem parecer um filme de grande apelo, segue conquistando a todos, público e crítica. Com inúmeros prêmios mundo afora, Kleber Mendonça faz história. E que siga fazendo muitas outras!

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