domingo, 22 de fevereiro de 2026

Os pecadores (Sinners) - Ryan Coogler

    Depois de dirigir os filmes da Marvel de Pantera negra, Ryan Coogler roteiriza, produz e dirige Os pecadores.


    O projeto parte de fatos reais muito duros do racismo vivido nos EUA e os metaforiza numa história de heróis e vilões. O dom, a magia, a cobiça e a disputa giram em torno da música, da qual os negros podem realmente apontar que foram vampirizados pelos brancos, mas para ultrapassar uma narrativa de ação juvenil falta mais.

    O conteúdo é bem posto e a metáfora muito interessante, mas esse potencial é desperdiçado sem que se aprofunde as personagens.

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Temos o jovem Sammie (Miles Caton) bem apresentado em seu conflito de amar a música, ter o dom para executá-la, mas com sua prática ferir os valores morais de seu pai, pastor de uma pequena igreja local. 

O confronto entre a retidão da vida religiosa e a libertinagem da vida artística estão muito bem postos.

Entretanto as personagens que chegam para mover a trama, os gêmeos Smoke e Stack, vividos por Michael B. Jordan, filho do astro do basquete, trazem ação, mas não consistência à narrativa. 

    Eles saíram da região, passaram um tempo em Chicago, fizeram fortuna de maneira ilícita e obscura e voltam para tentar mudar a região, abrir seu próprio bar, espaço de refúgio para a comunidade negra. Esse parece um bom propósito, mas a violência, as histórias de afetos entrecortadas e não aprofundadas, nos deixam um pouco no ar.

    A seguir aparecem os "vilões", os brancos, representantes da Ku Klux Klan e também de vampiros da música, não apenas os blues tocados naquele bar, mas toda a música pop negra americana (há cena em que se alude de Robert Johnson a Nina Simone, de Michael Jackson a Beyonce, por exemplo).

Mas quem são esses vilões? Qual o incômodo deles? De onde vem sua força? O que a música os provoca?

Nada é muito explorado no filme, o foco fica mais na batalha de ação.

    Com exemplos distintos, de Um drink no inferno de Robert Rodriguez à Deixa ela entrar de Thomas Alfredson, já comentado aqui, passando pelo Labirinto do Fauno de Guillerme del Toro, poderia haver inspiração para aproveitar o universo fantástico como referência ao real.

    Os negros duramente injustiçados nos EUA, os aspectos da vida dos ex-escravizados no início do século, a vida em condições precárias de servidão, o preconceito, os abusos, as violências sofridas e a maneira como a música foi um espaço de resistência para eles é uma linda premissa. A vilanização dos brancos que os perseguiram, tolheram, mataram, roubaram e saquearam também. Mas a narrativa sem um olhar cuidadoso para as personagens, o excesso de fatos, de motivações, de ações e pirotecnias desviam o olhar do espectador, atrapalham, poluem. Pode gerar surpresa e admiração em diversos aspectos, vide às indicações ao Oscar, mas talvez menos histórico (em todos os sentidos) do que poderia.

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