segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A pior pessoa do mundo (Verdens verste menneske) - Joachin Trier

    Joachin Trier vem consolidando seu cinema com personagens humanas, conflitos cotidianos, aparentemente triviais, mas sempre com delicadeza, profundidade e graciosidade.

    Foi assim em sua estreia com Reprise, depois em Oslo, 31 de agosto e mesmo ao misturar fantasia como em Thelma, todos comentados aqui.

    Aliás, fantasia que sempre o acompanha em jogos de linguagem... Aqui, por exemplo, temos o filme dividido em capítulos e uma narração que chega a remeter a Amelie Poulain de Jean-Pierre Jenet. Mas ele deixa a fábula do destino de sua protagonista de lado e passa a construi-la através de seu cotidiano, e aí nos conquista. A protagonista Julie, vivida pela carismática e talentosa Renate Reinsve, vive suas dúvidas sobre carreira: começa medicina, tenta psicologia, depois se volta à fotografia sem nunca estar certa de nada.


    Também no campo amoroso: começa um relacionamento com Aksel, vivido pelo "ator alterego" de Trier: Anders Danielsen Lie, mas sempre há dúvidas pairando essa relação. Uma das principais: ter ou não filho. A diferença de cerca de 10 anos entre eles os coloca com desejos diferentes de vida: Aksel quer construir, se estabelecer e Julie ainda quer explorar, errar... E erraticamente se perde, descobre outras coisas, outras paixões, outras pessoas...

Assim é acusada de não fazer o que há de "melhor" para si e para os outros, mas nem por isso se mostra a "pior"... Talvez um pouco pueril... Aliás, a personagem parece mais jovem do que a atriz, tem um comportamento de início de vida adulta, mas a atriz imprime mais segurança e maturidade que isso (difícil pensar outra atriz no papel, mas uma mais jovem teria sido mais convincente em algumas passagens).    

    A dificuldade de não saber para onde ir de Julie parece acometer Trier também, que no ápice do filme faz uma cena epifânica, com tudo em suspenso ao redor das dúvidas de Julie (um congelamento estético da cena). 

No ponto de envolvimento em que estamos na trama, passada a sequência espetacular em que ela conhece outro rapaz, numa sedução sem nenhuma explicitude e por isso mesmo tão sexy, já estamos aderidos aos seus pensamentos e emoções, não precisava nenhuma metáfora visual tão acintosa.

    Mas também não compromete, ainda mais que na sequência veremos questões de vida e morte sendo exploradas com uma densidade suave muito envolventes.

    Um filme com ritmo, cenas e personagens agradáveis e muitas questões com as quais nos identificamos e que nos fazem pensar, merecido o reconhecimento de público e crítica que teve.

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