quinta-feira, 1 de outubro de 2026

The Bear - Christopher Storer

     The Bear é uma série americana com cinco temporadas, exemplar raro, no tema, na construção das personagens, na densidade, no ritmo, na estética, nas experimentações...

    Um chef de cozinha, Carmy, resolve assumir o restaurante da família - chamado The Bear - e volta a conviver não apenas com seus familiares, mas com suas memórias, em paralelo com a vivência intensa de uma cozinha de restaurante em Chicago.

    Uma história cheia de traumas, com casamentos, separações, filhos, netos, maternidades bipolares, dependências químicas, falências, depressões, suicídios... 

    Episósios com muita ação: de negociações comerciais a elaborações de cardápio, reformas a acidentes de todos os tipos, infinitas mise en places e correrias de serviço e equipes em rotatividade trazendo conflito e dinamismo à trama e às temporadas.

    A estética da série é construída com maestria: fotografia, montagem e direção envolventes e hipnóticas e um elenco fenomenal: Jeremy Allen White, Ebo Moss-Bachrach, Ayo Edebiri, Lionnel Boyce, Liza Colón-Zayas, Abby Elliot, Oliver Platt e participações pra lá de especiais como Olivia Colman, Bob Odenkirk e Jamie Lee Curtis, como a grande matriarca de toda essa confusão.

    Nos episódios, apesar da intensidade, vamos conhecendo os dramas aos poucos, acompanhando os gritos e discussões entre as personagens e só desvendando as camadas aos poucos.

    Às vezes com episódios focados nos gestos, com horas inteiras puramente plásticas, quase como videoclipes da arte de cozinhar (como Amanhã - da 3a temporada); outros como tramas de ação, em correrias desenfreadas em busca de superações (como os episódios de finais de temporadas ou quase todos da 5a temporada); e também, e o mais especial, episódios com construção de personagens de grande complexidade e profundidade.

    Estes são os episódios mais marcantes, que nos remetem a filmes como Festa de família, de Thomas Vinterberg, o recente Valor sentimental, de Joachin Trier - comentado aqui, ou exemplares mais latinos e gritados do cinema de Fellini ou Almodóvar, por exemplo.

    Destaque para os episódios Peixes - da 2a temporada e Lascas de gelo - da 3a temporada, duas obras-primas que trazem uma densidade à série arrebatadora.

    A diversidade de narrativa e estética da série é um de seus atrativos, mas também um fator de incômodo: não há linearidade para assisti-la, fica mais difícil nos enlaçarmos do início ao fim e também nos envolvermos com todas as suas camadas. Muitas vezes, em meio a acontecimentos sérios e profundos, temos personagens inverossímeis de tão patéticas, quase como se os Três patetas invadissem This is us.

    Essa dinâmica também faz com que muitos episódios sejam cansativos: ação de menos, gritaria demais, muitas repetições..

    A extensão da série em cinco temporadas também não contribui, algumas tramas patinam, vão e voltam e perdem a força, inclusive com o final de Carmy, que bifurca para um desfecho inesperado e inconsistente.

    Ainda assim é uma série excepcional e que merece ser vista e revista, ao menos nos episódios de destaque.

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