sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

All her fault - Megan Gallagher, Kate Dennis, Minkie Spiro

    Série que está sendo bastante comentada nas redes por diferentes motivos e não à toa, ela flerta com questões diversas e em diferentes registros, porém o que poderia enriquecer a narrativa a deixa desencontrada (ou mesmo narrativamente disléxica)...

    All her fault é sobre o desaparecimento de um menino de cinco anos e a busca dos pais por seu paradeiro.

    O primeiro episódio nos captura pelo conflito denso e dramático vivido em maravilhosas atuações (embora aqui também haja desequilíbrio já que as protagonistas femininas são desenvolvidas com bastante tridimensionalidade e as masculinas ou mesmo as femininas coadjuvantes são quase caricatas e com atuações mais rasas). Sarah Snook e Dakota Fanning são os destaques.

    No desenrolar dessa apresentação é colocada também uma questão muito contemporânea e profunda de: onde estão os responsáveis por uma criança? Fica evidenciado na série o desequilíbrio entre a divisão de tarefas, o desafio muito maior que é para as mulheres conciliarem a parentalidade com seus trabalhos. Faz lembrar as tirinhas de Mary Catherine Starr: 

 

    Porém a série segue com um crime a ser desvendado e a partir daí intercala momentos de suspense e de tensão em abordagens ora de thriller ora de melodrama, acrescentando o tema de: até onde podemos chegar para defender nossos filhos e nossa parentalidade? Vale corrompermos nossa própria ética? Vale vivermos mentiras?

    Ao final traz justificativas mirabolantes e que perdem o potencial de falar de questões atuais tão ricas e necessárias, se distancia do drama real, intimista e contemporâneo da parentalidade e se torna um suspense/novela mexicana/Manoel Carlos/Gloria Perez. Tem sua força, sua potencialidade, mas se perde nas chaves em que vai se desenvolvendo.

    Começa dialogando com séries como Expatriadas ou a primorosa Mare of Easttown, segue explorando a trama intimista familiar remetendo a Big little lies, a própria Succession onde Sarah Snook também brilhou, ou a potente The Bear que também traz outro destaque do elenco: Abby Elliott

    Porém acaba por fazer lembrar da narrativa errática de Wanderlust ou Ladrões de drogas que começam com propostas consistentes, mas se perdem no caminho.

    Em All her fault o final tenta amarrar tantas situações e de maneira tão exagerada que beira a inverossimilhança, nem se assume no gênero melodramático da novela como Por amor de Manoel Carlos, por exemplo, em que se assemelha bastante na trama. E tampouco se consolida na proposta mais densa. Na busca por justificativas psicológicas acaba por desresponsabilizar conflitos cotidianos como são os da parentalidade, postos todos os dias em todas as famílias e vividos dramaticamente o tempo todo, em especial pelas mulheres.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Maya, me dê um título (Maya, donne-moi un titre) - Michel Gondry


    Michel Gondry esbanja criatividade em tudo que faz: vídeos musicais ímpares, filmes memoráveis como Brilho eterno de uma mente sem lembranças, já comentado aqui ou mais recentemente séries como a interessante Kidding.

    Mas nem sempre a originalidade de argumentos e o rico apelo visual dão conta de uma narrativa, caso de A espuma dos dias, também comentado aqui e de seu filme mais recente, o infantil Maya, me dê um título.

    A proposta é bastante simpática: Gondry dá vida a ideias de histórias de sua filha, Maya... Ela lhe dá um título e ele desenvolve a história com intervenções dela. O resultado tem momentos divertidos e singelos, mas em geral é simplório. Parece um excelente exercício familiar mas que não fosse Gondry mundialmente famoso talvez não fosse finalizado como um longa-metragem ganhando telas pelo mundo...

    Podemos ter prazer em adentrar aquele ambiente intimista em suas criações e artes, mas suas histórias acabam não envolvendo tanto quanto poderiam.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Foi apenas um acidente - Jafar Panahi

    Jafar Panahi tem se mostrado um cineasta incansável: artista inquieto e criativo, não para sua expressão apenas pela arte, mas para registrar e denunciar o momento político do Irã e que, em contrapartida, geram interesse não apenas como obras de artísticas, mas como documentos históricos.

    Se distanciando de um início mais puro e bucólico como o maravilhoso Balão Branco, Jafar vem se consolidando com seus filmes clandestinos, que ele faz enquanto está preso ou de maneira escondida, com a importante colaboração de parceiros ao redor do mundo. É o caso de Isto não é um filme e Cortinas Fechadas - já comentados aqui e é o caso de seu filme mais recente: Foi apenas um acidente.

    
    O filme traz um homem que reconhece uma autoridade do regime e que o torturou. Ele pensa em se vingar, mas hesita, com dúvida de se tratar realmente de seu torturador. Ele vai em busca de outras pessoas que possam ajudar a confirmar a identidade do homem e acaba reunindo outras pessoas que foram torturadas pelo regime.

    

    O filme, feito clandestinamente, vai trazendo pequenos conflitos dessa trajetória, em registros quase documentais, muitas vezes pendendo para o cômico.

    Mas o que a obra traz de mais especial são seus diálogos, a conversa entre as vítimas sobre as prisões, as torturas e como buscar mudança: é pela vingança? É pelo esquecimento? É pelo perdão?

    O filme não aprofunda muito as questões e muito menos traz as respostas, mas certamente sensibiliza para o tema, nos sensibiliza para suas dimensões históricas, políticas, éticas e também as dimensões psicológicas.

    Singelo, bonito e muito necessário, por isso principalmente que parece atrair tanta simpatia e reconhecimento no mundo todo, conquistando a palma de cannes e concorrendo ao oscar, por exemplo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ainda estou aqui - Walter Salles

    Walter Salles é muito cuidadoso em escolher seus projetos, sempre com grandes obras e personagens como referência e/ou inspiração traz obras consistentes e com grandes equipes, como Terra Estrangeira, Diários de Motocicleta ou Na estrada - já comentado aqui.

    Nem sempre tudo isso garante a obra-prima, mas quando acontece temos a chance de ter um Central do Brasil, por exemplo.

    Ainda estou aqui também conquistou público e critica Brasil e "afora"...

    A história da família Paiva comoveu pessoas ao redor do mundo. Uma família de classe média alta no Rio de Janeiro orbitada ao redor de Rubens, engenheiro, deputado, pai de família, bom amigo, que vê sua vida abalada pelo golpe de 64: perde seu mandato, amigos, estabilidade... Ainda assim segue a vida e se apoia na família: a mulher, os cinco filhos e os tantos amigos e agregados que circulam em sua casa. Uma casa festiva e movimentada, também pelas inquietações e ações clandestinas em que ele se envolve... Mas nada tão radical que parecesse justificar seu fim: o sumiço silencioso dado pelos militares.

    E o drama do filme surge aí, com o desaparecimento de Rubens, quem vive o grande conflito não é ele, mas sua mulher, Eunice. Eunice que o busca incansavelmente e tenta seguir a vida cuidando dos cinco filhos.

    Não é fácil cativar pelo silêncio. Fernanda Torres que dá vida a Eunice não constrói uma personagem carismática e nem guerreira, é na resiliência, na persistência, na constância que estão suas forças. Por isso não envolve todos e não brilha de maneira óbvia. Como ela mesma diz, sua busca é por uma personagem estoica.

    Assim o filme não tem curvas tão intensas, não apresenta arroubos emocionais ou de ação. Sangue e lágrimas, tônicas daqueles tempos, não estão presentes aqui.

    O filme envolve menos como drama, mas nem por isso faz refletir menos, talvez ao contrário. Talvez tenha feito tanto sucesso por permitir ao público se identificar com o cotidiano daquela família, por nos convidar a estar dentro, fazer parte e, assim, viver sua dor, suas dúvidas, sua angústia, sua perda.

     A violência de uma ditadura não está apenas em violências explícitas, mas nas restrições e proibições: nas mentiras, na omissão, na desinformação, na incerteza e tudo isso está muito bem impresso no filme. Forte contribuição para a luta de Eunice: que a história não seja esquecida e que permaneça aqui, hoje e sempre.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Argentina 1985 - Santiago Mitre

    Santiago Mitre já havia se inscrito em temas político, contra injustiças sociais e imerso no ambiente da justiça. Trouxe essas temáticas nos filmes de Pablo Trapero que roteirizou e também em seu longa Paulina, já comentado aqui.


    Em Argentina 1985 Santiago tematiza uma passagem da Argentina do tempo de sua infância, quando a dura ditadura vivida em seu país recebeu um julgamento.

    O filme é bem didático, traz o passo a passo do julgamento e apresenta os principais envolvidos. Talvez pudesse adensar mais as personagens e explorar mais as situações, mas apenas trazer o básico já foi bastante importante.

    Argentina 1985 faz pensar e rememorar. Dá uma aula sobre a importância da revisão história de acontecimentos importantes como um golpe militar, um governo autoritário, sangrento e que ignora leis. Vale em especial para brasileiros que não olharam de frente essa passagem da história, que em sua luta pela anistia dos guerrilheiros contra a ditadura acabou aceitando a anistia ampla, geral e irrestrita. 

    Não nos confrontamos com nossos traumas, adotamos a postura do "deixa disso" (que volta até hoje em novas situações e roupagens), não analisamos nossas posturas, nosso comportamento, nosso desejo, nossa repressão, nossas feridas. Como curá-las então? Não temos vitórias como essa da Argentina, mas temos muito a resgatar e contar. E nosso cinema também nos ajuda em inúmeros exemplos, seja em filmes do início da retomada do cinema brasileiro como Lamarca ou O que é isso companheiro? Filmes dos anos 2000 como Hoje - já comentado aqui. Ou até filmes em que esse é o contexto de fundo como Tatuagem ou Meu nome é Gal - também comentados no blog. Ou ainda nos sucessos recentes como Ainda estou aqui ou Agente Secreto. E que siga em mais produções, para seguirmos a máxima de Freud de "repetir, recordar e elaborar".

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Hacks - Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky


    Hacks caminha já para sua 5a temporada, um sucesso desde sua estreia, com muito público e prêmios. É mais uma série metalinguística sobre a indústria audiovisual, a trama aqui é sobre o desenvolvimento de programas para a comediante Deborah Vance interpretada por Jean Smart, em sua busca por recolocações e tentativas de se manter ou até ascender em seu sucesso, assim conhece a roteirista em início de carreira Ava Daniels, vivida por Hannah Einbinder.

    A série explora muito bem situações do showbusiness, abordando principalmente a construção do humor: a ironia, a acidez, as críticas, o limiar com ofensas, preconceitos, moralismos...

    E o que cativa nessa série nessa construção é a relação entre as protagonistas, que também se criticam, se ofendem, mas aprendem muito uma com a outra. Elas acabam se alimentando em suas trajetórias e vão criando uma afeição cheia de ambiguidades.

    O público transita com elas, entre defesas e ataques, empatias e antipatias, torcidas contra e torcidas pró. Com isso acaba sendo seduzido menos por Hollywood e mais pela intimidade das personagens, por seus aspectos mundanos e cotidianos, não são as produções milionárias, os picos de audiência, os produtos em franquia, os prêmios e reconhecimentos, mas o desejo de amar e ser amada de Deborah e Ava.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Manas - Marianna Brennand

    Estreia na ficção de Mariana Brennand, que já havia feito trabalhos documentais como o filme sobre o seu tio, o importante artista plástico Francisco Brennand (já comentado aqui), Manas também surgiu como um projeto documental.

    Mariana queria investigar a exploração sexual de meninas no norte do país, entretanto se deu conta de que ninguém ali gostaria de falar sobre o assunto e se retraumatizar com a experiência e também seria mais difícil identificar e responsabilizar os criminosos. Assim a ficção lhe pareceu um caminho, e que ela trilhou talentosamente.

    Falar sobre meninas prostituídas poderia ter ficado panfletário ou melodramático demais, mas ela soube dosar: construiu uma personagem densa, com ambiguidades não apenas entre o ser menina e ser mulher, mas entre a ignorância e o desejar, o querer ser desejada e estar longe do desejo. Ela não é colocada como inocente, tem a complexidade de quem entende algo, mas não entende tudo, em que tem interesses, mas onde é vítima.


    O casting para esse trabalho também foi muito bem feito, a menina escolhida para protagonista nos cativa em suas ações e principalmente em seus silêncios. Seu olhar sempre parece dizer muito, mas não nos revela muito sobre o que.

    São lacunas que compõe o filme, que lhe dão forma e que ornam com o ambiente amazônico em que se passa a trama.

    A beleza está lá e assim a corrupção dessa beleza se torna ainda mais ameaçadora.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Dez por cento (Dix pour cent) - Fanny Herrero

    Tantas séries ganharam versões em diferentes países, essa é uma que merecia muitas versões locais!
    Afinal é muito interessante ter uma narrativa sobre o processo de produção de obras audiovisuais, mas com os atores reais não apenas como elenco, mas como trama, apresentados como caricaturas deles mesmos. Uma ideia genial, feita aqui com maestria: drama, humor, ritmo, sensibilidade, tudo em boa medida.


    São três temporadas curtas cuja espinha dorsal são as personagens "anônimas", os trabalhadores de  uma agência de atores que lutam por seu lucro de "dez por cento" sobre os ganhos dos atores famosos. Assim vemos o cotidiano de disputa entre agências e agentes diante de cada artista, disputas por bons trabalhos, pelo sucesso em convites e audições, pelas boas negociações, os conflitos entre propostas, ideais e buscas pessoais dos atores, etc.

    Mas o charme está em, a cada episódio, ter uma grande estrela convidada que é explorada em suas características: atrizes que querem ser levadas a sério a partir de seus papéis, atrizes que querem ser bem representadas, que têm que enfrentar o envelhecimento ou a solidão, que têm que superar a marca de certos papéis... Ou ainda episódios em que se exageram características reais das personagens, como o modo obsessivo-workaholic de Isabelle Hupert, ou a dificuldade diante da pecha de símbolo sexual de Mônica Belucci.

    A série nos traga para sua trama, mas também ecoa todo imaginário que temos com artistas como Cécile de France, Charlotte Gainsbourg, Jean Reno, Juliette Binoche, Sigourney Weaver na fértil cinematografia francesa e além.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Estúdio (The Studio) - Evan Goldberg, Alex Gregory e Peter Huyck


    Uma série leve e divertida, apesar da complexidade e excentricidade do cotidiano apresentado: bastidores de Hollywood.
    A primeira temporada conta com 10 episódios que apresentam dilemas internos da indústria audiovisual, por exemplo na  questão da busca de sucessos pessoais num ambiente muito marcado pela vaidade e pelo ego, onde ter reconhecimento, bajular pessoas reconhecidas e temer se indispor com elas, almejar prêmios etc é o dia-a-dia. Com esses conflitos temos uma grande trama sendo desenvolvida, com as personagens fixas tentando crescer e se dar bem.

    Também temos em praticamente todos episódios o conflito entre a busca artística e a busca de lucros, assim incluir ou não merchandising, aceitar ou recusar filmagens mais demoradas e custosas, são exemplos de temas de episódios.

    A série traz ainda a dificuldade entre se manter em narrativas de temáticas atuais e o cuidado com polêmicas, como o desafio de ser politicamente correto e ainda assim poder apresentar conflitos e dramas.

    Para quem gosta de comédia há muitas cenas parar rir e se divertir, para quem quer adentrar na metalinguagem dos filmes, séries e showbusiness há muitas cenas para dialogar, já para quem quer drama as cenas não se adensam muito e não aprofundam suas temáticas, ficam mais na curiosidade de bastidores e nos exageros das piadas.