Walter Salles é muito cuidadoso em escolher seus projetos, sempre com grandes obras e personagens como referência e/ou inspiração traz obras consistentes e com grandes equipes, como Terra Estrangeira, Diários de Motocicleta ou Na estrada - já comentado aqui.
Nem sempre tudo isso garante a obra-prima, mas quando acontece temos a chance de ter um Central do Brasil, por exemplo.
Ainda estou aqui também conquistou público e critica Brasil e "afora"...
A história da família Paiva comoveu pessoas ao redor do mundo. Uma família de classe média alta no Rio de Janeiro orbitada ao redor de Rubens, engenheiro, deputado, pai de família, bom amigo, que vê sua vida abalada pelo golpe de 64: perde seu mandato, amigos, estabilidade... Ainda assim segue a vida e se apoia na família: a mulher, os cinco filhos e os tantos amigos e agregados que circulam em sua casa. Uma casa festiva e movimentada, também pelas inquietações e ações clandestinas em que ele se envolve... Mas nada tão radical que parecesse justificar seu fim: o sumiço silencioso dado pelos militares.
E o drama do filme surge aí, com o desaparecimento de Rubens, quem vive o grande conflito não é ele, mas sua mulher, Eunice. Eunice que o busca incansavelmente e tenta seguir a vida cuidando dos cinco filhos.
Não é fácil cativar pelo silêncio. Fernanda Torres que dá vida a Eunice não constrói uma personagem carismática e nem guerreira, é na resiliência, na persistência, na constância que estão suas forças. Por isso não envolve todos e não brilha de maneira óbvia. Como ela mesma diz, sua busca é por uma personagem estoica.
Assim o filme não tem curvas tão intensas, não apresenta arroubos emocionais ou de ação. Sangue e lágrimas, tônicas daqueles tempos, não estão presentes aqui.
O filme envolve menos como drama, mas nem por isso faz refletir menos, talvez ao contrário. Talvez tenha feito tanto sucesso por permitir ao público se identificar com o cotidiano daquela família, por nos convidar a estar dentro, fazer parte e, assim, viver sua dor, suas dúvidas, sua angústia, sua perda.
A violência de uma ditadura não está apenas em violências explícitas, mas nas restrições e proibições: nas mentiras, na omissão, na desinformação, na incerteza e tudo isso está muito bem impresso no filme. Forte contribuição para a luta de Eunice: que a história não seja esquecida e que permaneça aqui, hoje e sempre.

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