quinta-feira, 26 de março de 2026

Tremembé - Vera Egito / Ullisses Campbell

    Tremembé foi uma das séries brasileiras recentes de maior sucesso. Inspirada na pesquisa e livro de Ullisses Campbell, chama a atenção pela qualidade técnica: bem produzida, dirigida e com ritmo - mérito de roteiro e montagem. 
    O casting é um capítulo à parte: atores carismáticos, impactantes e de acordo com suas personagens. Seja em interpretações de maior densidade dramática ou aquelas em que incorporam mais um tipo, a maioria do elenco parece muito adequada em seu papel e contribuindo na potência da trama.
    Tudo confluindo então para um grande envolvimento do espectador e uma maratonagem dos seis episódios.

    Entretanto, justamente aquilo que mais atraiu o público é o que parece o mais problemático: por que contar essa história, por que o interesse por essas personagens? Por que adentrar um presídio com pessoas que cometeram crimes conhecidos e de ampla cobertura midiática? Por que seguir fazendo isso e buscar mais histórias para outras temporadas?
    A resposta leva ao subtítulo da série: A prisão dos famosos, e parece destacar dois problemas: primeiro que, ao escolher essas pessoas há um recorte político. Narrar com densidade e tridimensionalidade a história de criminosos é muito importante, já que ninguém é 100% vilão e fugir de maniqueísmos parece sempre saudável. Mas aqui há realmente exemplos complexos de psicopatias graves. Além disso, a escolha de humanizar e glamourizar essas pessoas num universo de um Brasil com tantos exemplos, em especial no sistema prisional, de figuras injustiçadas, mártires demonizados com tantas chacinas comemoradas país afora e sem que a série aprofunde questões de gênero, raça e classe, vira uma escolha estética e ética frágil.
    O segundo é a provocação da curiosidade das pessoas pela tragédia alheia, com elas se comovendo sem estarem diretamente implicadas, num interesse que beira a morbidade, como o desejo de olhar um acidente de trânsito, de se fixar em capas de Notícias Populares, de consumir tragédias em Aqui agora, Programa do Ratinho e similares sensacionalistas... Há até um entretenimento histórico, de ir lembrando sobre os crimes tão divulgados na época de seus acontecimentos e conhecer os desdobramentos, nem sempre tão difundidos. 
    Não que as obras audiovisuais precisem trazer um discurso ideológico denso, claro que é possível produtos apenas de entretenimento, mas explorar essa curiosidade despertada em um tempo em que se relaciona com o outro para se comparar, para viver com eles o que não vivemos nós mesmos, consumindo revistas de fofocas, reality shows, redes sociais de influenciadores e Tremembé... Há que se questionar...

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