quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Democracia em vertigem - Petra Costa

     Democracia em Vertigem é o terceiro longa de Petra Costa, que em sua trajetória foi encontrando um lugar para elaborar seus afetos e olhar para o mundo. 


    

    Fosse sobre seus avós, como no curta de estreia Olhos de Ressaca; em seu primeiro longa Elena, em que faz uma elaboração da morte de sua própria irmã; na troca com outros artistas e na documentação cruzada sobre a montagem de uma peça e a gestação de uma criança como em Olmo e a gaivota; ou aqui pra falar da passagem de vida de um país...

    Em 2013, como muitos que viram manifestações crescerem no Brasil, em quantidade e intensidade, Petra começou a se inquietar. A inquietação cresceu e foi tomando forma quando foi se preparando um golpe, dado com o impeachment da presidente Dilma em 2016.

    Ali Petra se dispôs a documentar o momento, entendendo como uma guinada histórica na jovem retomada da democracia brasileira após décadas de ditadura.

    Uma das inspirações de Petra foi A Batalha do Chile, de Patrício Guzmán, que também na época se viu perdido, angustiado, mas buscando ações frente a ações funestas. Ele documentou diferentes pessoas de distintos grupos e regiões para dar um panorama da luta que se armava.

    Petra fez o mesmo, saiu dando rajadas de registros em todo tipo de evento político: manifestações pró-impeachment, anti-golpe, entrevistas com pessoas comuns, com partidários, apartidários, com políticos, com artistas, consigo própria...

    Assim como nos outros filmes, buscou paralelos pessoais e, vinda de uma família influente no país, se pôs em cena, mais uma vez trazendo sua voz como fio condutor.

    Esse recurso pode parecer pueril para alguns, mas diz de uma implicação e disposição cada vez mais necessárias.

    A década seguinte chegou com mais riscos e erosões, o acordo dito em 2016 que envolveria diferentes estratos da sociedade, multi partidos e "com o supremo, com tudo" foi colocado no ventilador, a política para a maior parte da sociedade foi até assassinada - como apurou o jornalista Tomás Chiaverini em podcast. Em grande parte dos cidadãos se chega em 2026 com uma perplexidade e descrença num futuro.

    Petra fala em 2019 de uma democracia em vertigem, olha para o passado recente, contextualiza brevemente dentro da história do país e nos deixa com certa náusea e bambeamento com sua vertigem.

     Fala do passado de exploração desde a vinda dos portugueses para a região, das famílias beneficiadas, da expansão do país, da construção de Brasília, da organização da política, dos movimentos contra oligárquicos, da luta da classe trabalhadora, das disputas presenciais de Lula, de seus governos, de sua sucessão, de sua derrocada...

    Seu filme seguinte Apocalipse nos trópicos, de 2024, traz no título uma palavra que nos remete a fim do mundo, mas que também significa desvendamento, mas em 2026 fica difícil saber para onde olhar... 

    Temos um medo do futuro generalizado, que produz ao redor uma ascenção do desejo de olhar para si, de se proteger e assim vemos movimentos de extrema direita ganharem força e, por outro lado, para aqueles que sonham com projetos mais amplos - democracia talvez? socialismo ainda? anarquias? Que trilha pode haver? Como lutar por uma ética e por ideais de justiça em sociedade? Como sonhar?

    Não há respostas claras. 

    A democracia passa por ambivalências e certezas são armadilhas extremistas. E, na dificuldade de se sonhar conjuntamente, certamente um caminhos é passar por um olhar sob si e aí o valor de obras como essa.

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