quinta-feira, 23 de abril de 2026

DTF St. Louis - Steve Conrad

    Steve Conrad parece gostar de histórias emocionantes e com excentricidades, por exemplo no roteiro do filme Wonder, sobre um menino sindrômico, mas que, na direção de Stephen Chbosky, o melodrama transborda um pouco.

    Já aqui em seu novo trabalho, DTF St Louis, em que Conrad também se arrisca em dirigir, sua combinação de roteiro e direção vem com maturidade e sensibilidade.

    A trama envolvendo um trio romântico de meia idade é envolvente e surpreendente. A maneira como eles vão se conhecendo e relações se estabelecendo adensadas com a morte de um deles instiga e conecta o espectador.

    A história, mais do que acompanhar a investigação dessa tragédia e seu possível julgamento, mergulha nas personagens, onde o que marca é o ritmo que os atores imprimem. 

    O tempo da série parece ralentado, mas não é apenas por uma questão de velocidade, e sim um sublinhar das falas e reações das personagens. Efeito reforçado pelas cenas "dialogadas" em linguagem de sinais e seu silêncio eloquente e expressivo. 

    Quase como uma sitcom que espera fazer de reações gagues para dar tempo para risadas. Ou em obras que buscam o estranhamento, como personagens dos irmãos Coen, que também não trazem um ritmo fluído e nos levam a um lugar bizarro e incômodo. 

    Ou  filmes de Sophia Coppola, como Lost in translation, que fala justamente de uma comunicação em entrelinhas, com personagens perdidas nas possíveis traduções e interpretações.

    Em DTF St Louis a construção marca mais certa perplexidade. As personagens falam como quem transborda o que lhes vem à cabeça, numa sinceridade ingênua e pueril, só que os interlocutores ao invés de estranharem, rechaçarem, enquadrarem ou ridicularizarem o outro, elas acolhem o que é dito. 

    Pouco a pouco vamos descobrindo a afetividade de cada personagem e o encantamento que se produz a partir daí: Floyd, o homem amoroso com uma carreira fracassada, casado com Carol, uma mulher ambiciosa e batalhadora, mãe de um menino com dificuldades de interação, que conhecem Clark, um homem de mais êxito profissional, mas extremamente solitário. E os investigadores, que começam frios e distanciados, mas que se enredam na trama.

    Eles interagem e se apresentam com detalhes e declarações simples (mas daquela simplicidade que poderia estar em poemas e canções). E a direção emoldura cada pequeno gesto e dá espaço para as atuações se destacarem (em todos os sentidos). Assim vamos nos comovendo com as personagens e nos apaixonando junto com elas.

   
A série tamabém tem o mérito de trazer nuances com o avançar dos sete episódios: tenta desvendar os motivos da morte de Floyd nos fazendo gostar e desconfiar, descobrir não só as qualidades, mas as vulnerabilidades encantadoras de cada um ou as fraquezas que  comprometem a vida dos demais e que podem ser vistas como problemáticas. 

Por exemplo o fracasso de Floyd que endivida toda a família, a ambição de Carol que passsa a desprezar Floyd, as tentativas de ajudar de Clark, mas que expõem e humilham os outros dois.

    Assim esses heróis passam a parecer vilões e depois voltam a parecer heróis e terminam sendo extremamente humanos, numa afetividade que se fragiliza frente a um mundo tão árido, até indicando certa crítica a uma sociedade (em particular a norte-americana) que endivida sua população, que não dá muita oportunidade de trabalho, que não incentiva nem acolhe a diferença, que promove bullyigs e competitividade desde a infância... 

    Uma série sobre encontro, mas também sobre um tempo em que se sucumbe às próprias fragilidades.

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