A dupla diretor - Hernánn Goldfrid e roteirista Emanuel Diez, trazem sua experiência em narrativas de gênero, num encontro do audiovisual argentino em um caráter mais pop para uma premissa com aspectos bastante interessantes:
Assim, Ulises, vivido por Ricardo Darín, passa a testar novas maneiras de proceder, não mais exercendo a abstinência e esperando o processo moroso de emancipação e tomada de consciência por cada paciente, mas intervindo em suas vidas e provocando verdadeiros "tratamentos de choque".
Seu principal experimento se torna um escritor, vivido por Diego Peretti, que enfrenta uma crise criativa. Ulises vai então interferir no processo do escritor, desde uma investigação de sua rotina, até chegar a se passar por ele.
Entretanto, assim como Ulises perde a mão nas análises selvagens que faz dos seus pacientes, o diretor também perde a mão da aproximação que conquista com seus espectadores: desiste da seriedade dos temas que está tratando e passa a explorar e brincar com diferentes gêneros, da comédia ao policial, do suspense ao melodrama, sem muito critério.
As questões psíquicas e a maneira de abordá-las que são tão instigantes e que até poderiam ser tratadas em tom cômico acabam perdendo sua importância na trama: a insegurança de uma moça que por conta de Ulises enfrenta sua mãe autoritária, uma mulher com medo de encerrar um casamento e cujo marido é instigado por Ulises a romper com ela ou o escritor que finalmente publica um livro novo após a terapia com Ulises, tudo se torna pano de fundo para uma jornada de anti-herói de Ulises.
Mas tampouco sabemos o quanto Ulises está se perdendo, já que ele não é apresentado com profundidade em nenhum momento, o vemos solitário, acompanhamos seu afã de salvador da pátria, percebemos que ele vai passando dos limites, mas sem aferir ao certo o quanto compromete sua vida e suas relações íntimas.
Ao final não se aproveitam as reflexões sobre aspectos ambivalentes das inseguranças, dependências e travas dos sujeitos. Não levamos adiante questionamentos sobre como nossos sintomas revelam nossa essência e, por isso, podem ser vistos como defeitos, mas também como qualidades. Explorar essa tridimensionalidade das personalidades traria mais profundidade sem que impedisse que a narrativa flertasse com o humor e com obras mais populares.
A terapia certa mostra que um filme pode começar com muito potencial, mas terminar banal e previsível.


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