quarta-feira, 24 de junho de 2026

A graça (La Grazia) - Paolo Sorrentino

    Mais uma vez Paolo Sorrentino nos "agracia" com uma personagem densa em um ambiente excêntrico.

  
    Aqui é o caso de um presidente em exercício na Itália, vivendo o fim de sua vida política, mas também em um balanço geral de sua jornada. 

    As cenas são mais intimistas e menos "vistosas" do que as de filmes anteriores como Juventude ou A grande beleza, já comentados aqui, parecem dialogar mais com o universo dos filmes papais Habemus Papam e Conclave, que trazem a mesma solidão de um homem no fim da vida em uma posição singular.

Mariano de Santis, o protagonista vivido por Toni Servillo, se vê dividido entre demandas presidenciais como a aprovação de uma lei em direito à eutanasia e um par de indultos, demandas costuradas por relações íntimas dele, como amigos do direito (ele vem de uma carreira no judiciário), com sua amizade e confissões com o Papa ou com sua filha, também juiza e que se coloca como seu braço direito. 

    Assim se apresentam discussões em que o político e o íntimo se cruzam. Inclusive, em meio à discussão sobre a eutanásia, Mariano se vê diante da doença de seu cavalo e vive o impasse entre sacrifica-lo ou não.

    Para a decisão dos indultos ele e sua filha também visitam os presos e conhecem suas histórias, se inteirando sobre o caso, mas também se envolvendo com aquelas pessoas.

    E em suas reflexões sobre o fim da vida, as conversas filosóficas que tem com o Papa também nos instigam.

   
    Como espectadores nos vemos confundidos entre um olhar mais racional sobre a trama e o desejo de mergulharmos naquelas histórias. Porém o que Sorrentino nos entrega é árido, fica difícil adentrar. São frestas e recortes de uma história em que se intui muita densidade. Há silêncios e contemplações que apesar de não nos dar elementos concretos para esse mergulho, nos dão tempo e espaço para preenchermos as lacunas e nos aproximarmos de alguma forma.

    Por exemplo, no plano pessoal, vemos Mariano sofrendo com o luto da morte da mulher e a angústia de saber que foi traído por ela mas não saber por quem, essaa dúvida o corrói e o põe em investigação com as pessoas próximas. Diante de uma história de amor, o que seria esse esclarecimento? Talvez uma validação ou invalidação de suas memórias amorosas?

    Nesse plano também entram as histórias dos filhos, adultos maduros que o acusam de negligência, mas que demonstram se importarem muito com o pai, seja como a filha, que segue seus passos no direito, trabalha ao seu lado e vigia sua saúde, ou o filho, que se afasta para se libertar do "julgamento" paterno, poder amadurecer em um outro caminho.

   
    Apesar da aridez e rigidez, Mariano se mostra sensível e se comove com fatos e situações, como com a descoberta de músicas de rap, tão distantes das clássicas ouvidas por ele. Contrastes de cultura e de emoções, que nos põe instigados e intrigados diante da  "graça", palavra de uso similar a que fazemos no português, mas que em italiano também se refere ao "agraciamento" de indultos e que no filme vai além das situações concretas descritas e fala mais sobre aprisionamentos e libertações do amor e da vida.

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